Engolidos pela Cultura Pop

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Engolidos pela Cultura Pop fala da influência da propaganda, das novas tecnologias, das celebridades, da literatura, enfim, da cultura da nossa época. E, mais. Steve Turner ajuda o leitor a fazer diferença entre o modo como a Bíblia enxerga os produtos, os símbolos da cultura, e a forma como eles nos são apresentados. O que vestimos, o que lemos, o que vemos e como nos movemos pelas ruas, pelas redes sociais e também nas igrejas tem tudo a ver com discernimento espiritual – ou a ausência dele.
Para o autor de Engolidos pela Cultura Pop, a pergunta não é “o que devemos evitar?”, mas “o que e como devemos consumir?”. Como apreciar, criar e criticar as tendências e os modismos? 
Uma leitura profunda e divertida. Essencial para os cristãos que querem fazer diferença nos diferentes campos da cultura.

Steve Turner é jornalista, poeta e escritor e mora em Londres, Inglaterra. É crítico musical e colaborador das revistas Rolling Stone e Christianity Today, e do jornal The Times. Entre seus vários livros estão Cristianismo Criativo? (W4 Editora), ImagineConversation with Eric ClaptonU2 – Rattle and Hum e The Beatles – a história por trás de todas as canções (Editora Cosac Naify).



 “Steve Turner oferece não apenas as ferramentas para engajamento e avaliação crítica da cultura, mas também uma abordagem cuidadosa do que significa criar cultura – consciente ou inconscientemente –, como cristãos no mundo." 
Publishers Weekly

"As igrejas locais pouco ajudam os seus membros quando o assunto é avaliar os produtos da cultura popular a partir de um ponto de vista cristão. Engolidos pela Cultura Pop é a resposta para aqueles que precisam de ajuda nessa área."
– Christian Librarian

A “Missão Integral” nem é tão integral assim!

segunda-feira, 26 de maio de 2014


Nestes últimos dias, em nosso mundo evangélico, estabeleceu-se uma conversa em torno da Missão Integral (MI). Essa conversa, nem sempre muito fácil, é importante na medida em que nos leve mais para perto de uma obediência evangélica saudável. Ao prestar atenção a ela, minha memória se aguçou e trouxe de volta momentos e movimentos da minha própria história. 

A primeira vez que eu embarquei num ônibus, em Porto Alegre, rumo à Argentina, foi em 1972. Lá, recluso numa pequena cidade chamada Villa Maria, eu passei um mês aos pés de pessoas como René Padilla e Samuel Escobar. Aquele mês tornou-se inesquecível para mim por ter sido altamente formador na minha vida. Depois de Villa Maria foram muitas as vezes em que pude participar de discussões teológicas e vivências comunitárias que ajudaram a forjar a minha caminhada no seguimento a Jesus. Quem sabe, a questão mais importante que eu poderia dizer é que René, Samuel e seus companheiros eram simples, acessíveis e tinham um coração pastoral; e, ao mesmo tempo, eram estudiosos e me impressionavam com o seu conhecimento, a bibliografia que manejavam e sua grande cultura teológica. Eram homens de família e se preocupavam em mentorear jovens como eu, com as minhas perguntas e os meus devaneios. Eles queriam simplesmente ser seguidores de Jesus e neste afã percorriam o continente latino-americano em seguidos encontros de evangelização e formação de discípulos. 

Embora este não seja o espaço onde convém entrar em detalhes dessas minhas andanças, eu queria, à guisa de contribuição para esta nossa conversa, pontuar quatro coisas.

O termo “Missão Integral” não pode ser, nem absolutizado, nem ideologizado!
Se é certo que o termo MI tem um forte cunho latino-americano, histórias como a de INFEMIT (International Fellowship of Mission Theologians) evidenciam que havia em outros continentes uma preocupação e uma agenda similar e que se buscavam oportunidades e fóruns de encontro onde se pudesse compartilhar e construir uma agenda que refletisse a grande amplitude da missão da igreja. Não há cercas geográficas em torno à compreensão da MI.

Também se pode afirmar que a voz latino-americana foi chave para que uma compreensão de missão que fosse integral viesse a marcar presença no Pacto de Lausanne. Mas o compromisso com esta compreensão de missão não foi uma descoberta que se deu neste continente, pois outras expressões similares povoam as diferentes histórias missionárias. E, em tempos recentes, a MI ganhou muito mais presença no próprio Movimento de Lausanne, ao ponto de ser abraçada como “integral mission” pelo Compromisso da Cidade do Cabo, de cuja redação eu mesmo tive a oportunidade de participar. Outros esforços globais como o “Micah Challenge” (Desafio Miquéias) e a “Micah Network” (Rede Miquéias) expressam muito bem que há uma caminhada global na vertente desta compreensão e missão.

Esse desenvolvimento, no entanto, não pode nos levar a absolutizar uma determinada forma de falar da missão. MI é só um jeito de falar. É um jeito de querer gestar uma obediência ao evangelho que seja o mais consistente e ampla possível. A MI, de fato, nem é tão integral assim. Aliás, nada do que fazemos é “tão integral assim” e todos só sabemos e só falamos em parte, como o próprio apóstolo Paulo nos ensina. E tem mais: creio que a MI deve ser avaliada criticamente, e cada nova geração e cada novo contexto deve fazê-lo. Ainda que “formado na escola da MI”, eu tenho procurado avaliá-la criticamente e percebido áreas nas quais ela precisa refletir. Entre estas, eu ressaltaria: a busca por expressões de uma espiritualidade que leve mais em conta o coração e não só a mente; que se busque um jeito de fazer teologia que seja menos cerebral e mais poético; que a predominância do homem branco seja completada por outras raças e etnias e pelo importante feminino, que se deixe de ser um fenômeno fortemente de classe média, como o são muitas de nossas igrejas históricas, e encontro o caminho da popularização e da carismatização, que a ênfase socioeconômica e até política da realidade seja ampliada, por exemplo, por um discernimento cultural e sócio cultural da realidade na qual vivemos– para citar umas poucas áreas a serem trabalhadas. Mas confesso que, em oração, sempre volto a balbuciar o anseio de que a minha compreensão e vivência da missão seja o mais integral possível... para a glória de Deus.

O encontro com a Palavra foi fascinante!
Os meus primeiros encontros com a MI se deram enquanto estudava teologia numa instituição de corte liberal. Oriundo de um contexto pietista, confesso que estava bastante perdido no universo daquela formação e o encontro com essa outra escola me deslumbrou. O que eu via nos encontros onde a MI estava sendo gestada era uma profunda submissão à Palavra de Deus, associada à descoberta de que esta era profundamente relevante para os nossos conturbados dias e podia ser estudada com sérios critérios históricos, geográficos e semânticos. Neste universo eu encontrava uma hermenêutica que entendia a autoridade da Palavra, estudava-a com seriedade e a aplicava ao contexto em que vivíamos. 

Até hoje sou fascinado pela Palavra de Deus, e foi nos caminhos da MI que este encanto foi se aprofundando. Aliás, a ênfase na Palavra de Deus foi pioneira nesta caminhada. A Fraternidade Teológica Latino-Americana, que foi o lugar maior onde a teologia da MI foi gestada, começou a ser gestada no primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização (CLADE I), realizado em Bogotá, Colômbia, em 1969. E o seu primeiro encontro formal, pós CLADE I, tematizou a Palavra de Deus, deixando evidente o lugar central desta em qualquer teologia e em qualquer caminhada cristã. Assim, a MI nasceu no berço das Escrituras.

A descoberta da centralidade do reino de Deus
Procurando sobreviver em meio aos meandros de uma teologia liberal, que era muito boa na desconstrução de sistemas e credos, foi a descoberta do “reino de Deus” como a chave hermenêutica para a construção da minha fé e vivência da missão que me ensinou a nadar rumo à sobrevivência na fé no Deus trino. O evangelho se abriu e ganhou cores que eu não imaginava. O evangelho falava de mim e do outro, especialmente do pequeno e do pobre. O evangelho falava do corpo, da alma e do espírito. Ele falava da pessoa e dos sistemas e estruturas onde elas vivem. Falava do passado e do presente e apontava para o futuro de Deus. O evangelho mostrava um Jesus que anunciava e vivia o reino de Deus, e me convidava a segui-lo nas sendas da esperança desse reino.

Logo depois da Consulta sobre a Palavra de Deus, na qual a FTL foi formalmente criada, procurou-se mergulhar na ênfase no reino de Deus, como demonstrado e apontado pelos evangelhos. Este reino de Deus é que dava os contornos para a gestação de uma missiologia que fosse fiel aos evangelhos, que se soubesse a serviço do Deus trino e fosse em busca do outro, quem quer que ele fosse e onde quer que estivesse. Por isso é que CLADE III trouxe o slogan de Lausanne para as nossas paragens latinas: “Todo o Evangelho, para todos os povos, desde a América Latina”. 

Descobrindo a realidade ao nosso redor
Vindo de um transfundo pietista, que tende a olhar mais para a realidade espiritual do que para a realidade social do outro, e vivendo num contexto de ditadura militar, onde a preocupação sociopolítica tendia a ser cunhada de subversiva, foi significativo para mim descobrir a dimensão mais ampla do evangelho, tanto na dimensão cultural como social e econômica da realidade. Eu costumo dizer que foi o evangelho que me abriu os olhos para a realidade e especialmente para o pobre, o excluído e o vulnerável. 

Às vezes surge a pergunta (e muitas vezes, a afirmação) sobre a influência do marxismo na teologia da MI. Aqui, parece-me que precisamos discernir dois diferentes momentos. Num primeiro momento, a questão central era perceber e discernir a realidade que a iniciativa missionária norte-americana estava, em sua maioria, trazendo para o nosso continente. 

É importante registrar que essa iniciativa missionária estava focando fortemente a América Latina devido, especialmente, ao fechamento da China para o envio de missionários estrangeiros, bem como o número cada vez maior de missionários provenientes de crescentes igrejas evangélicas, várias delas de corte fundamentalista nos Estados Unidos. Esta vertente evangélica, naquele país, havia reagido fortemente ao liberalismo teológico vindo da Europa e se posicionado radicalmente contra o chamado “evangelho social”. Logo, ao desenvolverem os seus ministérios em nosso continente, a ênfase numa evangelização e discipulado voltados para o indivíduo e para as coisas espirituais era muito forte, quando não exclusiva. Acresça-se a isso a postura que os EUA haviam tomado em relação à grande maioria de ditaduras no continente, fato que contaminava a obra missionária. É diante desta ênfase que vozes latinas se levantam e chamam atenção para um evangelho que se preocupa com todas as dimensões da vida humana, para a necessidade de se levar em conta a realidade do nosso continente, fortemente marcado pela pobreza, opressão e injustiça social. Assim, na nascente da MI está o clamor para que se perceba a realidade e a engajar-se nela e também a descoberta de que o evangelho não está alheio a essa realidade e a proclamação do reino de Deus visa a sua transformação. 

Num segundo momento, essa mesma caminhada evangélica em torno ao conceito da MI percebeu que emergia fortemente no continente aquilo que se chamou de Teologia da Libertação. Essa teologia ajudou a desvendar a realidade deste continente, perguntou pelo lugar da igreja nele e se propôs fazer uma releitura do evangelho desde a perspectiva daquele que havia sido historicamente excluído nas andanças continentais. Para analisar essa realidade, muitos teólogos da libertação fizeram uso do instrumental marxista, enquanto outros fizeram uso também da proposta revolucionária articulada a partir do marxismo. Os detentores da teologia da MI discerniram a importância de entrar em diálogo crítico com a Teologia da Libertação, sem deixar de afirmar os princípios básicos de uma fé evangélica. É preciso dizer que nestas fileiras da MI havia desde evangélicos que se identificavam com uma expressão mais “conservadora” da fé, quanto outros que o faziam desde uma perspectiva mais “progressista”. Também se pode dizer que o instrumental marxista de análise da realidade foi usado e importante para vários, mas não tenho registro de nenhuma conversão para um marxismo ideológico. Em verdade, acho a discussão em torno da influência marxista na teologia da MI muito fora de foco. O foco de fato era o evangelho do reino de Deus e sua vivência na realidade circundante. Nada mais e nada menos do que isso. Aliás, isso devia ser feito, em épocas passadas e com muita dificuldade, em contextos de muitos governos autoritários e militares. Hoje o contexto mudou, mas a MI ainda quer o mesmo: “todo o evangelho para todos os povos”, a partir do lugar onde nos sabemos chamados por Deus.

A vivência da MI nem é tão integral assim. Aliás, nada que propormos ou fizermos vai ser bem integral, sendo sempre limitado e até unilateral, o que é marca da nossa humanidade caída. A vivência da MI se torna um pouco mais integral quando vivida em comunidade, e creio que essa marca ela tem. A MI é uma proposta que se gerou em comunidade e se vive em comunidade. Ela é também um pouco mais integral, quando novas gerações a avaliam criticamente, complementam e contextualizam novamente, e nesta área a MI tem encontrado as suas dificuldades, ainda que vemos uma verdadeira multidão de jovens querendo abraçar e viver a isto que se tem chamado de MI

A MI é, em última análise, um esforço, desejo e intento missionário e comunitário de escutar, receber e viver o evangelho de Jesus Cristo de forma intensa, comunitária e contextual. Aliás, o conceito “Missão Integral” deve estar a serviço disso. Caso contrário, mudemos de linguagem – mas sempre querendo nos encontrar no encanto pelo evangelho e no serviço do Reino de Deus no mundo no qual vivemos.




Valdir Steuernagel é teólogo sênior da Visão Mundial Internacional. Pastor luterano, é um dos coordenadores da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos diretores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne.

Resposta ao Pr. Ariovaldo Ramos

sexta-feira, 23 de maio de 2014


Caro Pr. Ariovaldo Ramos, muito obrigado por sua resposta irênica, tranquila e respeitosa. Saiba que o respeito e a consideração são mútuos. Permita-me uma ou duas palavras à guisa de interação com sua “Carta Aberta”.

Primeira, com relação ao programa “Academia em Debate”, seu nome e seu formato. Já por mais de cinco anos apresento este programa, que durante este tempo tem tratado de diversos assuntos que considerei relevantes para a academia secular e cristã, como você poderá facilmente verificar por uma pesquisa no YouTube.

O nome “Academia em Debate” significa simplesmente que vamos conversar sobre temas que estão sendo debatidos na academia. O formato do programa sempre foi o de apresentar pontos de vista mediante o sistema de perguntas e respostas a pessoas convidadas, e não promover um programa com dois debatedores de posições opostas. O debate que queremos gerar é este que está acontecendo agora. Você publicou uma resposta pensada, respeitosa e estudada, o que dificilmente aconteceria num confronto de 30 minutos. Agora, os que estão clamando por “debate,” podem ler sua resposta e tirar suas próprias conclusões.

É assim que o debate acadêmico se processa, e não pela “briga de galos” em público, que acaba gerando mais calor do que luz e serve para satisfazer ao desejo de muitos que estão mais interessados na competição dos intelectos do que na consecução da verdade.

Dito isto, passo ao conteúdo de sua “Carta Aberta”. Qualquer pessoa que assistiu ao programa e leu sua carta com atenção verificará a concordância em muitos pontos: a sustentação das Escrituras como a Palavra de Deus, o desejo de obedecer ao Evangelho, a consciência de que cuidar dos pobres e promover a justiça faz parte do Evangelho, entre outros. Os pontos de controvérsia são relacionados ao referencial teórico da TMI e sua relação com a Teologia da Libertação – por sinal, você não tocou na “Carta Aberta” na questão do uso do marxismo, sim ou não, pela TMI, que é uma das críticas mais feitas ao movimento. Eu sei que numa “Carta Aberta” que visa responder rapidamente a uma situação, não houve tempo para dar uma resposta a estas indagações, especialmente àquela da relação da TMI com o marxismo. Quem sabe você escreverá sobre isto mais adiante.
O debate continua, de forma educada e acadêmica. Veja, por exemplo, o que escreveu Filipe Fontes e o Jonas Madureira em atenção à sua respeitosa "Carta Aberta". Confira aqui:

Últimas palavras, por enquanto... Filipe Fontes
Nota de esclarecimento - Jonas Madureira

Numa nota final, para mim “o Evangelho todo para o homem todo” encontra uma de suas melhores expressões na cosmovisão reformada, refletida nas conhecidas palavras de Abraham Kuyper, primeiro ministro da Holanda e pastor reformado, “Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: “É meu!” Os seguidores desta linha abriram universidades, hospitais, escolas, abrigos e orfanatos, e se engajaram nas artes, ciência e academia – o “homem todo”, muito antes do surgimento da TMI.

Termino. Mais uma vez, obrigado pela resposta tranquila e que atendeu ao objetivo do programa, que é gerar debate acadêmico de bom nível.

Desejo-lhe um dia abençoado.
Em Cristo,


Augustus Nicodemus

Nota de esclarecimento | Jonas Madureira

1. Primeiro esclarecimento. Não foi da noite para o dia que eu comecei a ler sobre a TMI e, por conseguinte, a falar sobre as minhas impressões da TMI. Para efeitos formais, em 2010, tivemos a oportunidade de receber em nossa 7º. edição do Congresso Vida Nova de Teologia, em Águas de Lindóia, a presença do Dr. C. René Padilla, como carro-chefe da conferência. Confira em:  7º. edição do Congresso Vida Nova de Teologia

Naquela ocasião, tive a incrível oportunidade de apresentar, pela primeira vez, as minhas impressões da TMI para o próprio Dr. Padilla. A propósito, elas foram ditas e respectivamente ouvidas tanto por Dr. Padilla, que, como já foi dito, era um dos nossos palestrantes, como por Ariovaldo Ramos, que estava participando do congresso. O que é interessante é que tudo o que eu disse no programa “Academia em Debate” foi dito na palestra de 2010 (É claro que, na conferência de 2010, tive mais tempo para expor os meus argumentos com mais clareza!). Após a palestra, o Dr. Padilla me procurou e fez as suas ponderações e reações. Inclusive, disse para mim que o livro que eu usei para fundamentar a minha palestra (“Missão Integral: ensaios sobre o Reino e a igreja”) já não mais representava a sua atual perspectiva sobre a missão integral. Lembro-me, também, de ter recebido a crítica do Ariovaldo, que me disse: “Jonas, concordei com a primeira parte da sua palestra, mas a segunda parte revelou uma falta de leitura da bibliografia elementar da TMI! Também não concordei com a justaposição que você estabeleceu entre a TdL e a TMI”. Recordo-me bem que recebi essas críticas numa boa. Falamos de nos encontrar em algum dia para conversarmos sobre o assunto, mas esse dia ainda não chegou. Portanto, o que eu disse no programa “Academia em Debate” não é nenhuma novidade, antes é o que venho dizendo ao longo de cinco anos! O cômico de tudo isso é que a primeira vez que tornei pública as minhas impressões da TMI foi curiosamente na frente do Dr. Padilla e do Ariovaldo Ramos.

2. Segundo esclarecimento. Dr. Augustus Nicodemus, a quem muito admiro, fez-me um convite para falar sobre as minhas impressões sobre a TMI no programa “Academia em Debate”, um programa que ele vem fazendo ao longo de seis anos. O programa já tem um formato reconhecido tanto por aqueles que gostam como por aqueles que não gostam. O que fiz, e não me arrependo de forma alguma, foi aceitar ao convite que vinha, sobretudo, de um amigo. Até hoje nunca recebi um convite do Ariovaldo Ramos ou de qualquer outro teólogo ou instituição vinculada aos ideais da TMI para uma conversa ou até mesmo para um debate. Quero dizer, publicamente, que não me nego a aceitar ao convite para conversar ou debater sobre a TMI com quem quer que seja. Estou completamente aberto ao diálogo e ao debate, plenamente aberto para corrigir e rever, se preciso, as minhas possíveis imprecisões, contanto que seja em um ambiente irênico, de respeito, de cordialidade, de educação, de elegância, de honestidade intelectual e de tolerância. Sinceramente, não vejo problema nenhum em um programa midiático convidar apenas as pessoas que a produção do programa deseja trazer! Afinal, em nosso país, pelo menos por enquanto, ainda vivenciamos a prática da liberdade de expressão!

3. Terceiro esclarecimento. Apenas lamento a reação beligerante e intolerante de alguns defensores da TMI, inclusive alguns que me conhecem. É incrível, mas a beligerância, a rudeza e a falta de educação que mais tenho criticado em alguns reformados e evangélicos conservadores, eu pude ver também do lado dos evangélicos progressistas e defensores da TMI. Realmente, ainda não aprendemos a conversar… Foi enorme a quantidade de mensagens virulentas, indelicadas, grosseiras, que questionaram a minha dignidade como homem, marido, pastor e professor. É muito triste viver em um contexto que se diz cristão, mas cujo vínculo do amor é só um mero discurso que se desfaz como uma fumaça ao vento. Nessas horas, louvo a Deus pela bênção que ele me deu de ter vivido, pensado e estudado nos departamentos de filosofia da PUC-SP e da USP. Com pensadores ateus, agnósticos e católicos consegui travar inúmeros debates sem esse coitadismo, personalismo e pessoalismo tão presente entre os “intelectuais evangélicos”. Assim, me recuso veementemente a responder interações que sejam baixas e pequenas. Em contrapartida, terei um enorme prazer em interagir com as críticas que chegarem seguindo o padrão da decência. Em nenhum momento a minha intenção foi ofender ou ser desrespeitoso com os integrantes da TMI. Apenas critiquei ideias, pois acredito que ideias influenciam, sim, a Práxis. Se alguém se sentiu ofendido, peço perdão. De forma alguma desejei tirar a paz de seu coração.


"Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição” (Efésios 3.14)

Últimas palavras, por enquanto... Filipe Fontes


Tenho optado por não entrar em debates pela internet. Além da falta de tempo que assola a todos nós, me sinto incomodado pelo fato de que debates teológico-acadêmicos se transformam muito rapidamente em troca de acusações neste veículo. Lamentavelmente, já tenho visto isto acontecer neste debate também, embora não generalizadamente. A carta aberta escrita pelo Pr. Ariovaldo Ramos – a quem agradeço pela maneira tão gentil e fraterna com que escreveu – apresenta, por exemplo, um tom bem diferente. 

Este post não é, definitivamente, uma mudança de postura. Não pretendo desenvolver um debate virtual. Não por que não seria agradável participar de uma conversa gentil, mas por que o tempo e esforço exigido, e as brigas que provoco sem querer me cansam em demasia para as atividades ministeriais. Se eu continuar entendendo ser relevante, publicarei sobre o assunto no futuro em algum lugar – é assim que concebo o debate acadêmico. Este post tem apenas o objetivo de fazer considerações que gostaria de ter feito no programa, mas que não pude fazer pela exiguidade de tempo e pelas limitações do veículo. Possivelmente serão minhas últimas no momento.

1) Há um esforço por relacionar a ideia de “Missão Integral” com uma teologia ortodoxa. Mas, na prática teólogos de várias tendências diferentes se apropriaram e fazem uso dela no Brasil atualmente; desde teólogos que defendem a inspiração, inerrância e infalibilidade da Bíblia, até aqueles que duvidam da possibilidade de qualquer conhecimento objetivo de Deus, reputando-o como autobiográfico, o que é próprio do liberalismo clássico. Por isso, creio que definir MI é hoje uma tarefa bastante difícil.

2) Esta apropriação por parte de tendências teológicas tão diferentes somente é possível pela falta de comprometimento radical da MI com uma tradição teológica de pensamento. Guilherme de Carvalho, no artigo intitulado A missão integral na encruzilhada: Reconsiderando a tensão no pensamento teológico de Lausanne, na obra Fé cristã e cultura contemporânea, publicada em 2009 pela Ultimato, já denunciou esse problema. Ao que parece, a MI parece ser uma postura prática que tem recebido conteúdo teológico a posteriori. Ou seja, ao invés de caminhar da teologia para a prática, promove um movimento inverso. 

3) Embora carregue o adjetivo integral, a MI tem se mostrado pragmaticamente reducionista. Até mesmo alguns de seus proponentes no Brasil reconhecem isso, ao mesmo tempo em que procuram defender que esse reducionismo seria uma espécie de desvio. Para mim ele parece ser consequência natural de seu método dialético (apontado por Ricardo Gondim em sua tese de doutoramento publicada em 2010 pela Fonte editorial, com o título: Missão Integral: Em busca de uma identidade evangélica), sobretudo da escolha do materialismo histórico como parceira de diálogo. 

4) Se a MI nasce marxista, eu não estou totalmente à vontade para afirmar. Se a MI é toda marxista, também não. Mas que há traços de marxismo em seu desenvolvimento e que o que temos recebido mais recentemente no Brasil e tem se tornado mais popular está marcado por tal influência, creio ser facilmente perceptível. Como eu afirmei no programa, vejo 4 relações entre as duas coisas:


a) Semelhança histórica: A MI surgiu no período de profundo florescimento do pensamento esquerdista na América Latina e foi desenvolvida no seio de movimentos e organizações que forjaram também perspectivas teológicas claramente comprometidas com um ideário materialista histórico, como a Teologia da Libertação. Por exemplo: FTL (Fraternidade Teológica Latino Americana) e ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina).

b) Semelhança metodológica: Constantemente se ouve, atrelado à MI o discurso da necessidade de uma teologia regional, brasileira, tupiniquim, à parte da tradição teológica europeia-norte americana que recebemos. Esse discurso antitradicionalista de rompimento com a tradição é muito semelhante ao do próprio Marx, que nas Teses contra Feuerbach, incluídas depois na Ideologia Alemã, afirma que os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; enquanto o que importa é transformá-lo.

c) Semelhança terminológica: Proponentes da MI no Brasil costumam aplicar ao Novo Testamento, de maneira mais direta ao ministério de Cristo, termos academicamente cristalizados como marxistas, como alienação, revolução, ideologia, subversão, dentre outros.

d) Semelhança de ênfase conceitual: Não é incomum também encontrarmos em textos e falas dos proponentes mais conhecidos da MI no Brasil atualmente, uma ênfase nos impactos econômicos da obra de Cristo e de seu reino. Em algumas ocasiões a ideia de que o Reino produz transformações de cunho econômico é quase que uma constante exclusiva.

5) Embora eu não negue momentos de verdade no marxismo, ele é fundamentalmente antagônico ao cristianismo, enquanto cosmovisão. Primeiramente, por que é materialista. Isto é, ignora qualquer dimensão transcendente. Segundo, por que sendo materialista, reduz a dinâmica da vida humana às suas relações socioeconômicas, localizando nesse nível: criação, queda, e redenção. Correndo o risco de imprecisões: enquanto o cristianismo localiza a origem do homem em Deus, o marxismo a localiza na produção. Enquanto o cristianismo localiza a queda na quebra da relação do homem com Deus, o marxismo a localiza na opressão de um modelo econômico. Enquanto o cristianismo localiza a redenção na reconciliação com Deus por meio de Cristo, o marxismo a concebe como a instauração revolucionária de um modelo econômico. Qualquer tentativa de síntese do cristianismo com uma perspectiva tão religiosamente comprometida, dificilmente passa ilesa. É aqui que, na minha opinião, nasce o reducionismo.

6) Criticar um determinado paradigma não significa ignorar eventuais problemas que ele tenha levantado, nem mesmo eventuais contribuições que ele tenha a oferecer. Creio que a MI levanta um problema real: precisamos de uma concepção de missão que tenha um impacto mais abrangente. Creio também que a MI tem uma contribuição efetiva: chamar nossa atenção para a necessidade de considerar dentro dessa concepção de missão o papel social da igreja e a preocupação com o pobre – isto é legítimo. Mas, pela razão apresentada acima, não creio que ela poderá nos fornecer uma concepção efetivamente integral, pelo menos nos caminhos trilhados mais recentemente no Brasil. 

7) Creio que nós, cristãos tradicionais, devemos ser não apenas reativos, mas também propositivos. Sendo assim, defendo que precisamos pensar numa alternativa para essa questão da missão da igreja e seu impacto cultural. Primeiramente, precisamos de uma perspectiva evangélica, ou seja, que considere a centralidade do evangelho na missão da igreja. Em segundo lugar, precisamos fazer isso dentro de um escopo teológico mais amplo. Precisamos da tradição! Por fim, precisamos de criatividade. Creio que não daremos respostas satisfatórias simplesmente reproduzindo modelos. Nossa realidade é muito específica, e requer que façamos um exercício criativo de aplicação dos princípios do evangelho e de uma tradição de pensamento. Minha sugestão é de que bons insights podem ser encontrados no neocalvinismo holandês – movimento liderado por Abraham Kuyper no fim do século XIX. Creio que ele conjuga bem tradição e aplicação criativa e pode ser muito útil enquanto inspiração pra nós. 

8) Dentre as perguntas que recebi ontem, alguém mais prático me perguntou: você acha que uma igreja deve abrir uma creche? Segue a resposta: Para mim, nenhuma igreja (comunidade local) deve sentir-se tão culpada por não ter aberto uma, quanto por não preparar bem seus membros no poder do Evangelho para viver a vida cristã de modo impactante em todas as esferas da vida. E nenhuma igreja deve sentir-se satisfeita simplesmente por ter uma, se esta não estiver a serviço de sua tarefa primeira: a de proclamação do evangelho de Cristo. Uma igreja deve fazer mais do que abrir uma creche. Ela deve fazer assistência social evidenciando por que faz e transformando o modo de fazer. Deve mais que abrir uma escola. Deve usar sua escola como meio de submeter a educação ao senhorio de Cristo. Deve mais que ter um grupo de teatro. Deve transformar o modo como a arte é feita e experimentada no lugar onde ela está inserida. 

A todos os leitores, meu grande abraço.


Uma síntese da Teologia da Missão Integral

quarta-feira, 21 de maio de 2014


A Teologia da Missão Integral oferece uma lente através da qual lemos as Escrituras Sagradas em busca de referenciais para a presença do cristão/comunidade cristã no mundo: “Assim como o Pai me enviou ao mundo, também eu vos envio”.

A soteriologia da missão integral é o domínio de Deus, de direito e de fato, sobre todo o universo criado, através daqueles restaurados à imagem de Jesus Cristo, o primogênito dentre muitos irmãos. A salvação é o Reino de Deus em plenitude, onde a vontade de Deus é realizada – concretizada em perfeição. A redenção pessoal/individual é a apenas uma parcela do que o Novo Testamento chama salvação: o novo céu e a nova terra.

A eclesiologia da missão integral é o novo homem coletivo. Deus não está salvando pessoas, está restaurando a raça humana. Estar em Cristo é não apenas ser nova criatura, mas também e principalmente ser nova humanidade – não mais descendência de Adão, mas de Cristo, o novo homem – homem novo. O caos do universo é fruto da rebeldia da raça humana em relação ao Deus Criador; a redenção do universo – fazer convergir todas as coisas em Cristo – é resultado da reconciliação da raça humana com Deus – Deus estava em Cristo reconciliando consigo a humanidade. No Cristianismo, a salvação é pessoal, a peregrinação espiritual é comunitária, e nada, absolutamente nada, é individual. A igreja é a unidade dos redimidos que são transformados de glória em glória, pelo Espírito Santo, até que todos cheguem juntos à estatura de varão perfeito.

A missiologia da missão integral é a sinalização histórica do Reino de Deus, que será consumado na eternidade. A igreja, o corpo de Cristo, é o instrumento prioritário através do qual Cristo, o cabeça, exerce seu domínio sobre todas as coisas, no céu, na terra e debaixo da terra, não apenas neste século, mas também no vindouro. A missão da igreja é manifestar aqui e agora a maior densidade possível do Reino de Deus que será consumado ali e além. O convite ao relacionamento pessoal com Deus é apenas uma parcela da missão. A missão integral implica a ação para que Cristo seja Senhor sobre tudo, todos, em todas as dimensões da existência humana: “o evangelho todo o homem todo”.

A antropologia da missão integral é a unidade indivisível do “pó da terra/fôlego da vida”, as dimensões física e espiritual do ser humano. “Corpo sem alma é defunto; alma sem corpo é fantasma”; “Cristo veio não só a alma do mal salvar, também o corpo ressuscitar”. A ação missiológica e pastoral da igreja afeta a pessoa humana em todas as suas dimensões: bio-psíco-espiritual-social – a pessoa inteira em seu contexto – o homem e suas circunstâncias.

O kerigma, evangelização, na missão integral é a proclamação de que Jesus Cristo é o Senhor, seguida da convocação ao arrependimento e à fé, para acesso ao Reino de Deus. A oferta de perdão para os pecados pessoais é o início da peregrinação espiritual, porta de entrada para o relacionamento de submissão radical a Jesus Cristo, a partir do que a pessoa humana e tudo quanto ela produz, passa a servir aos interesses do reino de Deus, existindo e funcionando em alinhamento ao caráter perfeito de Deus.

A proposta da missão integral como agenda ministerial para a igreja é mais do que o mix evangelismo pessoal + assistência social (geralmente como isca ou argumento evangelístico). O referencial da missão integral para a presença do cristão/comunidade cristã no mundo é mais do que a construção/multiplicação de igrejas locais, para onde os cristãos se retiram do mundo e passam a exercer funções que a viabilizam – ela, igreja, instituição religiosa - como um fim em si mesmo. A convocação da missão integral é para a rendição ao senhorio de Jesus Cristo, para perdão dos pecados e recebimento do dom do Espírito Santo, a partir do que se passa a integrar um corpo, o corpo de Cristo, ambiente para a experimentação coletiva dos benefícios da cruz, responsável por transbordar tais benefícios ao mundo, como anúncio profético do novo céu e da nova terra. O caminho missiológico e pastoral da missão integral é afetivo/relacional, em detrimento de metodológico/operacional; comunitário, em detrimento de institucional; devocional, em detrimento de gerencial.

A igreja é a comunidade da graça, comunidade terapêutica, agência de transformação social, sinal histórico do Reino de Deus, instrumentalizada pelo Espírito Santo, enquanto serve incondicionalmente a Jesus Cristo, Rei dos reis, Senhor dos senhores, a quem seja glória eternamente, amém. 






Ed René Kivitz - Publicado originalmente em MISSÃO INTEGRAL: PROCLAMAR O REINO DE DEUS, VIVENDO O EVANGELHO DE CRISTO, Editora Ultimato, 2004

A Teologia da Missão Integral em debate



No último dia 20 de Maio, foi publicado pelo canal da Tv Mackenzie no Youtube o programa de Nº 37 do Academia em Debate. O tema foi sobre a "Teologia da Missão Integral". O programa é apresentado pelo Rev. Augustus Nicodemus Lopes, que entrevistou o Ms. em filosofia, o Pr. Jonas Moreira Madureira e também o Dr. em teologia filosófica e também Pr. Filipe Costa Fontes. Você pode conferir no link abaixo:

Academia em Debate 37 - Teologia de Missão Integral

Após a publicação, o Pr. e expoente da Missão Integral Ariovaldo Ramos, postou em sua página no Facebook uma carta aberta ao programa. Confira:

Carta aberta ao programa "Academia em Debate", do Centro Presbiteriano Andrew Jumper, de Pós-graduação, na Tv Mackenzie (digital experimental) apresentado pelo Rev. Doutor Augustus Nicodemus Gomes Lopes, na sua edição n° 37.
Raramente me presto a tecer considerações sobre as tentativas de análise à chamada Teologia da Missão Integral, feitas em território nacional, porque, na maioria das vezes, tais intentos são pautados pela ignorância, pela má fé, pela desonestidade intelectual, pela ausência de rigor acadêmico e pelo mero preconceito.
Desta feita, entretanto, por se tratar de interlocutor que merece audição, posto uma carta aberta ao programa "Academia em Debate", do Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper, apresentado pelo Rev. Doutor Augustus Nicodemus, que priva do respeito de todos os seus pares, entre os quais me incluo.
O programa convidou dois pastores e filósofos: Rev. Jonas Madureira e Rev. Filipe Fontes para tecerem comentários à TMI. Apesar de entender que os comentadores foram, possivelmente, traídos pelo tempo escasso que lhes foi concedido, por força do limite natural ao veículo da comunicação; gostaria de tecer algumas impressões sobre o conteúdo das exposições. .
Celebro a intenção do programa, porém, os comentários não manifestaram análise técnica, uma vez que as afirmações não foram sustentadas por referencial teórico, não deixando aos espectadores outra opção, senão, a de crerem na veracidade das falas, pela suposição de estarem diante de autoridades competentes, embora não tenha sido apresentada nenhuma credencial dos mesmos como estudiosos do tema em questão, o que não tolda a qualidade dos mesmos nas áreas em que tenham se especializado.
As colocações dos convidados não elucidaram o tema, suas críticas, de fato, por falta de rigor, mais pareceram meros ataques, e soaram como opiniões pessoais, acabando por correr o risco de ter prestado um desserviço ao debate teológico, sempre tão necessário, principalmente, neste momento da Igreja brasileira, tão vilipendiada por causa de maus exemplos, principalmente, midiáticos, e acossada por tantos ventos doutrinários.
À guisa de contribuição, como simpático ao conteúdo veiculado pelos teólogos proponentes dessa reflexão teológica, a TMI, dos quais destaco, por antiguidade, Renê Padilla, Pedro Arana e Samuel Escobar, faço as seguintes e próprias menções sobre as ênfases da TMI:

1- A TMI nasce das reflexões, principalmente, dos teólogos citados, nas décadas de 50 e de 60, e que foram apresentadas nos CLADEs, Congressos Latino-Americanos de Evangelização, realizados em Bogotá - Colômbia (1969), Huampani - Peru (1979), Quito - Equador (1992 e 2000), Tais reflexões foram iniciadas e propostas antes do que veio a ser conhecido como Teologia da Libertação (Gustavo Gutierrez, 1971), também latino-americana.

2- O que há de coincidente entre ambas teológicas latino-americanas é o fato de serem teologias da Práxis, isto é, reflexões teológicas sobre a ação da igreja, como propagadora do Evangelho, no cotidiano da sociedade em que está incrustada.

3- A ênfase da reflexão da TMI, sobre a prática da Igreja, voltada para o cotidiano, parte da proposição do Prof. Padilla, de que a evangelização não desconsidera o contexto do evangelizando.

4- A proposição de Padilla se sustenta na declaração do Senhor Jesus, de que o Evangelho é do Reino (Mt 24.14; Lc 4.43), portanto, tendo como conteúdo as boas notícias da chegada de uma nova ordem mundial (Dn 2.44), manifesta pela Igreja, porém, só implantada na volta visível e triunfal do Cristo. Daí há pecado pessoal e pecado estrutural. E para ambos pecadores a Igreja propõe arrependimento.

5- Só será possível participar dessa nova ordem pelo novo nascimento, que é sempre pessoal, porém, graças às boas obras, que são a luminosidade da Igreja, a sociedade, em geral, será beneficiada, e levada a dar graças a Deus (Mt 5.16).

6- O chamado Pacto de Lausanne é fruto do Congresso Mundial de Evangelização realizado, em 1974, na cidade de Lausanne, na Suíça; graças ao trabalho de John Stott, reconhecido teólogo Anglicano, já falecido, que promoveu o encontro entre a teologia dos irmãos do Norte, com a contribuição missiológica da reflexão teológica latino-americana, denominada de TMI, e com as contribuições africanas e asiáticas, cujo resultado foi sintetizado na frase: "O Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens".
Onde "o Evangelho todo" é compreendido como o poder de Deus para a Salvação de todo o que crê, assim como o poder de Deus para interferir na estrutura da sociedade, para dar sobrevida à humanidade, pela promoção da justiça. Como se pode verificar na irrupção da chamada modernidade, a era dos direitos humanos, iniludível fruto do cristianismo.
Onde "o homem todo" é a compreensão do ser humano como ser complexo, com potencial cognoscente, religioso, fabril, econômico, social, político, comunitário, lúdico, artístico - que a tudo afeta e por tudo é afetado - portanto, alcançado pelas boas notícias do Reino, quando os sinais da presença do Reino se manifestam nele, e em tudo o que o afeta e por ele é afetado.
Onde a proposição "todos os homens" compreende a totalidade das nações humanas, que devem ser alcançadas pelo anúncio do evangelho do Reino de Deus, tanto no âmbito pessoal-familiar, como no âmbito da organização sócio-política, e que serão julgadas por suas práticas no trato do ser humano, frente a forma como se organizaram, e construíram os relacionamentos internacionais e intersociais (Mt 25.31-46).

7- A TMI é Ortodoxa, sustentando os paradigmas histórico-bíblicos da fé protestante, porém, ampliando a compreensão missiológica da Igreja como agência da "Missio Dei", uma vez que toda a iniciativa é do Altíssimo Deus Trino. Talvez, nessa compreensão, seja melhor intitular a reflexão de "A Teologia Com Missão Integral".

8- A TCMI faz exegese histórico-gramatical; e sua hermenêutica parte da sacralidade, inerrância e infalibilidade da Bíblia, na busca pelo mais próximo possível do sentido original, porém, no afã de aplica-lo da forma mais compreensível, relevante e provocadora de transformação ao contemporâneo; sua abordagem fática serve-se da interdisciplinariedade, uma vez que, o que chamamos de realidade demanda muitos e distintos observadores para poder ser proposta como tal. E procuramos discerni-la para entender as perguntas a que devemos responder, nunca para nortear ou compor com o kerigma, a proclamação.

9- O referencial teórico da TCMI é a doutrina da presença (Lc 17.21) e da iminência do Reino de Deus, onde o Reino é compreendido como o Governo do Ungido pela implantação da sua Justificação e Justiça. A Igreja, então, se vê, no cotidiano, como anunciadora da justificação, e sinalizadora da presença e do princípio do Governo do Ungido, pela busca por fazer manifesto e aplicado o conceito judaico-cristão de justiça.

10- A priorização do pobre não é vista como uma opção, mas, como demanda do Cristo, que apresentou a pregação do evangelho aos pobres como uma de suas credenciais messiânicas (Mt 11.5).

Sem mais, no anseio de colaborar com o debate teológico, que desejo, um dia, se instaure,
Ariovaldo Ramos.

Guilherme Scardini... poesia em canção

sábado, 17 de maio de 2014


A primeira vez que ouvi o Guilherme foi em um vídeo interpretando a canção "Casa Pré fabricada" do Los Hermanos. Foi uma mistura serenidade e poesia, arte e espanto. Quantos talento temos a descobrir? Quantos sons ainda irão nos surpreender? Quantas canções ainda irão nos tocar? Guilherme é prova de que muito ainda temos para esperar. Desde que ouvi o EP "Varandeiro", não consegui mais parar de ouvir. Já está a minha lista dos melhores no ano ao lado de nomes de peso e de gratas surpresas. Eu recomendo!


Fim de Tarde já é a minha favorita. Confira:



Mas seria injusto divulgar este tão promissor trabalho sem conhecer de fato Guilherme Scardini. Com a palavra alguém que pode falar de maneira bem mais profunda a respeito da vida e obra deste fantástico músico. Com a palavra... Ana Cláudia Nunes




Não faz muito tempo que Guilherme Scardini chegou por essas bandas de Viçosa (MG) usando um chapéu e confessando, meio que de lado, que vivia pensando em música. Ele faz o curso de Arquitetura na UFV (Universidade Federal de Viçosa) e recentemente decidiu compartilhar suas doces composições com quem quiser ouvir.

Estou falando de seu primero EP* “Varandeiro”. O próprio Guilherme explica o título: “A varanda é onde a casa se encontra com o mundo, varandeiro é o homem que vive lá.”
O disco foi gravado no Estúdio Oca em Serra – ES entre fevereiro e março deste ano e teve a co-produção de Eric Funabashi e do Guilherme. As músicas são uma delícia! Poesia assim para derreter, melodias macias e aquela vontade de colocar no repeat até enjoar! Rsrs.
Consigo ver várias referências no trabalho de Scardini, que pode ser classificado como “Nova MPB”. Digamos que se você gosta de Crombie, Vanessa da Mata, Los Hermanos, Palavrantiga, Malu Magalhães, Marisa Monte e muitas outras coisas boas (para ficar nos nacionais), você vai curtir o violão do menino.
Sobre as letras, as músicas falam de delicadezas do dia a dia percebidas pelo artista, encontros, pessoas, e até apologética (em Absurdo)! A primeira composicão que ouvi do Guilherme foi Eu Vim do Céu, e é lindo pensar sobre a encarnação de Cristo desta forma. Vale ouvir lendo a letra.

O artista amador (como se define) convida: “Esse trabalho vem do fundo de mim e eu espero que encontre vocês com a beleza que é a intenção dele.”

Ana Cláudia Nunes, é publicitária, tem 26 anos e ama ouvir música boa. O texto acima é "Varandeiro: música boa e nova para este fim de semana"Foi publicado originalmente por ultimato jovem em 16 de maio de 2014 

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Você pode escutar as músicas aqui.
O EP + capa  e encarte estão disponíveis para download gratuito neste link.
Você também pode se encontrar com Guilherme em sua fanpage.

Justiça, Paz e Democracia - Aliança Cristã Evangélica Brasileira

sexta-feira, 9 de maio de 2014


Mas Deus já deixou claro como devemos viver: o que fazer, o que ele procura em homens e mulheres. É muito simples: Façam o que é correto e justo ao próximo, sejam compassivos e leais em seu amor. Miquéias 6:8 (MSG)

Uma agenda evangélica! Uma conclamação à nação!

Nestes últimos tempos o Brasil tem vivido experiências que precisam nos levar a construir um país mais justo, com mais paz e com a participação digna de todos. A nação está polarizada e tensa, com expectativas marcadas pelo temor. Como evangélicos, a nossa agenda está clara:

Honrar a Deus através das nossas vidas.
Viver comprometidos com o evangelho, que é boa nova para todos.
Buscar a paz em nosso país e justiça para todos.
Amar e servir ao próximo, especialmente o pequeno e o necessitado.
Arrepender-nos de opções que busquem interesses outros 
e não expressem o evangelho e a busca da justiça para todos.
Denunciar a injustiça e a idolatria onde quer que se manifestem,
seja entre nós mesmos ou em nossas estruturas,
seja nos mecanismos financeiros, 
nas forças econômicas ou nos sistemas políticos dos quais fazemos parte.

Lamento pela ditadura. Celebrando a democracia.

Dois acontecimentos significativos da nossa história têm sido lembrados recentemente. O primeiro foi o golpe de 1964, quando o poder foi tomado de forma ilegítima. Esta foi uma experiência traumática para a nação e até hoje há sinais visíveis de que a alma nacional não se recuperou da pesada, violenta e opressora mão daquele regime. Essa memória nos leva a afirmar: “Ditadura, nunca mais!”. 

Os evangélicos em geral, juntamente com outros segmentos sociais e religiosos, tiveram participação nos tempos do regime ditatorial. Isto se deu, por um lado, de forma conivente, passiva e colaborativa. Mas, por outro lado, houve também os que participaram com resistência, enfrentamento e indignação. Neste sentido os evangélicos, a partir da sua compreensão bíblica e do Reino de Deus, devem tanto arrepender-se pela cumplicidade com a injustiça praticada pelo Estado repressor como celebrar a luta e a solidariedade em favor da justiça, da liberdade e dos direitos humanos. 

A partir dos traumas deixados em tantas vidas e na cultura política brasileira, os evangélicos renovam seu compromisso com a justiça em todas as suas dimensões, a favor da vida humana acima dos interesses pessoais e de grupos, na esperança de que essa experiência ditatorial nunca mais se repita entre nós. Que a verdade das muitas violências cometidas em tantos lados e contra cidadãos seja resgatada e trazida à tona e que assim possam ser redimidos os sentimentos, as dores, as memórias e as perdas, em função da verdade que restaura.
Renovamos ainda nosso compromisso com o aprofundamento da democracia e da liberdade em nossa sociedade ainda tão desigual, afirmando valores e práticas defendidos outrora pelos protestantes como bandeiras históricas. Rejeitamos, outrossim, de modo absoluto, quaisquer formas de ruptura da ordem constitucional e da democracia.

Declaramos que apenas o diálogo democrático, baseado em paz e justiça, é capaz de constituir os instrumentos necessários para promover os avanços para a verdadeira transformação democrática do nosso país. Convocamos a igreja brasileira, em especial os evangélicos, a lutarem incansavelmente pela justiça do Reino de Deus e para que a democracia em nosso país se fortaleça a cada dia, a fim de que a dignidade de cada ser humano seja respeitada e efetiva em todos os seus aspectos.

A segunda lembrança nos leva à celebração dos 20 anos da Campanha pelas Diretas Já, que mobilizou a sociedade brasileira e lhe lavou a alma. Embora o resultado dessa campanha tenha sido eleições indiretas para a presidência da República, o desejo da nação estava claro: queremos a democracia e chega de ditadura. 

Nós, os evangélicos, fazemos parte dessa nação e da sua mobilização rumo à instituição e vivência de uma democracia ampla e representativa. Reconhecemos que, por vezes, temos tido dificuldade em afirmar a importância da vivência democrática para todos. Hoje, porém, queremos deixar absolutamente claro que a vivencia evangélica neste país nos leva a afirmar a necessidade de vivermos num regime democrático, nas diferentes áreas de nossa sociedade.

Assim, caminhamos com todos que nesta nação brasileira afirmam a democracia, a busca da justiça para todos e uma estrutura política que represente a sociedade brasileira, especialmente os pobres, pequenos e discriminados. 

Assim, conclamamos a sociedade brasileira a orar conosco uma velha oração, legada a nós por uma pessoa que viveu no seu tempo a vocação de amar a Deus e servir ao próximo. É a oração de Francisco de Assis:


Senhor: Fazei de mim um instrumento de tua paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre,
fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna!
Amém



Brasil, 9 de maio de 2014
Aliança Cristã Evangélica Brasileira
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