Tratamento de dependentes de crack une ciência e religião

domingo, 28 de julho de 2013


São 7h e o som grave de um pequeno sino metálico ecoa na chácara de 30 mil metros quadrados da Conquista, uma comunidade terapêutica para dependentes químicos em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. É do instrumento a função de alertar os 48 homens, moradores da chácara, que o momento é de acordar e, em seguida, de arrumar as camas.

A droga mais consumida por essas pessoas é o crack. Muitos deles já foram presos por terem praticado crimes com o objetivo de conseguir dinheiro para o vício. Eles passam agora por um tratamento de nove meses em uma comunidade terapêutica -espaços com foco na reinserção social e no exercício da espiritualidade. Todos estão lá voluntariamente. Esse tipo de comunidade tornou-se a "arma" do governo de São Paulo para tentar vencer a luta contra o crack. Muitas delas serão credenciadas para atender dependentes do programa Recomeço, lançado neste mês. Uma das frentes do projeto é a "bolsa anticrack" que dará R$ 1.350 mensais a essas instituições por paciente atendido.

A reportagem da Folha ficou "internada" entre a noite de quarta (15 de maio) e a tarde de sexta (17) na comunidade evangélica Conquista, com o consentimento da direção. O objetivo era conhecer os pacientes e o dia a dia do tratamento, marcado pelo badalar do pequeno sino metálico. O instrumento toca ao menos oito vezes ao dia para alertar o início de cada atividade a ser realizada. Depois do café da manhã, eles devem: recitar o mantra "só por hoje"; fazer um Inventário Moral Diário, onde falam sobre seus defeitos; almoçar; praticar laborterapia; lanchar e jantar. Duas vezes por dia, recebem medicamentos. 

A depender do dia, algumas atividades são substituídas por terapia individual, em grupo e uma reunião onde praticam os "12 passos", princípio do grupo AA (Alcoólicos Anônimos), cujas bases foram adaptadas ali em uma bíblia evangélica. Também há reuniões religiosas. Os horários rígidos têm razão de ser: ensiná-los a viver em um mundo de regras, muitas delas esquecidas durante o consumo da droga. Ali, eles são chamados de "alunos". O descumprimento das normas pode custar a ligação semanal para a casa ou a visita quinzenal da família. Muitos, no entanto, não se adaptam ao novo mundo. Dos 48 que estão ali, só 24 devem completar os nove meses do tratamento, estima a direção. Desses, seis devem voltar a consumir drogas em um prazo de um ano.

por Talita Bedinelli & ​Apu Gomes

Novas velhas perspectivas

quinta-feira, 25 de julho de 2013



Ouvi certa vez que ir ao Mc Donald's não faz de nós hambúrgueres, assim como ir à igreja não faz de nós cristãos. Bom, isso é um fato. É tão lógico que, mesmo sendo meramente racionais conseguimos compreender. O problema é que muitos não enxergaram essa realidade. Cada vez mais pessoas fantasiam um mundo de ilusões dentro das quatro paredes. Vivendo uma vida de meritocracia, trocas e barganhas, muitos se dão por convencidos que agindo de tal forma estão cumprindo seu papel para herdar a vida eterna. O que faz com que templos espalhados pelo Brasil se abarrotem de pessoas pagando sua sina dominical, firmando sua parte no “trato”.

A questão em si não é muito complexa, já que conseguimos mensurar a crescente e maçante ordem evangélica que cresce cada vez mais em nosso país. Para muitos isso é sinal de vitória, mas quando começamos a avaliar sistematicamente este evento, o que vemos é que muitos vieram buscar um bom investimento a curto prazo. Nesse ponto chegamos à conclusão de que o que tem sido pregado não é a mensagem da cruz, e sim a oferta do que muitos almejam alcançar. E isso é fato porque as bases da fé cristã foram esquecidas por um medíocre apelo material.

O que o precisa mudar urgentemente é nossa perspectiva de ser cristão. Quando Lucas relata em atos 11.26 sobre o acontecimento dos discípulos serem chamados de cristãos pela primeira vez, isso não se deu por mera denominação, mas pelo que cada um deles trazia a memória das pessoas; o próprio Cristo. Para aqueles que não o viram nem o ouviram, o vislumbre de atos sem precedentes. Eram semelhantes ao próprio Cristo. No seu falar e agir eles exprimiam a essência do Mestre. O termo cristão não foi lhes dado por fazerem parte da mesma ordem ou movimento, e sim por viver cada preceito daquele que lhes comunicou. 

O que precisa ser revisto é que nossas atitudes farão diferença em nossa sociedade e não nossos títulos. A perspectiva a respeito da igreja no Brasil só mudará quando todos enxergarem sinais legítimos de integridade, consciência e seriedade. Nosso papel como cristãos vai além de reuniões clichês no templo. Deve ser revelada em nossas rotinas, no cotidiano da nossa sociedade. A vida cristã carece de informalidade, de comunhão com os necessitados, com os marginalizados que estão a mercê de seus vícios e desilusões. Ir à igreja para muitos é ir à igreja. Mas para aqueles que se encontraram com o Cristo da Igreja, ir à igreja não é mais rotina, pois eles compreenderam que eles são a igreja. Compreenderam com o próprio Cristo que devemos estar dispostos ir até onde ele foi para anunciar as boas novas. Essa é a minha nova, mas tão velha perspectiva.



LEONARDO CARVALHO é blogueiro e autor do Reformando Conceitos. Esposo da Cláudia (com quem escreve no e a gente se encontrou), pai da Tábata. Também é colaborador do Blog Apologetas. É músico e compositor. Formado em Teologia Ministerial no Seminário Vida Nova, cursa o bacharelado na FBMG. É membro da PIB Nova York em Belo Horizonte (MG).
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