Virada e Futebol...

terça-feira, 30 de dezembro de 2014


2014 veio e passou afoito sem muitas boas notícias. Infelizmente o que mais tivemos neste ano que se finda foi o fracasso do que se ostentava grande. É intrínseco nesse raciocínio nos lembrarmos da “maior Copa do Mundo de todos os tempos”.

Enquanto o “jeitinho brasileiro” entregava arenas milionárias em cima da hora, ainda estava tudo bem, afinal tínhamos o melhor futebol do mundo. Mas assim como no famoso adágio popular, o jogo é jogado. E a cada partida que a Seleção Brasileira ia fazendo, ficava mais exposta nossa fragilidade. A queda foi do tamanho da nossa arrogância... Gigantesca.

No meio desse tamanho temporal, ficou claro que paramos no tempo e nada era como vislumbramos. Enquanto enchíamos o peito para dizer que éramos penta campeões, nossos adversários aprimoraram o que era apenas admiração. Colocaram a tecnologia como uma aliada no desenvolvimento de novas técnicas, novas táticas das quais nossos técnicos além de não acompanharem, tão pouco reconheceram como superior. Ah nosso modo brasileiro de ser!

Eu ainda aprendo muito com tudo isso. Vejo que nunca é um bom negócio ostentar o que não se tem. Uma avaliação criteriosa de quem somos poderia ter nos poupado de tamanha vergonha. Até mesmo de alimentarmos falsas esperanças num povo que parou e deixou de lado a intensa labuta cotidiana, que escolheu esquecer de seus problemas a cada 4 dias, por míseros 90 minutos e deixar que o patriotismo falasse mais alto no peito castigado. Poderíamos ter feito um discurso realista, longe da ilusão gloriosa que um passado distante traz.

Para o ano que vem, não quero ser tão arrogante, antes quero cultivar a humildade de saber quem sou, onde estou e das minhas limitações. Quero buscar aprender, pois já disse Leonardo Boff que...

sábio é aquele que nunca perdeu a capacidade de aprender”. 

Buscarei não viver de aparências, mas provado por dentro. Certo de que situações das mais diversas irão me alcançar, mas resistirei não pela imagem que construí, ou pelo esforço que fiz, mas sim pelo Deus que confiei e coloquei minha fé.     

Não sejam tão ingênuos e autoconfiantes. Vocês não são diferentes. Podem fracassar tão facilmente como qualquer um. Nada de confiar em vocês mesmos. Isso é inútil! Mantenham a confiança em Deus.
I Coríntios 10.12 (A Mensagem)

Evangelização ou Colonização? O risco de fazer missão sem se importar com o outro

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014


Quantas almas você ou sua igreja ganharam para Cristo ano passado? 
A pergunta revela nossa obsessão pelo cumprimento da agenda da igreja. Pior, não leva em conta o nome, a história e a identidade do outro. O “outro” é visto como objeto, é apenas um “alvo” da missão, que mostra se alcançamos (ou não) os objetivos do “nosso” grupo.

Evangelização ou Colonização? mostra historicamente como chegamos a esse modelo no mundo evangélico. Por que nossos métodos e motivações ainda reproduzem uma prática missionária colonialista, caracterizada pelos “superiores” que sabem o que é melhor para “eles”? Para a autora, é possível mudar e ousar novos “jeitos de fazer” missão. É preciso desconstruir aquilo que a tradição moldou ao longo dos séculos, voltando ao modelo simples do nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo.


Analzira Nascimento aponta alguns elementos que podem ajudar aqueles que estão incomodados com os nossos modelos e mostra como pegar o caminho de volta para trabalhar-viver com o outro, e não pelo outro.



Analzira Nascimento, autora de Evangelização ou Colonização?, é missionária da Junta de Missões Mundiais e serviu em Angola por 17 anos durante a guerra civil naquele país. Doutora em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo, coordena o ministério Com Vocação, da JMM, e trabalha com a Associação de Missões Transculturais Brasileiras e a Associação de Professores de Missões do Brasil. É responsável pelos projetos missionários da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo.


A igreja, no decorrer da história, adotou práticas evangelizadoras que contribuíram para sedimentar um modelo de missão fortemente marcado pela expansão colonialista do final do século 15 e início do século 16. Esse modelo foi formatado nos Estados Unidos e deu origem ao formato missionário protestante dominante.
Nos dias atuais, a igreja, zelosa por cumprir programas de expansão, continua reprodu-zindo a mesma lógica colonialista de dominação. Minha hipótese é que, na ânsia de cumprir uma agenda eclesiástica, muitas vezes o missionário não consegue reconhecer o “outro” como sujeito. O modelo de missão que predomina, principalmente no mundo evangélico, reforça a negação da identidade do outro e o reduz a objeto.
É preciso parar de invadir “a casa do outro”, entender que ele também tem o que dizer e que, ouvindo-o, alcançaremos condições de diálogo.

-- Analzira Nascimento

Há 46 anos na UTI, paciente cria desenho animado

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

por Cláudia Collucci

As brincadeiras de sete crianças com paralisia infantil, que passaram a infância internadas numa UTI do Hospital das Clínicas de São Paulo, viraram mote para uma série de desenhos, criada pelo líder da turma. Paulo Henrique Machado, 47, que vive ligado a um respirador artificial no Hospital das Clínicas desde um ano de idade, é mentor e roteirista da animação "Brincadeirantes", concluída nesta semana. A Folha revelou sua história no ano passado. O episódio-piloto, com dez minutos, foi possível graças a um financiamento coletivo que arrecadou R$ 120 mil. Um total de 1.612 doadores colaboraram com a empreitada.
"Pareço criança. Já assisti umas 200 vezes e não me canso de rever. Ficou exatamente do jeito que eu sonhei. A caracterização dos personagens, a trilha, tudo. Foi um processo dolorido, por me fazer recordar dos amigos que já se foram, mas, ao mesmo tempo, desafiador", conta.



Dos amigos que aparecem no primeiro e nos futuros episódios, apenas ele e Léca (Eliana Zagui, sua melhor amiga e vizinha de cama na UTI do HC) sobreviveram. Deitados no leito, ambos concluíram o ensino médio. Paulo fez cursos de computação gráfica e de roteiro pelo Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). É fã de animações, como as do estúdio britânico Aardman Animations (especializado em stop-motion, técnica de animação em que modelos de massinha são fotografados quadro a quatro), que tem personagens deficientes. Pela internet, fez amizade com Carlos Saldanha, diretor de "A Era do Gelo" (2002), que já o visitou no HC. Ao roteirizar suas histórias e as dos amigos, a ideia de Paulo foi combater preconceitos. "Apesar das limitações, a gente se divertia. Da janela do quarto, soltávamos pipa. O hospital foi o meu jardim da infância e continua sendo meu lar." Mesmo com sistema respiratório paralisado pela pólio, Paulo, Pedro e Anderson tinham movimentação nos braços. Já Eliana, Claudia e Tânia, não. Desenhavam e escreviam com boca.

Na animação, Paulo relata uma ida ao Playcenter em que tenta brincar, mas, penalizados com a sua deficiência, funcionários das barracas lhe dão prêmios, sem que ele os dispute. "Não quero brinquedo, quero é brincar", queixa-se Léco, seu personagem. Na vida real, Paulo se diverte com filmes e jogos no computador. "Todos os dias, quando acordo, olho pra cama da Eliana e digo: 'Ainda bem que ainda estamos vivos'." E como estão. Eliana pinta quadros com a boca, escreve o segundo livro e se prepara para ver a primeira obra ["Pulmão de Aço", Belaletra editora, de 2012] virar peça teatral. Ambos os projetos são para 2015. Paulo tenta viabilizar parcerias para a exibição do seu programa-piloto e a criação de novos episódios. Sete roteiros e 22 argumentos já estão prontos. O produtor e animador do programa, Bruno Saggese, professor de Paulo, diz que se surpreendeu com a vitalidade e o talento do aluno. "A gente pensa que UTI é lugar de tristeza, mas aqui é um mundo à parte." A ideia, segundo ele, é procurar TVs abertas e a cabo, além de empresas na internet que possam se interessar em abraçar o projeto. Como a história de Paulo ganhou projeção internacional, há veículos estrangeiros que manifestaram interesse.
"Espero que seja apenas o começo de uma grande aventura. Meu sonho é produzir um longa-metragem", diz um sorridente Paulo, com os olhos vidrados na tela do computador, que exibe sua série pela 201ª vez.

O que a Bíblia não é

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014


1. O propósito da Bíblia não é científico. Isso não significa que o ensino da Escritura e o da ciência estejam de alguma forma em conflito um com o outro, pois ao mantermos cada um em sua própria esfera e discernirmos o que cada um está afirmando, eles não estão em conflito. De fato, se o Deus da verdade é autor de ambas, não poderiam estar. Também não quer dizer que as duas esferas nunca se sobreponham e que nada que a Bíblia diga tenha qualquer relevância científica, pois a Bíblia contém proposições que podem ser (e em muitos casos têm sido) comprovadas cientificamente. Por exemplo, nela está registrada uma série de fatos históricos, como Nabucodonosor, rei de Babilônia, ter cercado, ocupado e quase destruído Jerusalém e Jesus de Nazaré ter nascido quando Augusto era o imperador de Roma. O que estou afirmando é que, embora possa conter dados científicos, o propósito da Bíblia não é científico.
A ciência (pelo menos a ciência natural) é um corpo de conhecimento laboriosamente adquirido pela observação, experimentação e indução. O propósito de Deus na Escritura, entretanto, foi revelar verdades que não podem ser descobertas por esse método (chamado pelos cientistas de método empírico), coisas que teriam permanecido desconhecidas e encobertas se ele não as tivesse revelado. Por exemplo, a ciência pode ser capaz de dizer alguma coisa sobre nossa origem material (embora até mesmo essa permaneça uma questão aberta); apenas a Bíblia revela nossa natureza, tanto nossa nobreza única na qualidade de criaturas feitas à imagem do Criador quanto nosso estado de degradação como pecadores egoístas revoltados contra nosso Criador.

2. O propósito da Bíblia não é literário. Há alguns anos foi publicado um livro intitulado The Bible Designed to be Read as Literature. É uma edição primorosa. A disposição tradicional em versículos foi abandonada, e a diagramação indicava claramente o que era poesia e o que era prosa. Tudo isso ajuda. Além disso, ninguém, quaisquer que sejam suas crenças ou descrenças, pode negar que a Bíblia contém de fato literatura admirável. Ela fala sobre os grandes temas da vida e do destino humanos e os trata com simplicidade, discernimento e imaginação. Sua tradução do original foi tão boa que em alguns países, como Inglaterra e Alemanha, a Bíblia tornou-se parte da herança literária nacional. No entanto, Deus não planejou a Bíblia como literatura grandiosa. Ela contém fraquezas estilísticas gritantes.
O Novo Testamento foi em grande parte escrito em grego koiné, a linguagem cotidiana do mercado e do trabalho, e muito dele carece de refinamento literário, até mesmo exatidão gramatical. O propósito da Bíblia está em sua mensagem, não em seu estilo.

3. O propósito da Bíblia não é filosófico. É evidente que a Escritura contém sabedoria profunda – na verdade, a sabedoria de Deus. Todavia, alguns dos grandes temas que os filósofos têm enfrentado não recebem um tratamento exaustivo na Escritura. Vejamos, por exemplo, o grande problema do sofrimento e do mal. Como fenômenos da experiência humana, são figuras proeminentes na Bíblia. Em quase todas as páginas homens e mulheres pecam, homens e mulheres sofrem. Alguma luz é lançada – de forma suprema na cruz – sobre ambas as questões. Mas nenhuma explicação definitiva é oferecida para qualquer um dos dois, tampouco os caminhos de Deus são justificados em relação a eles, em termos aceitáveis pela filosofia humana. Até mesmo no Livro de Jó, que se concentra no problema do sofrimento, Jó por fim humilha-se diante de Deus sem chegar à compreensão da providência divina. Creio que o motivo é o fato de a Bíblia ser simplesmente um livro mais prático do que teórico. Está mais interessada em nos dizer como suportar o sofrimento e vencer o mal do que em filosofar sobre sua origem e propósito.
A Bíblia não é, portanto, basicamente um livro de ciência, nem de literatura, nem de filosofia, mas de salvação.
Com isso, devemos atribuir à palavra salvação o sentido mais amplo possível. A salvação é muito mais do que meramente o perdão dos pecados. Ela inclui o amplo alcance do propósito de Deus de redimir e recuperar a humanidade e, de fato, toda a criação. O que sustentamos a respeito da Bíblia é que ela revela o plano integral de Deus.
Ela começa com a criação, para que possamos saber sobre a semelhança divina em que fomos feitos, as obrigações que repudiamos e as alturas de que caímos. Não somos capazes de entender nem aquilo que somos no pecado nem aquilo que pela graça podemos chegar a ser até que saibamos o que fomos pela criação.
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Talvez nenhuma outra palavra bíblica tenha sofrido tanto a partir do mau uso e da compreensão equivocada do que é salvação. Alguns de nós, cristãos, somos culpados pela caricatura que se tem apresentado dela ao mundo. Consequentemente, a palavra salvação tem sido para muitos fonte de vergonha ou até mesmo alvo de ridículo. Devemos resgatá-la desse conceito tacanho com o qual a palavra tem sido com frequência degradada. Pois salvação é uma palavra grande e nobre. Salvação é liberdade. Sim, e também renovação; em última instância, a renovação do universo inteiro.


Nota: este é um trecho do lançamento da Ultimato: Para Entender a Bíblia, de um dos mais famosos expositores bíblicos, John Stott.

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Conhecido no mundo inteiro como teólogo, escritor e evangelista, John Stott é autor de mais de quarenta livros, incluindo A Missão Cristã no Mundo ModernoA Bíblia Toda, O Ano TodoPor Que Sou CristãoO Discípulo RadicalOs Cristãos e os Desafios Contemporâneos e o campeão de vendasCristianismo Básico. Stott foi pastor emérito da All Souls Church, em Londres, e fundador do London Institute for Contemporary Christianity. Foi indicado pela revista Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo.

Para Entender a Bíblia – John Stott

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014


Para Entender a Bíblia é uma das obras mais elucidativas sobre as Escrituras.
O que é a Bíblia?
Por que ela foi escrita?
Como interpretá-la?
Para alguns, a Bíblia não passa de uma coleção de mistérios e símbolos exotéricos, ou ainda um punhado de fábulas complicadas. Para todos os tipos de leitores, o teólogo e escritor inglês John Stott escreveu Para Entender a Bíblia.
Para Entender a Bíblia fala da história, da teologia, da autoridade, da geografia e da interpretação da Bíblia. Dos textos complicados e misteriosos às aparentes contradições, John Stott guia o leitor pelas páginas das Escrituras desafiando a própria fé e a espiritualidade superficial dos nossos dias.

Os segredos da maturidade cristã estão prontos para serem descobertos nas Escrituras por todos aqueles que os buscam. Há uma amplitude na Palavra de Deus que poucos de nós conseguem depreender, uma profundidade que raramente sondamos.
 John Stott

O Autor – Conhecido no mundo inteiro como teólogo, escritor e evangelista, John Stott é autor de mais de quarenta livros, incluindo A Missão Cristã no Mundo Moderno, A Bíblia Toda, O Ano Todo, Por Que Sou Cristão, O Discípulo Radical, Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos e o campeão de vendas Cristianismo Básico. Stott foi pastor emérito da All Souls Church, em Londres, e fundador do London Institute for Contemporary Christianity. Foi indicado pela revista Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo.


Ego Transformado de Timothy Keller é o novo livro das Edições Vida Nova

terça-feira, 9 de dezembro de 2014


Quais são as marcas de um coração sobrenaturalmente transformado?
Essa é uma das questões sobre as quais o apóstolo Paulo trata quando escreve à igreja de Corinto. O interesse real dele não é algum tipo de reparo ou remendo; antes, uma mudança profunda, capaz de transformar a existência.
Numa era em que agradar as pessoas, insuflar o ego e montar o curriculum vitae são vistos como os meios para “chegar lá”, o apóstolo nos chama a encontrar o verdadeiro descanso na bênção que é nos esquecermos de nós mesmos. 
Neste livro breve e contundente, Timothy Keller mostra que a humildade que brota do evangelho torna possível pararmos de vincular cada experiência e cada conversa com a nossa história e com quem somos. E assim podemos ficar libertos da autocondenação. Quem é realmente humilde segundo o evangelho não se odeia, mas também não se ama... é, antes, alguém que esquece de si mesmo. Você também pode conquistar essa liberdade...

leia um trecho aqui

Timothy Keller é fundador e pastor-titular da igreja Redeemer Presbyterian Church, em Nova York. É autor de A cruz do Rei, Justiça generosa, Como integrar fé e trabalho e O significado do casamento, publicados por Edições Vida Nova. Seus títulos A fé na era do ceticismo e O Deus pródigo já ocuparam as listas de mais vendidos do New York Times. Por meio da rede Redeemer City to City, projeto que já possibilitou a criação de 200 igrejas em 35 importantes cidades do mundo, Keller é mentor de vários jovens que plantam igrejas e de pastores de igrejas urbanas em Nova York e em outras cidades.

O que C. S. Lewis pensava sobre a morte?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014


No dia 29 de novembro, C. S. Lewis, se vivo, completaria 116 anos. No 22 de Novembro, relembramos 51 anos da sua morte. Lewis teve uma série de complicações de saúde, após a morte de sua amada esposa Joy, como obstrução da próstata, insuficiência renal, e problemas cardíacos, que foram a causa imediata de sua morte.

Essa é uma ocasião propícia para nos lembrarmos do que ele pensava a respeito da morte. Há uma série de conjecturas a esse respeito. Baseado em “O Grande Abismo”, há quem defenda que Lewis cresse no purgatório e eu respeito. Mas a meu ver, muitas dessas suposições, como que ele acreditasse também em fadas e duendes e extraterrestres (devido à sua trilogia espacial), apontam para uma incompreensão de sua verdadeira arte, que era a da ficção, ou do que ele chamava de “romance”. O grupo de amigos a que ele pertencia, os “Inklings” (que incluía J.R.R. Tolkien, entre outros) praticava essa arte e sua “teologia”, entendida como “teologia do romance” (mas também pode ser chamada de “mitopoiesis” ou “teopoeisis”). O que essa arte narrativa tem em comum com a mitologia (“mythos” = narrativa) é o apelo à imaginação.

Assim, Lewis, que também era um especialista em Idade Média, acreditava no purgatório como ele acreditava em todas as crenças provenientes do imaginário medieval: ele as respeitava como sendo narrativas que fizeram história. O modelo medieval de pensamento foi por ele explorado de todos os ângulos em seus escritos acadêmicos (que tive o privilégio de traduzir a começar por “Alegoria do Amor”, lançado pela Editora É­Realizações). Mas como o próprio Lewis afirma em “A Imagem Descartada” (próximo livro a ser lançado), essa visão de mundo, por mais interessante que seja intrinsecamente, é falsa em vários pontos, como na crença de que a Terra fosse o centro do sistema solar.

Respeitar um imaginário e valer-se dele não significa que se acredita nele literalmente. É claro que o que Lewis cria mesmo ou deixava de crer, só saberemos com certeza quando nos unirmos a ele no Céu, que era para ele o real destino da humanidade. A famosa frase de que essa vida é uma “Terra das Sombras”, foi pronunciada no leito de morte de Joy, como se pode ver no filme com o mesmo nome. Essa ideia lembra o Salmo 102.11, que diz, referindo-se à vida terrenal: “A minha vida é como as sombras do anoitecer; vou secando como o capim”.

Foi na morte de Joy que Lewis se confrontou de maneira mais séria e real com a temática. Em “A Anatomia de uma Dor”, Lewis dá vazão a todo o sofrimento envolvido na perda da esposa. Nela, ele compara Deus a um dentista e a um carrasco. Considero esse o “livro de Lamentações” de Lewis. A prova de que ele não perdeu a fé, mas superou a dor e sofrimento, está em “Cartas a Malcolm”, obra publicada postumamente e escrita depois de “A Anatomia...” que acredito ser o livro que mais fala sobre a espiritualidade cristã.

Antes de tudo, porém, a morte significava para Lewis o afloramento de vida, da vida verdadeira, da verdadeira realidade, que vai muito além da realidade espaço temporal. Em carta, escrita em 28 de junho de 1963 para Mary Willis Shelburne ­ perto de sua própria morte, portanto ­ Lewis usa novamente de toda a sua arte narrativa e imaginativa, falando da morte em termos metafóricos e proféticos: 

Imagine-se como sementinha pacientemente hibernando enterrada na terra; à espera do afloramento no tempo que o jardineiro achar melhor, para o mundo real, para o verdadeiro despertamento. Suponho que toda a nossa vida presente, quando olharmos para trás, a partir daí, não parecerá mais, do que um devaneio sonolento. Este é o mundo dos sonhos. Mas o galo está para cantar. E está mais próximo agora, do que quando eu comecei a escrever esta carta. (Tradução da autora)

Nota: Clive Staple Lewis nasceu em Belfast, Irlanda, em 29 de novembro de 1898 em morreu em 22 de novembro de 1963, aos 65 anos.


Gabriele Greggersen é mestre e doutora em educação (USP) e doutoranda em estudos da tradução (UFSC). É autora de O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética e tradutora de Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Costuma se identificar como missionária no mundo acadêmico. É criadora e editora do site www.cslewis.com.br

Filhos da batina

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014


Por mera coincidência, na mesma cidade (Brasília) e quase na mesma semana, aconteceram duas coisas que se relacionam. Primeiro: Maria Helena de Aguiar, de 31 anos, funcionária da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência tornou público*, no dia 23 de outubro, um segredo guardado por 25 anos a pedido da mãe, que é filha de padre. Segundo, o falecimento, no dia 05 de novembro, do padre casado Raimundo Nonato Silva, da Ordem dos Capuchinhos, ordenado há 69 anos e casado nove anos depois. Nonato é autor do pequeno livro “Filhos da Batina” (na Europa se fala “Enfants Du Silence”).

Além de citar o nome de alguns brasileiros notáveis que eram filhos de sacerdotes, como Clóvis Beviláqua (o maior jurista brasileiro), José do Patrocínio (célebre abolicionista) e José de Alencar (notável romancista), Nonato Silva explica que no passado havia padres que geravam filhos em pleno exercício sacerdotal, como pároco e vigário sem que a população os censurasse e as autoridades eclesiásticas os molestassem. Nesse tempo (séculos 17, 18, 19 e primórdios do século 20), para muitos padres a lei do celibato era como que inócua. Depois, as coisas mudaram sob o ponto ético: os padres afastavam-se das funções sacerdotais por vontade própria ou por imposição episcopal e casavam-se no civil ou viviam maritalmente.

Depois do Vaticano II, eles se desincompatibilizavam do múnus sacerdotal e casavam-se, ora no civil ora no religioso. No ano em que escreveu o seu “Filhos da Batina” (2000), o recém falecido padre Nonato (os padres casados continuaram padres mas não podem exercer o sacerdócio) estimava que haveria cerca de 100 mil padres casados no mundo e 300 mil filhos de padres (no caso de haver três por casal). Maria Helena, de Brasília, é uma delas.
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Em entrevista à seção Cotidiano, do jornal Folha de S. Paulo, do dia 23/10/2014. Este texto foi escrito – mas não publicado – para a seção “Mais do que notícias” da revista Ultimato. Leia pequenos textos desta seção em edições anteriores de Ultimato.

Em busca de dias melhores

quinta-feira, 23 de outubro de 2014


“As pessoas saturadas e sem esperança, tentam se distrair com coisas sem importância e valor. Nem mesmo a busca da justiça ou os grandes feitos da bondade dão notícias de primeira página.”
Eugene H. Peterson

Sempre me questiono a respeito das indagações que ouço constantemente sobre a falta de referências em nossos dias. Há uma enorme corrente pessimista, que desacredita em nossa geração e fortemente influencia as opiniões da massa.

Por mais que os dias possam estar cada vez mais turvos, e demasiadamente carentes de fé, eu ainda consigo ver exemplos de paixão e persistência. Atos de compaixão que reforçam minha confiança em um mundo melhor na medida do possível. Consigo ver gente simples, que através de pequenos gestos conseguem mudar perspectivas outrora negativas, em raios de esperança de dias de justiça.

Vejo nos esportes homens e mulheres que fizeram o mundo ver que é possível, mesmo nas piores circunstâncias, superar os limites impostos e os próprios medos. Atletas que em meio ao eminente fracasso, arrancaram aplausos de milhares que se levantaram de seus lugares por reconhecerem que aquele momento transcendia uma mera competição.

Vejo na igreja brasileira muita gente séria. Infelizmente esses são pouco conhecidos. Não estão na grande mídia imprimindo sua imagem, adquirindo poder. Estes estão servindo, apontando os sinais do reino, evidenciando o verdadeiro sentido do serviço. Edificando e levando aqueles que os ouvem a verem o evangelho de maneira simples e pura, como ele é.

Converso com muitos que nunca ouviram falar nestes nomes, e se ouviram, não deram importância. Muitos deles estavam ocupados demais assistindo a “novela das 09:00pm”, o exame de DNA do programa do Ratinho ou o reality show do momento. 

Ainda acredito que os atos destes desses homens e mulheres inspiram e que seu legado será valioso para entender que podemos ser melhores, que podemos alcançar coisas jamais imaginadas. Eu tenho esperança de dias melhores. Dias estes que será claro como o dia vermos que é possível acreditar numa sociedade onde justiça e compaixão são realidade.



LEONARDO CARVALHO é blogueiro e autor do Reformando Conceitos. Esposo da Cláudia (com quem escreve no e a gente se encontrou), pai da Tábata. Também é colaborador do Blog Apologetas. É músico e compositor. Formado em Teologia Ministerial no Seminário Vida Nova, cursa o bacharelado na FBMG. É membro da PIB Nova York em Belo Horizonte (MG).

Revolução Afetiva por Guilherme de Carvalho

terça-feira, 14 de outubro de 2014


O Mosaico é um movimento de cosmovisão cristã, cujo principal objetivo é a transformação da sociedade através do desenvolvimento, em unidade, de um pensamento que capacite e mobilize os indivíduos, não apenas a discutir, mas tornarem-se agentes transformadores em suas esferas de atuação. O pressuposto é que não existe território da existência sob o qual Jesus Cristo não seja o soberano sobre todas as coisas. Justamente por isso, as mobilizações e intervenções empreendidas pelo movimento são diversificadas: desde atos públicos em espaços comuns - como no Dia Internacional contra o Abuso e Exploração infantil - como também através de fóruns de debate e discussão sobre questões diversas. O Encontro Mosaico é o principal momento de reflexão e definição das próximas intervenções do movimento. Compartilho um video de suma importância para se entender um pouco mais sobre as relações do movimento LGBT com outras esferas e campos da sociedade.




Guilherme de Carvalho é casado com Alessandra e pai de Ana Elisa e Helena. Seu chamado é o ensino sobre a unidade de Criação e Evangelho, e o escopo universal do Senhorio de Cristo, e tem interesse especial por filosofia da religião, teologia natural e teologia da cultura. É formado pela Escola Superior de Teologia do Mackenzie, mestre em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Foi professor de teologia por vários anos, e atualmente é pastor da Igreja Esperança em Belo Horizonte e diretor de L’Abri Fellowship Brasil.

A PNPS e a histeria da “Irmandade Evangélica”

quinta-feira, 9 de outubro de 2014



Em outubro de 1692, a pequena comunidade de Salem (Massachusetts, EUA), predominantemente evangélica, foi acometida por um surto coletivo de pavor de bruxaria, que durou cerca de um ano. Mais 150 pessoas foram presas, julgadas e cerca de 20 condenadas à morte, a maioria mulheres, por causa de superstição e credulidade. Em 1938, Orson Wells provocou pânico em milhares de ouvintes crédulos, enquanto narrava em estilo jornalístico, numa transmissão radiofônica, a peça de ficção “A Guerra dos Mundos”, contando a história de uma suposta invasão da Terra por um exército marciano.

Em 2014 uma onda de histeria alcançou alguns cidadãos brasileiros, muitos evangélicos crédulos, depois que foram publicadas pela imprensa mórbida do país, informações distorcidas a respeito da estabilidade democrática da nação brasileira, frente ao decreto 8243 (23.05.2014) que institui a Política Nacional de Participação Social (PNPS). Muitos sequer leram a norma legal e deram vazão à mania de conspiração.

Ocorre, entretanto, que Constituição Federal, em vigor desde de 1988, é profundamente democrática, e estabelece já no seu primeiro artigo, sob o título “Dos Princípios Fundamentais”, que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. O decreto 8243/14 apenas articula e sistematiza (decretos não criam...), nos termos da Constituição, a legislação referente quanto ao modo como se dá o exercício do poder do povo em sua forma direta. Visa, então, consolidar e enraizar o senso e prática da democracia, indicando para o cidadão quais os instrumentos de que dispõe para expressar as suas opiniões e vontades por canais diretos – e que já estão em vigor! - bem como, dá oportunidades aos governantes e legisladores de auscultarem melhor as expectativas dos cidadãos.

Quem teria receio de ouvir mais e melhor o povo, do qual emana todo poder, povo este que não tem se sentido representado por parlamentares arredios e desconectados dos anseios populares?

Lendo e relendo o decreto 8243/14, verifica-se que a Política Nacional de Participação Social (PNPS), é intrinsecamente democrática e visa robustecer o sistema democrático brasileiro. A PNPS empodera a sociedade civil e reflete valores que são caríssimos ao pensamento e à tradição protestante, historicamente comprometida com a democracia. O decreto propugna, entre outros valores igualitários, o reconhecimento do indivíduo, a autonomia das organizações da sociedade civil, a necessidade de cooperação entre os diferentes entes estatais e a sociedade civil, o respeito à diversidade dos cidadãos, o direito à informação e o dever de transparência por parte dos órgãos públicos, a valorização da educação e da cidadania participativa, a participação social como metodologia governamental e a solidariedade e a cooperação. Ratifica também a participação das organização e movimentos da sociedade, que tem plena liberdade para se associar e fazer-se representar.

São, portanto, inverídicas as críticas levianas e espúrias atribuídas ao documento legal. Faltou leitura do PNPS e entendimento do Estado de Direito.

Claro que a manipulação ideológica do decreto, movida por setores mórbidos da grande imprensa, vinculados a segmentos parlamentares que tentam dominar por meio de aterrorizar o ideário da população ou aqueles que buscam controlar economicamente a sociedade - e aos quais não interessa a mínima ampliação e o aprofundamento da democracia – era esperado. O que causa surpresa, entretanto, é que organizações eclesiais (que aglutinam milhões de seguidores, beneficiários diretos do decreto), formulassem declarações contestatórias ao PNPS, com textos que em nada contribuem para o aperfeiçoamento da prática democrática – sendo apenas eco do discurso de grupos notoriamente reacionários - mostrando-se, assim, subservientes e contrapostas a interesses da sociedade que dizem representar.

Declarações e pronunciamentos, em geral frágeis e superficiais, eivados de erros, tanto na análise como na avaliação do texto do decreto 8243/14, foram elaborados e emitidos ao arrepio do corpo social dos que representam, produzidos sem levar em conta o arcabouço jurídico e garantias da Constituição Federal, invocando a ameaça de fantasmas e imaginando um cenário político fantasioso. Distorções grosseiras de termos, conceitos retirados do seu contexto legal, omissão de informação e deformação de afirmações, entre outras falhas elementares quanto a regras básicas de leitura (hermenêutica), estão presentes nas notas formulados para sustentar compromissos ideológicos e, talvez, até eleitorais.

Teria havido novamente uma instrumentalização de instituições eclesiásticas, por causa de interesses políticos específicos, ideológicos e partidários?

O temor alegado, de eventuais pretensões de extrapolação do poder, precisa ser visto em relação a todos os que almejam qualquer poder político, sem seletividade partidária. Historicamente as igrejas evangélicas brasileiras sempre estiveram envolvidas com questões políticas, tombadas à direita – a maioria, infelizmente, na contramão da democracia, distantes da identidade protestante reformada comprometida com a liberdade e a atenção social aos necessitados. O PNPS é importante por explicitar ao povo como fazer bom uso do poder a favor da coletividade. A chiadeira reverberada pela mídia vem da parte dos círculos sociais que mantêm o monopólio das comunicações e as vantagens derivadas da forma ainda primitiva e limitada de democracia praticada no Brasil. Democracia só o é quando para todos e em todas as dimensões da realidade.

Há benefícios evidentes para a sociedade em ter claros e organizados os mecanismos e ferramentas de diálogo democráticos entre os governantes e a sociedade que os elegeu, inclusive para os conglomerados religiosos, que poderão indicar dentre seus quadros elementos competentes para servir à sociedade.


Christian Gillis
 é pastor da Igreja Batista da Redenção em Belo Horizonte, MG, e membro do Núcleo de Belo Horizonte (MG) da FTL (Fraternidade Teológica Latino-Americana - Setor Brasil - 
Twitter: @prgillis

Manifesto em favor de Marina Silva

sexta-feira, 3 de outubro de 2014


Nós cristãos evangélicos vimos declarar publicamente o nosso voto em Marina Silva para Presidente do Brasil

•    recusamos a ideia de que ser evangélico é ser manipulável e manipulador. Rejeitamos a sugestão de que a consciência do povo evangélico seja propriedade de quem quer que seja, e esteja cativa de ideologias e programas menores do que a agenda do reino de Deus. Igreja não é lobby. Igreja não é partido político. Igreja não é instrumento de pressão. Igreja não é curral eleitoral. Púlpito não é palanque. Altar não é plataforma para comício.

•    reafirmarmos o compromisso com a justiça em sua máxima abrangência e a promoção de uma cultura de paz; reafirmarmos o compromisso com o Estado Laico: a liberdade de culto e crença, a isonomia entre todas as tradições religiosas – inclusive a defesa do direito de não pertencer a qualquer tradição religiosa, e o respeito às consciências individuais; reafirmarmos o compromisso com a unidade, na esperança de que o debate ao redor de um pleito eleitoral nos aproxime para a defesa de valores comuns, em vez de nos distanciar em razão de valores menores do que aqueles que nos unem: uma casa dividida não prevalece, nos advertiu Jesus; reafirmarmos o compromisso com a defesa dos direitos humanos e das minorias, a diaconia e o serviço, mantendo nosso coração alinhado aos profetas que nos ensinaram a abraçar a causa do órfão, da viúva e do estrangeiro, dos fracos e vulneráveis, dos que não têm vez e não têm voz.

•    rechaçamos a falácia generalizadora de que ser evangélico é ser ignorante, moralista, homofóbico, sectário, intolerante. Nosso Senhor Jesus Cristo é apresentado como aquele que “andou por toda parte fazendo o bem”, lançando no coração humano as sementes do amor, da generosidade, do perdão e da solidariedade, virtudes absolutamente distantes de quaisquer perspectivas que alimentem o ódio, a condenação, a exclusão, a discriminação e a segregação.

•    votamos em Marina não porque é nossa irmã de fé, mas porque a julgamos preparada para o cargo a que postula, tendo a história como testemunha de sua experiência e capacidade, com ampla legitimidade popular. Votamos em Marina não porque “irmão vota em irmão”. Não estamos elegendo uma autoridade religiosa ou eclesiástica. Sim, sabemos que Marina não é um Messias de saia.


Porque votamos em Marina Silva:

-    Marina Silva é a candidata que melhor conseguiu captar a voz das ruas, e está em sintonia com o desejo de mudança que mora no peito dos brasileiros.

-    Marina Silva é a proposta que ultrapassa os maniqueísmos, como: partido a contra partido b, classe média e elite contra pobres e miseráveis, ciência contra religião, o povo contra o governo. Marina é a superação da política bipolar.

-    Marina sabe caminhar em meio às contrariedades e propõe uma forma criativa de lidar com as tensões do diverso.

-    Marina representa a política para além de números e estatísticas. Está inserida na vida pública fundamentada em valores e princípios éticos, o que é próprio daqueles cuja consciência se conserva no temor a Deus, maior instância de juízo, pois único justo juiz.

-    Marina não é seguidora de Maquiavel, para quem os fins justificam os meios, mas seguidora de Jesus, que nos ensina a cuidar das coisas do reino de César sem sacrifício dos valores do reino de Deus.

-    Marina é uma liderança qualificada, seu compromisso com a justiça não é posicionamento de campanha. É sua biografia, sua história, seu serviço prestado ao país, que ganhou reconhecimento mundial.

-    Marina aponta para uma governança fundamentada no desenvolvimento sustentável que revê a noção de progresso, agregando-lhe um sentido mais humano, justo, solidário e respeitoso – tanto para as pessoas quanto para o planeta.

-    Marina Silva reúne todas as condições de conduzir o Brasil, não apenas na manutenção dos inequívocos avanços dos últimos anos, mas também e principalmente de maneira a qualificar, aprofundar e ampliar as conquistas que nos fazem cultivar a esperança de um futuro que possa incluir na mesa e na festa da abundância um número ainda maior dos nossos concidadãos brasileiros.

Nos mobilizamos não apenas para apoio e suporte a uma candidatura que nos representa e carrega consigo muito do ideário cristão. Também nos aproximamos para adensar nosso compromisso em defesa daquilo que é maior do que qualquer projeto político, a saber, o Evangelho e a Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo.

Por Marina, e junto com todos os que caminham ao seu lado, levantamos aos céus nossa oração, somando nossa voz ao profeta Amós, suplicando que nessa terra e nesse chão, “corra a retidão como um rio, e a justiça como um ribeiro perene!”


Brasil, 02 de outubro de 2014

 
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Declaração de Atibaia: Recomendações da Consulta Global de Lausanne sobre Teologia da Prosperidade, Pobreza e o Evangelho

quarta-feira, 1 de outubro de 2014


Atibaia, Brasil, 30 de março a 2 de abril de 2014

PREÂMBULO
Nós, os participantes da Consulta de Lausanne sobre “Teologia da Prosperidade, Pobreza e o Evangelho”, reunimo-nos no Brasil para discutir, debater e compreender melhor a crescente influência e a obra do que é conhecido como a Teologia da Prosperidade (TP) em nosso mundo hoje, sua relação com a pobreza e como ela afeta a missão “da igreja toda levando o Evangelho todo ao mundo todo”. Estudamos as Escrituras, oramos juntos, ouvimos histórias e relatos de várias partes do mundo, e trabalhamos para discernir a voz profética do Espírito Santo para a igreja. Nós nos reunimos movidos pela paixão pelo Evangelho de Jesus Cristo e em obediência ao mandato de compartilhar as Boas Novas por meio de palavras, ações e caráter, por termos em comum a consciência de que a TP oferece um Evangelho raso que, de fato, solapa a inteireza das Boas Novas de Jesus. A inteireza do Evangelho inclui um plano de salvação pessoal, que leva à vida eterna, no contexto da história bíblica ampla daquilo que Deus fez para salvar toda sua criação por meio da morte e ressurreição de Cristo.
Compreendemos que o termo “Teologia da Prosperidade” é por si só impreciso. Há várias teologias da prosperidade, todas elas arraigadas, expressas e aceitas em contextos específicos. Também reconhecemos ser necessária uma compreensão melhor dos diversos contextos históricos, sociológicos, culturais, econômicos, psicológicos e teológicos em que os ensinos da TP se firmam. Reconhecemos que as questões levantadas nesta consulta não serão exauridas ou resolvidas em poucos dias, e que um entendimento mais profundo da TP pode conduzir a uma resposta mais diferenciada com relação às suas manifestações em diferentes partes do mundo. Apesar das limitações, porém, oferecemos humildemente estas recomendações à igreja em geral como um chamado para maior reflexão e ação da parte dos evangélicos à medida que trabalhamos juntos para servir ao Reino de Deus e participamos da obra de Deus na reconciliação do mundo com Ele mesmo.
Essa consulta edificou-se sobre obras anteriores e fontes dentro do Movimento Lausanne. Em particular, os Grupos de Trabalho Teológico de Lausanne Declaração de Acropong (2008 – 2009) eSeção IIE do Compromisso da Cidade do Cabo, “Chamando a Igreja de Cristo de volta à humildade, à integridade e à simplicidade”.1 Encorajamos as igrejas e as organizações cristãs a estudar e a considerar com cuidado os desafios levantados nesses documentos.
I. UM CHAMADO À CONFISSÃO
  • Reconhecemos que o Movimento Lausanne nasceu e perdura principalmente num contexto privilegiado. Tal contexto molda nossa cosmovisão, influencia nossas perspectivas em relação à simplicidade e limita nosso entendimento das complexidades da pobreza. Portanto, andar em humildade inclui uma profunda consciência das maneiras pelas quais qualquer chamado à simplicidade ou a um estilo de vida bíblico pode ser irrelevante ou até um grande fardo para os que já se encontram oprimidos pela pobreza.
  • Reconhecemos que com frequência temos sido muito rápidos em julgar e fazer pronunciamentos sobre justiça, pobreza ou distribuição da riqueza, sem separar tempo para ouvir e estar presente com aqueles cujas vidas são moldadas pela pobreza e opressão. Confessamos que o fato de não conseguirmos viver o Evangelho é, em alguns casos, responsável por algumas das aberrações e injustiças.
  • Reconhecemos que com frequência denunciamos os excessos da TP, enquanto falhamos em denunciar as formas pelas quais o Evangelho terapêutico ou de autoajuda tem substituído a supremacia de Cristo em muitas de nossas igrejas.
  • Reconhecemos que um entendimento consumista da vida cristã difunde-se em muitas igrejas. Esse entendimento nos cega para o sofrimento, perseguição e opressão suportados por muitos de nossos irmãos e irmãs ao redor do mundo.
II. UM CHAMADO À AÇÃO
  • Justiça, misericórdia e serviço:
Os cristãos são chamados a agir com justiça e a amar de coração. Somos ainda chamados para servir aos outros e, ao fazê-lo, reconhecer Cristo no menor de nossos irmãos e irmãs. O serviço não é só para os outros, mas feito com os outros — com o pobre, com o oprimido, com o próximo.
  • Atos de serviço — tais como educação, cuidados médicos, serviços de socorro — e atos de justiça e advocacia são parte essencial do testemunho em favor do Evangelho. A exploração da pobreza e da necessidade não tem lugar nos esforços evangelísticos cristãos. Ao testemunhar do Evangelho por meio do serviço e da advocacia, os cristãos devem denunciar e evitar a exploração da pobreza, incluindo oferecimentos de falsa esperança, baseadas num entendimento mecanicista de recompensa e de bênção divinas.
  • Ética do poder e da riqueza:
    Os cristãos são chamados para denunciar a injustiça. Em muitas partes do mundo, a mídia expõe escândalos de abuso e corrupção de líderes dos movimentos da TP. Sejam esses males públicos ou encobertos, os cristãos precisam desafiar (i) o abuso de poder, incluindo poder espiritual; (ii) o espírito de “direito à riqueza” que desencoraja a prestação de contas e promove campanhas não éticas para levantar fundos; e (iii) práticas que exploram e oprimem os mais vulneráveis.
  • Os cristãos precisam confrontar todo ensino que mede seu sucesso pela saúde e riqueza material com uma teologia coerente da criação, do pecado, da redenção cristocêntrica e na futura esperança criacional.
  • Generosidade e bênçãos:
    Nós, cristãos, somos chamados para entregar a própria vida e compartilhar os dons que Deus nos tem dado. Reconhecemos a capacitação que resulta de doações e da importância que Jesus nosso Senhor atribuiu até à menor das ofertas oferecidas sacrificialmente para o Reino. Atos de generosidade e bênçãos devem ser marcas centrais da igreja cristã.
  • Justiça estrutural e shalom:
    Os cristãos são chamados não só para dar e compartilhar generosamente, mas para trabalhar pela atenuação da pobreza. Isso deve incluir oferecer meios alternativos e éticos para a geração de riqueza e manutenção de negócios socialmente responsáveis que capacitem os pobres e proporcionem benefício material e dignidade individual e comunitária. Isso deve ser sempre feito com o entendimento de que toda riqueza e toda criação pertencem acima de tudo a Deus.
  • Reconhecemos que há lugares em que devem ocorrer mudanças estruturais antes que se possam criar fontes alternativas de renda. Em tais casos, os cristãos precisam denunciar a corrupção e a opressão que limitam as opções para aqueles presos à pobreza e, desse modo, envolverem-se na busca de estruturas políticas, econômicas e culturais alternativas e justas.
  • Cura e compaixão
    Como parte essencial de nosso testemunho do Evangelho, os cristãos exercem ministérios de cura e compaixão. Somos chamados para ter grande discernimento ao desenvolver esses ministérios, respeitando plenamente a dignidade humana e nos certificando de que a vulnerabilidade das pessoas e sua necessidade de cura e/ou compaixão não sejam exploradas. Afirmamos a necessidade de um evangelismo compassivo, sabendo que sofrer pelo Evangelho e levar a dor dos outros são atos dignos do Reino de Deus e meios genuínos de encarnar Cristo junto aos que sofrem.
  • Construindo relacionamentos
    Os cristãos devem se empenhar para edificar relacionamentos de confiança e respeito com todas as pessoas, buscando meios para diálogos genuínos e verdadeiros em que seja possível desafiar convicções e esclarecer o Evangelho.
III. UM CHAMADO À VIDA NO REINO 
  • Afirmamos uma visão bíblica em favor do bem-estar da humanidade e de toda a criação de Deus.
  • Afirmamos que Deus deseja o melhor para seus filhos, e nós também procuramos cumprir seu desejo; mas reconhecemos como nossas culturas distorcem nossos desejos e nos afastam da plenitude de vida que é oferecida a todos em Cristo Jesus. O materialismo e o consumismo são duas formas básicas da distorção dos desejos. Onde os ensinos da TP manipulam e controlam, os cristãos devem ser uma voz profética, oferecendo justiça e esperança genuínas.
  • Afirmamos a necessidade de se fazer distinção entre uma resposta pastoral que cuida de indivíduos e a denúncia profética dos líderes responsáveis por qualquer tipo de manipulação e opressão. Jesus teve compaixão dos que estavam confusos e perdidos por terem sido desviados, mas denunciou com veemência os que os desviavam. Toda liderança cristã deve encarnar o modelo de serviço e sacrifício pessoal que nos foram dados por Jesus Cristo.
  • Convocamos a igreja a retornar à vida no Reino — uma vida marcada por serviço, humildade e integridade, onde falamos a verdade aos que estão no poder, denunciamos os falsos deuses de nossas culturas e vivemos como seguidores de Cristo na multiplicidade de nossos contextos.
Em obediência a Deus Pai, convocamos a igreja a ter a mesma mente, a mente que está em Cristo Jesus; a partilhar a vida no Espírito, vida em toda sua plenitude, de modo que brilhemos como estrelas para que o mundo venha a conhecer o amor salvador de Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

IV. UM CHAMADO À REFLEXÃO
  • Precisamos reagir a manifestações imoderadas e sutis da TP com um envolvimento criterioso com a totalidade das Escrituras. Isso significa que (i) vamos nos envolver com a narrativa bíblica completa; e (ii) vamos apresentar uma expressão clara do Evangelho e uma reflexão ponderada sobre as pressuposições hermenêuticas e práticas por trás das interpretações da Bíblia. Não basta simplesmente alegar que “a Bíblia está a nosso favor”, já que cristãos de diferentes convicções, que também professam a autoridade das Escrituras, fariam a mesma afirmação, destacando inúmeros textos que acreditam apoiar suas práticas.
  • Somos chamados para participar de um diálogo produtivo a respeito de como a Bíblia inteira deve moldar as convicções acerca da saúde e da prosperidade, e como compreendemos nossos estilos de vida à luz do ato salvador de Deus em Jesus Cristo.
            – Como nos relacionamos com aqueles cujas estratégias hermenêuticas são tão diferentes, que um diálogo frutífero sobre interpretação parece quase impossível?
  • Reconhecemos que às vezes Deus usa o sofrimento para refinar a fé e fortalecer seu povo. É muito frequente a igreja concentrar-se em pregar o Evangelho de bênçãos, enquanto a proclamação de todo o Evangelho ao mundo todo exige que a igreja tome consciência adequada do lugar do luto e do lamento.
            - Quais os recursos e práticas bíblicos que precisam ser aprendidos para estar presentes e nos envolvermos melhor com aqueles que sofrem e se afligem?
  • Reconhecemos que a pobreza é uma realidade complexa e multidimensional. Ela inclui (i) falta de renda e de recursos produtivos suficientes para garantir meios sustentáveis de subsistência; (ii) fome e desnutrição; (iii) saúde precária; (iv) acesso limitado ou inexistente à educação e a outros serviços básicos; (v) morbidade e mortalidade potencializadas por doenças; (vi) falta de moradia ou moradia inadequada; (vii) ambientes de risco; e (viii) discriminação social e exclusão. É também caracterizada por uma falta de participação nas tomadas de decisão e na vida civil, social e cultural. Ela afeta tanto o indivíduo como a comunidade e repercute amplamente em toda a criação.
             – Ao ser uma realidade relacional, a pobreza possui causas econômicas, físicas, sociais, mentais e espirituais. Qual seria a resposta que um Evangelho bíblico e evangélico ofereceria a essas pobrezas?
  • Reconhecemos que, na economia de mercado global, uma das ferramentas mais eficazes para a eliminação da pobreza é o desenvolvimento econômico, mas os evangélicos com frequência falham na promoção de soluções para a pobreza que envolvam iniciativas empresariais éticas.
              – Como podemos trabalhar de maneira mais eficaz para o estabelecimento de empreendimento de negócios criativos, éticos e sustentáveis na luta contra a pobreza? (Veja o site de BAM Think Tank)
  • Temos consciência de que muitas manifestações da TP, tanto nas suas manifestações mais simples como nas mais complexas, oferecem às pessoas um lugar de pertencimento, um senso de esperança e uma teologia que desafia o status quo.
               – Como podemos oferecer uma experiência comunitária mais profunda, uma esperança melhor e uma teologia que desafie o status quo e a opressão através da personificação da justiça e do amor? Quais os recursos bíblicos que nos permitiriam desenvolver uma antropologia cristã que abarque emoções, experiências religiosas, sentimentos e processos mentais das pessoas e das comunidades na multiplicidade de seus contextos?

EPÍLOGO 
Uma Consulta como esta muitas vezes produz mais perguntas do que respostas. Esperamos que tenhamos ajudado a lançar luz sobre alguns dos desafios trazidos pela TP. Também esperamos que, mediante reflexão meticulosa, possamos reconsiderar nosso modo de pensar acerca da riqueza e da pobreza e da relação delas com um testemunho cristão ético.
Nossa oração é que os cristãos em todo o mundo tomem este texto e o empreguem com sabedoria nos muitos contextos em que Deus nos tem colocado. Confiamos que ele inspire a pregação, o ensino e a vida baseados na Bíblia, que confronte os abusos da TP e que encoraje os cristãos a adotar estilos de vida éticos que, de fato, nos tornem portadores de uma esperança melhor, a esperança que temos em Jesus Cristo.

Apêndice I: “Declaração de Acropong” (2008-2009) (EM INGLÊS / EM PORTUGUÊS)
Apêndice II: Compromisso da Cidade do Cabo (2010) Seção IIE-5: “Andar em simplicidade, rejeitando a idolatria da ganância” (EM INGLÊS / EM PORTUGUÊS)
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