Estupro coletivo de jovem incentiva transformação na Índia

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Mulheres buscam autodefesa, protestam contra impunidade e reivindicam mudança em país onde abusos são comuns

Gabriela Loureiro e Cecília Araújo

morte de uma estudante que foi estuprada e agredida por seis homens em Nova Délhi provocou protestos em todo o país e abriu o debate sobre por que a emergente Índia é o pior país do G20 (grupo de países em desenvolvimento) para ser uma mulher. O desrespeito contra as mulheres na Índia se manifesta já na concepção – o país tem uma das maiores taxas de infanticídio feminino do mundo – e é visto também em outras etapas da vida, por meio de crimes como o tráfico de jovens e o estupro – uma indiana é violentada sexualmente a cada 20 minutos, segundo dados oficiais.
“Casos emblemáticos de violência contra as mulheres, como o da Malala e o da jovem indiana, muitas vezes servem como espelho: fazem com que algumas pessoas que não prestavam atenção ao problema passem a enxergá-lo com mais clareza, inclusive em sua própria realidade. Porém, a comoção global sobre casos pontuais, amplamente divulgados pela imprensa, costuma ser fugaz e pouco aprofundada. Deve haver campanhas mais concretas para que o debate perdure", defende Emilio Ginés, presidente da organização espanhola Federación de Asociaciones de Defensa y Promoción de Derechos Humanos e membro do Subcomitê de Prevenção à Tortura da ONU.
Em 2011, 24.000 casos de estupro foram denunciados na Índia, 9% a mais do que em 2010. Em 94% dos casos, as vítimas conheciam seu agressor. O caso de Jyoti Singh Pandey chamou a atenção por aproximar a vítima a uma camada da população que tem acesso aos estudos e ao consumo. Uma jovem estudante de fisioterapia de 23 anos, que foi atacada dentro de um ônibus no centro da capital do país, quando voltava com um amigo de uma sessão de cinema – eles tinham ido assistir ao filme As Aventuras de Pi, indicado ao Oscar.
“Várias informações sobre a vítima vazaram, como o fato de que era uma estudante de fisioterapia. Isso fez com que muitas pessoas pensassem: poderia ser eu - e começassem a se preocupar e insistir por mudanças. O problema passou a ser visto como universal”, explica a escritora indiana Sonia Faleiro.
A negligência das autoridades e a impunidade foram os principais alvos de críticas dos protestos. “A recusa do estado de fazer seu trabalho e proteger os seus cidadãos é a raiz da fúria dos protestos na Índia”, disse ao site de VEJA a socióloga indiana Radhika Chopra.
Mudanças – Os manifestantes cobraram punições mais rígidas para os criminosos, em um país onde os processos se arrastam na Justiça. No começo de 2011, havia 95.000 casos de estupro esperando julgamento na Índia, sendo que somente 16% deles foram resolvidos até o final do mesmo ano. Dos que foram concluídos, somente 26% resultaram em uma condenação, de acordo com o Centro de Pesquisa Social da Índia. Diante da fúria dos recentes protestos, as autoridades indianas criaram 'cortes rápidas' para julgarem casos de estupro. A expectativa é que os processos possam ser encerrados em algumas semanas, e não mais demorar até 14 anos para terminar, como ocorre normalmente.
Pequenas mudanças como essa mostram podem ter resultado dos protestos, mas ainda estão longe de resolver os problemas, que exigem transformações culturais. “Os passos que estão sendo tomados agora não têm precedentes, e devem continuar com prontidão e urgência. Mas um ataque multidimensional é necessário”, afirma a cientista política e professora da Universidade de Calcutá, Bonita Aleaz.
Números negativos – No índice de igualdade de gênero de 2011 da Organização das Nações Unidas (ONU), realizado com base em informações sobre educação, emprego, presença na política e saúde sexual e materna, a Índia ficou em 134º lugar de 187 países, atrás de Arábia Saudita, Iraque e China. O Brasil aparece em 84º lugar.
Em 2012, a Fundação Thomson Reuters divulgou um estudo em que a Índia aparece na lanterna entre os países em desenvolvimento quando o assunto é a condição da mulher. Depois de analisar dados relacionados a igualdade, atenção à saúde feminina e violência de gênero, o levantamento destacou que 44,5% das garotas se casam antes dos 18 anos e 52% das mulheres consideram justificável apanharem do marido.
Mas para a professora de sociologia da Universidade de Délhi Meenakshi Thapan, as mulheres indianas estão cada vez mais dispostas a reportar os abusos. “Infanticídio, tráfico de mulheres, silêncio sobre o estupro, tudo isso está conectado”, avalia. “O estupro era escondido para baixo do tapete, mas agora as mulheres estão ganhando coragem para falar sobre isso, para denunciar à polícia e não estão deixando se amedrontar pelo estigma de mulher estuprada”.
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