Quem sou eu?

quarta-feira, 23 de outubro de 2013


Quem sou eu?
_ perguntam-me constantemente _
Que no confinamento da cela
Sereno, alegre e firmemente,
Anda deito um fidalgo no palácio?


Quem sou eu?
_ perguntam-me constantemente _
Que aos carcereiros costuma,
Livre, amistoso e francamente,
Falar como quem comanda?


Quem sou eu?
_ perguntam-me constantemente _
Cujos dias de infortúnio
Impassível, risonho e orgulhosamente,
Suporta, como se acostumado a vencer?


O que dizem de mim eu realmente sou?
Ou sou somente o que eu mesmo sei de mim?
Intranquilo e ansioso e doente, um passarinho enjaulado
A Lutar por fôlego, com as mãos comprimindo a garganta,
A anelar por cores, flores, o cantar das aves,
A ter sede por palavras de benignidade, de proximidade humana,
A se agitar à espera de acontecimentos grandiosos,
A Tremer, em desalento, pelos amigos infindamente distantes,
Cansado e vazio no orar, no pensar, no agir,
Desmaio _ Disposto a me despedir de tudo?


Quem sou eu? Este ou aquele?
Serei hoje um, outra amanhã?
Ambos serei? Simultaneamente?
Um hipócrita perante os outros
E diante de mim mesmo, um débil desolado?
Ou há algo e mim que se assemelha ao exército derrotado
A Fugir na desordem da vitória já alcançada?


Quem sou eu?
Zombam de mim, tais solitárias indagações.
Seja quem eu seja, Tu sabes,
Ó Deus:
Eu sou Teu!



Dietrich Bonhoeffer foi pastor e teólogo luterano alemão. Seus conceitos mais influentes são "graça barata" e "cristianismo sem religião". Proibido pelos nazistas de falar em público ou escrever, tornou-se membro da resistência, ficou preso de 1943 a 1945 e foi executado sob acusação de traição. Este poema foi escrito enquanto se encontrava na prisão. 


CopyRight © | Theme Designed By Hello Manhattan