Uma síntese da Teologia da Missão Integral

By Leonardo Carvalho - quarta-feira, maio 21, 2014


A Teologia da Missão Integral oferece uma lente através da qual lemos as Escrituras Sagradas em busca de referenciais para a presença do cristão/comunidade cristã no mundo: “Assim como o Pai me enviou ao mundo, também eu vos envio”.
A soteriologia da missão integral é o domínio de Deus, de direito e de fato, sobre todo o universo criado, através daqueles restaurados à imagem de Jesus Cristo, o primogênito dentre muitos irmãos. A salvação é o Reino de Deus em plenitude, onde a vontade de Deus é realizada – concretizada em perfeição. A redenção pessoal/individual é a apenas uma parcela do que o Novo Testamento chama salvação: o novo céu e a nova terra.
A eclesiologia da missão integral é o novo homem coletivo. Deus não está salvando pessoas, está restaurando a raça humana. Estar em Cristo é não apenas ser nova criatura, mas também e principalmente ser nova humanidade – não mais descendência de Adão, mas de Cristo, o novo homem – homem novo. O caos do universo é fruto da rebeldia da raça humana em relação ao Deus Criador; a redenção do universo – fazer convergir todas as coisas em Cristo – é resultado da reconciliação da raça humana com Deus – Deus estava em Cristo reconciliando consigo a humanidade. No Cristianismo, a salvação é pessoal, a peregrinação espiritual é comunitária, e nada, absolutamente nada, é individual. A igreja é a unidade dos redimidos que são transformados de glória em glória, pelo Espírito Santo, até que todos cheguem juntos à estatura de varão perfeito.
A missiologia da missão integral é a sinalização histórica do Reino de Deus, que será consumado na eternidade. A igreja, o corpo de Cristo, é o instrumento prioritário através do qual Cristo, o cabeça, exerce seu domínio sobre todas as coisas, no céu, na terra e debaixo da terra, não apenas neste século, mas também no vindouro. A missão da igreja é manifestar aqui e agora a maior densidade possível do Reino de Deus que será consumado ali e além. O convite ao relacionamento pessoal com Deus é apenas uma parcela da missão. A missão integral implica a ação para que Cristo seja Senhor sobre tudo, todos, em todas as dimensões da existência humana: “o evangelho todo o homem todo”.
A antropologia da missão integral é a unidade indivisível do “pó da terra/fôlego da vida”, as dimensões física e espiritual do ser humano. “Corpo sem alma é defunto; alma sem corpo é fantasma”; “Cristo veio não só a alma do mal salvar, também o corpo ressuscitar”. A ação missiológica e pastoral da igreja afeta a pessoa humana em todas as suas dimensões: bio-psíco-espiritual-social – a pessoa inteira em seu contexto – o homem e suas circunstâncias.
O kerigma, evangelização, na missão integral é a proclamação de que Jesus Cristo é o Senhor, seguida da convocação ao arrependimento e à fé, para acesso ao Reino de Deus. A oferta de perdão para os pecados pessoais é o início da peregrinação espiritual, porta de entrada para o relacionamento de submissão radical a Jesus Cristo, a partir do que a pessoa humana e tudo quanto ela produz, passa a servir aos interesses do reino de Deus, existindo e funcionando em alinhamento ao caráter perfeito de Deus.
A proposta da missão integral como agenda ministerial para a igreja é mais do que o mix evangelismo pessoal + assistência social (geralmente como isca ou argumento evangelístico). O referencial da missão integral para a presença do cristão/comunidade cristã no mundo é mais do que a construção/multiplicação de igrejas locais, para onde os cristãos se retiram do mundo e passam a exercer funções que a viabilizam – ela, igreja, instituição religiosa - como um fim em si mesmo. A convocação da missão integral é para a rendição ao senhorio de Jesus Cristo, para perdão dos pecados e recebimento do dom do Espírito Santo, a partir do que se passa a integrar um corpo, o corpo de Cristo, ambiente para a experimentação coletiva dos benefícios da cruz, responsável por transbordar tais benefícios ao mundo, como anúncio profético do novo céu e da nova terra. O caminho missiológico e pastoral da missão integral é afetivo/relacional, em detrimento de metodológico/operacional; comunitário, em detrimento de institucional; devocional, em detrimento de gerencial.
A igreja é a comunidade da graça, comunidade terapêutica, agência de transformação social, sinal histórico do Reino de Deus, instrumentalizada pelo Espírito Santo, enquanto serve incondicionalmente a Jesus Cristo, Rei dos reis, Senhor dos senhores, a quem seja glória eternamente, amém.


[© Ed René Kivitz - Publicado originalmente em MISSÃO INTEGRAL: PROCLAMAR O REINO DE DEUS, VIVENDO O EVANGELHO DE CRISTO, Editora Ultimato, 2004]

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