Diagnóstico de Calamidade!

By Leonardo Carvalho - sexta-feira, abril 05, 2013

por Leonardo Carvalho
Nos últimos dias tem se alastrado em muitos estados brasileiros uma epidemia de dengue. Já são mais de 65.000 pessoas infectadas. E como intocáveis, sempre acompanhamos esses fatos pela TV e imaginando nunca estar sujeitos aos mesmos. Nesses últimos dias testemunhei a situação calamitosa da saúde pública. Minha esposa contraiu a doença e foi parar em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Belo Horizonte com suspeita de dengue hemorrágica.
Tudo começou com dores nas articulações e na cabeça na tarde de terça. Na quarta pela manhã levantou cedo para o acolhimento no Centro de Saúde. Precisamente as 11:30 recebemos uma ligação do Centro de Saúde solicitando um acompanhante, pois ela foi diagnosticada com a doença e precisava ser encaminhada a UPA de Venda Nova com urgência. Preocupado desci às pressas ao Centro de Saúde. Ao chegar me deparei com minha esposa desesperada, após ser diagnosticada com a doença e com suspeita de um agravamento no quadro.
A auxiliar de enfermagem que nos acompanhava ligou duas vezes para a UPA, pois a ambulância estava 3 horas atrasada. Cheguei ao Centro de Saúde perto das 12:00 e a ambulância só foi enviada as 15:15. Ao saírmos do centro de saúde, um amigo muito querido que trabalha há nove anos na unidade me disse nunca ter visto tamanho reboliço por causa da epidemia. Fomos acompanhados por uma auxiliar de enfermagem até a UPA. Ao chegarmos, ela foi providenciar a ficha do encaminhamento do Centro de Saúde a UPA.
Após 30 minutos, fomos chamados para a sala de classificação de risco. Meu espanto é que o enfermeiro fez perguntas sem nenhum conhecimento do caso da minha esposa. Ao nos encaminhar ao interior da unidade, a responsável pela portaria me pediu a ficha. Ela surpresa pergunta a minha esposa Cláudia se seu nome era Getúlio de 37 anos. Parece piada mas trocaram as fichas e acabaram transcrevendo o prontuário da minha esposa para a ficha do Getúlio. Pensei comigo: “Coitado do Getúlio!”
No interior da unidade, nos encaminharam a um determinado setor. Meia hora depois, uma enfermeira nos informou que o local não era ali. Lá fomos nós para local designado. Pela demanda foi montado um centro provisório para diagnóstico e tratamento. Parecia uma gaiola em situação precária. Com a chuva forte os assentos estavam molhados e a única coisa que nos separava do estacionamento era uma grade. Vazamentos no teto e goteiras no cabeamento de tomadas elétricas eram coisas que os profissionais do local lidavam com naturalidade.
Aguardamos quase uma hora e nem sinal de atendimento. Ao perguntar, pasmo descobri que a ficha da minha esposa não estava lá, tinha sido perdida. Minutos depois descobriram que a ficha tinha ido para a administração. Quando encaminhada ao setor de atendimento onde estávamos, o mesmo enfermeiro que havia feito a classificação de risco estava lá e inacreditavelmente desconhecia novamente o quadro de minha esposa mesmo diante do prontuário e o encaminhamento do Centro de saúde. Voltamos para aguardar de novo. Com o soro totalmente escoado e o sangue coagulado no tubo tentamos várias vezes conseguir um novo, mas muitos estavam trocando de turno e a prioridade agora não era o atendimento e sim ir embora.
As 20:00 aos trancos fomos atendidos pelo médico, que pediu um hemograma que iria descartar um quadro mais grave. As 21:15 o sangue foi coletado e recebemos o resultado só as 23:30. Após liberados finalmente a Cláudia foi medicada, pois não tinha sido ainda. Essa foi a recomendação da médica que a atendeu ainda no Centro de Saúde. Disse que se a medicasse ali, não seríamos atendidos com urgência na UPA. E após 8 longas horas suportando muitas dores pôde finalmente ter um certo alívio.
Acho que por escrever muitos artigos de maneira crítica possa gerar um certo tom de desconfiança e exageros nos relatos dos fatos ocorridos. Mais infelizmente, essa foi a mais pura e cristalina realidade do que vivemos. Meu objetivo com este post não é transcrever auto piedade, pois havia dezenas e dezenas de pessoas em estado crítico e o que vivemos foi muito pouco em relação ao que eles enfrentaram para serem atendidos, diagnosticados, examinados e medicados. Meu objetivo é mostrar o que testemunhei atônito em cada terrível detalhe.
Pude ver o caos em que se encontram os centros especializados e o despreparo de muitos profissionais da área. Muitos foram educados, profissionais e prontos a ajudar, mas a maioria nos respondia de maneira áspera coisas das quais nem havíamos perguntado. Muitos estavam já armados a qualquer esboço de diálogo com a situação em que nos encontrávamos. E como tais, empunhados com um escudo de indiferença as necessidades de muitos que precisavam de atenção e humanidade. Muitos destes funcionários (afirmo com certeza) não foram equipados, muito menos treinados para lidar com tamanha situação. Sem condição mínimas de estrutura, era o que podíamos ver de maneira escancarada nos gestos desorganizados e ineficientes dos serviços.
Pela manhã assistia uma entrevista do Prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda. A grande preocupação era acabar com a epidemia por causa dos jogos da Copa das Confederações que a cidade irá sediar. Foi revoltante ouvir isso de manhã. A noite naquele contexto vivenciado, não dava para conceber tão mesquinho comentário. Tudo que penso é no que muitos irão passar ou no que muitos estão passando agora. Sem a menor condição de planejar e prevenir, a população é levada a ilusão de uma gestão atuante e eficiente da Prefeitura, vendidos por comerciais milionários, cheios de promessas e resultados manipulados, ausentes de realidade. Realidade vivenciada somente pelos pobres, que de gestão a gestão estão sempre à mercê de uma saúde precária com a pífia desculpa de que em todo lugar é assim.
Bom, a Cláudia para a glória de Deus está se recuperando, já quem está à mercê de cuidados, minha oração é que Deus tenha misericórdia e traga alívio em meio ao desconforto da doença. Sem meias verdades, doa a quem doer.  

Extraído do Blog Sem meias Verdades           

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