In Leonardo Carvalho Reflexões

Quanto vale a vida?



Me veio a mente um episódio que realmente me deixou bastante abalado. Era uma quinta feira de dezembro de 2011. Trabalhava em uma livraria no centro de Belo Horizonte. Lembro-me que estava acontecendo muitos acidentes. O transito exaustivo por causa do movimento das compras de natal, fez com que a volta para casa se tornasse uma sina.

Naquele dia acabei saindo mais cedo do trabalho devido ao meu compromisso com os estudos bíblicos na PIB Nova York. O ônibus demorou bastante, mas o transito não estava caótico como de costume. Ao chegar perto da Lagoa da Pampulha, próximo a entrada da Avenida Dom Pedro I, o transito simplesmente parou. Ficamos cerca de 20 minutos estáticos, sem saber o que estava havendo. Aos trancos do ônibus, íamos de maneira bem lenta sentido a região de Venda Nova.

O ambiente estava confuso. Muita gente se escorando uma nas outras, um calor insuportável e pra variar as pessoas ficavam mais tensas e nervosas por aquela situação. Quando chegamos próximo ao bairro São João Batista, mudamos para a pista esquerda, próximo ao canteiro central. As outras duas pistas estavam tomadas de viaturas da polícia e ambulâncias. Alguns metros a frente um caminhão e um rastro de sangue no asfalto. Mais a frente uma moto e um corpo estendido na avenida com um cobertor.

O fato foi que ao tentar uma ultrapassagem, o motociclista bateu em um carro pela esquerda e acabou caindo. O motorista do caminhão não conseguiu uma frenagem a tempo. Aquele rapaz morreu no local de maneira triste, com partes do seu crânio espalhadas por toda a avenida. Fiquei bastante chocado pela violência com que tinha acontecido aquele acidente. Mas nem chegou perto do que realmente me deixou perplexo. Após 1 hora e meia de apreensão e nervosismo, as pessoas do ônibus começaram a esboçar reações que me fizeram refletir seriamente em como enxergamos a vida e as pessoas. Muitos gritaram: “É por isso? Motociclistas têm que morrer mesmo! São todos inconsequentes!”. Outros diziam: “Estou perdendo minha novela por causa disso?”. Nem por um minuto passou na cabeça daquelas pessoas aquela vida que se findou. Na família, nas expectativas, nos sonhos terminados ali.

Pode-se até vir ao pensamento: Mas não o conhecíamos! Quem enxergamos como nosso próximo? Quem pode se considerar humano, e não se sensibilizar com tamanha tragédia? Como não refletir na vida, nas coisas futuras? Como não compartilhar tamanha tristeza em ver a dor escancarada no olhar de cada familiar? Como não ponderar que estamos cada vez mais duros, insensíveis. Que estamos escravos de nossa rotina e a mesma nos fez criar um mundo aparte, onde a única coisa que nos importa somos nós. Onde a vida alheia não tem relevância. Onde os relacionamentos são exclusivamente comerciais, com uma pitada de oportunismo. Onde cada dia mais estamos conectados no que chamamos de redes sociais, mas paradoxalmente, mais e mais sociopatas. Nos isolamos de qualquer compromisso com as pessoas para não criarmos nenhum vínculos. Vivemos, ou melhor, vegetamos em um mundo desumano. Quanto vale a vida? Quando vale? Pense, reflita, pondere...reforme-se.

Related Articles