Caio

quinta-feira, 26 de junho de 2014

por Bráulia Ribeiro

Ontem (25/06/14) uma  entrevista de Caio Fábio a Danilo Gentili (The Noite, SBT) suscitou muitos comentários pelo Brasil afora.
Pisar no território que circunda Caio é muito arriscado. Ele foi,  e sem dúvida continua sendo, de uma imensa importância para o contexto evangélico brasileiro, e examinar os problemas que o cercaram nas ultimas décadas nos revela muito sobre nós mesmos. Inclusive a entrevista exibida ontem (24/06/14).  Se você quiser se divertir com a polaridade dos pontos de vista, leia a tweetfeed de ontem com a #caiofabio. Não existe meio termo. O homem ou é o diabo ou é um semideus.
Por isto vai ser impossível sair deste artigo ilesa. O Caio inspira ódios extremos e amores extremos. Minha pretensão neste artigo não é afirmar este ou aquele ponto de vista, mas é dar uma olhada rápida no paradigma de liderança da cultura brasileira. No meu ponto de vista a  “questão Caio” não foi apenas problema  dele como indivíduo, mas de todos nós que cultivamos e permitimos que esta cultura disfuncional se perpetue.
Digo que o problema mora na cultura brasileira no sentido genérico e não cultura evangélica, porque os aspectos aos quais vou me referir não são exclusividade dos evangélicos mas fazem parte da nossa formação cultural nacional. Refletem  partes de nossa identidade que não conseguimos despir, que mesmo estudando a Bíblia não fomos capazes de desconstruir para transformar. Revisitar axiomas culturais e repensar valores à luz da Palavra é essencial para saúde espiritual, mas é uma tarefa muito árdua. Me ajude aqui. Se você tem algum “insight” a acrescentar  vou publicar seu comentário.
É importante lembrar também de que as deformações  culturais humanas convivem com a revelação de Deus desde sempre. A revelação divina não tem o poder em si mesma de  tornar as culturas perfeitas.  É apenas  um farol no meio delas. Na narrativa bíblica percebemos isto claramente.  A busca pela transformação tem que ser uma busca humana. Não é trabalho de Deus transformar culturas, mas nosso.
Vou fazer um pulo fora do assunto Caio, para discutir um pouco o modelo cultural de liderança que marcou a sua era, e infelizmente feriu a ele e a  muitos. Depois volto à aplicação. Tenha paciência.

O paradigma cultural de liderança

O paradigma cultural de liderança é obvio o suficiente para ser reconhecido sem muito estudo. Mas podemos dissecá-lo um pouco.

Por causa da posição, líderes são alçados à uma condição supra-humana.

No espaço religioso ou no espaço de trabalho o líder tem que ser mais do que um mero colega. Ele tem que demonstrar qualidades que o colocam acima dos vis mortais, e se portar como se não fosse apenas mais um do rebanho para obter respeito.  No mundo religioso esta nuance de ser um ser “melhor” que outros, por isto líder, torna-o um semi-Deus.

Liderança é posição e não função

Liderança te atribui uma posição na escala social verticalizada brasileira. Usamos a linguagem hierárquica e posicional em nosso dia a dia. “Quem está acima de você?”  “Um homem na minha posição…” “Galguei este espaço…”  etc.
Na cultura brasileira em que identidade pessoal é definida de acordo com o valor que o grupo te atribui, o conceito de liderança  verde amarelo fica inerentemente preso a valorização pessoal. Se torna parte da sua identidade. Nao é uma mera função que voce exerce para servir o corpo.  (Você sabe com quem está falando?)
A sociedade brasileira é verticalizada. As pessoas se inserem em camadas que definem sua maior ou menor “importância” dentro do tecido social. Não seria possível falar de pessoas mais ou menos “importantes” o conceito de valor individual fosse o conceito bíblico. Na Bíblia indivíduos são importantes por causa de sua natureza única  não pelo que possam  representar para a sociedade. (Matta 1997)
Infelizmente esta ideia pagã de valor social é travestida de linguagem bíblica na cultura religiosa. O pastor é “anjo” da igreja, o profeta, apóstolo. Infelizmente repetimos a igreja Católica na sua cultura clericalizada, que refletia a hierarquia dos países monárquicos onde ela foi nutrida. O clero é a nobreza, e os outros os comuns.

A distância impossibilita o diálogo- o líder não pode ser vulnerável

Não existe espaço para a vulnerabilidade do líder: fraquezas tem que ser necessariamente maquiadas ou escondidas ou o líder perde a posição. Portanto, poucos tem a coragem de se mostrar humanos.  Líderes tem que ser necessariamente auto-suficientes porque não podem depender de outros, pelo menos não abertamente.
O líder brasileiro é extremamente solitário. Ele não pode expor suas dores e dúvidas aos “comuns”, ou seja aos que estão “debaixo” dele, e não pode expô-las a seus colegas, outros líderes. Porque ali  se compete mutuamente. Também não há espaço para sua humanidade. Se um líder busca conselhos, o faz com alguém que considere “superior” a si. Se ele está no topo da pirâmide, então não tem a quem consultar. Fica amargando seus tormentos internos sozinho. Ou se é capaz de se abrir com seus colegas, não vai ouvir repreensão, discordância, mas aquiescência.

Não se confronta liderança, mas se fala por trás

Numa sociedade onde meu valor é determinado pela posição que ocupo junto a liderança, qualquer discordância é extremamente perigosa. Se ouso confrontar ou apenas discordar da liderança me arrisco a perder o favor social que tenho. Então o que faço? Minha discordância tem que ser expressada de alguma forma  para que eu continue me sentindo humano. A cultura providencia então um espaço para dissonância. É um espaço inicialmente marginal, mas que se legitima  à medida que a dissonância cresce. É o que chamamos de “falar pelas costas”.
Não é pecado no Brasil falar mal de líder para outros, desde que se justifique fantasiando com “preocupação”, “vamos orar”, aliás  este “falar nas costas” é quase uma obrigação do liderado.
O comportamento do indivíduo fica à mercê de duas forças culturais que se opõe. A primeira que vamos dizer que metaforicamente  opera de cima para baixo é a necessidade de lealdade. O estilo de liderança aqui promove a lealdade acima da competência. O sujeito quer ser leal, porque a lealdade é vista como virtude. Esta lealdade o compele a aceitar calado os erros do líder, a tecer-lhe elogios constantes mesmo quando não merece, a fazer vista grossa a seus problemas. Ele sabe que sua sobrevivência no sistema depende desta dinâmica.
A outra força compele o sujeito para cima.  Todo mundo quer mais espaço, quer ser visto, quer “vencer”. Como o modelo de lealdade cega não promove baseado em competência mas relacionamento, cria um espaço para a constante insegurança. Bolman  and Deal, autores do best-seller “Reframing Organizations” descrevem esta atmosfera de liderança chamando-a de “Cenário Político” e até usam a metáfora da lei da selva para descrevê-lo. E é um modelo usado até intencionalmente em culturas organizacionais de empresas com excesso de individualismo. Ou seja, porque a liderança não se define por valores coletivos, e/ou não atribui ao indivíduo valor nem espaço para tomada de decisões, se estabelece o vale tudo.
A essência desta cultura de liderança é o conflito de poder e as coalisões baseadas em interesses mútuos. A definição essencial de liderança neste contexto é “um processo realista de tomada de decisões e alocação de recursos no contexto de interesses divergentes e de necessidade.”(Bolman 1991, 181) Ou seja se beneficia aquilo que se interessa, para se obter o que interessa.

A cultura de vergonha não permite a redenção

Vamos rever rapidamente o conceito de culturas de vergonha e culturas de culpa. Apesar da antropologia moderna procurar não fazer julgamento de valor sobre culturas melhores ou piores que outras, o fato é que alguns conceitos essenciais tem consequências sociais irrefutáveis. A cultura latino-americana tem sido uma cultura de vergonha, provavelmente uma herança da dominação moura de 700 anos sobre a península. (Para uma leitura sobre honra/vergonha na América Latina veja (Johnson 1998)).   Culturas de vergonha empregam desgraça social como sanção para comportamento fora da norma. A vergonha social destitui o individuo de seu valor inerente. Ele não é mais a pessoa, se torna o pecado, ou o crime que cometeu. Culturas de culpa inserem o fator redenção  no processo de sanção. Resume-se o conceito assim:  em culturas de culpa – eu fiz algo errado, em culturas de vergonha – eu sou um erro.
Paul Hiebert (1985) explica que em culturas de culpa existe o alívio: a confissão. Em culturas de culpa está estabelecida a redenção através da devida punição. Uma vez punido e redimido o indivíduo tem seu espaço restaurado porque seu valor em nenhum momento foi colocado em questão. Em culturas de vergonha tornar seu pecado/problema público só exacerba a dor. Quanto mais pessoas sabem, mais vergonha se acumula, menos compaixão se recebe. A vergonha culmina na execração pública total, o ostracismo. Numa cultura de vergonha não existem mecanismos pré-estabelecidos de redenção social. Uma vez pecador, sempre pecador. É  impossível de se recuperar a dignidade. O escárnio público sempre vai acompanhar o dissonante.
De Volta ao Caio
Depois que a dissolução de seu casamento veio a público Caio sabe que não há redenção possível para si dentro do universo cultural brasileiro. A pecha do adultério vai sempre estar sobre a sua cabeça. O que ele faz? Se volta contra ela. Se estabelece como oráculo de uma nova moral anti-moral.

O Caio não pretendeu ser perfeito, nem se colocou na posição de semi-Deus. Pelo contrário descreveu bem a síndrome dos que se embriagam de poder. Mas infelizmente não deixou de ser vítima da cultura que o endeusou. Esta cultura é inescapável. Enquanto nós não a destruirmos, intencionalmente, desmascarando-a, despindo-a do falso glamour que tem, colocando-a no raio X.

Erros de um ídolo?

1. Ele chama a hipocrisia brasileira de hipocrisia evangélica ou religiosa.
Mas os mecanismos de comportamento que o levaram ao ostracismo e à vergonha não são cristãos. Pelo contrário a verdadeira cultura cristã é a cultura da culpa, não da vergonha. Em Cristo todos somos encontrados pecadores e somos todos redimidos. Em Cristo o meu pecado e o seu se igualam assim como a redenção que nos é oferecida na cruz. Foi a hipocrisia da cultura brasileira não redimida por Cristo que o condenou.
2. Ele não torna pública a sua jornada de perdão.
Se Caio perdoou ou não seus algozes é problema interno dele. Não julgo o seu coração. Um homem que prega e conhece a graça conhece também o poder do perdão. Mas seu perdão não é público, sua graça não é pública. Não existe perdão oculto se o pecado foi público. Assim como não existe a graça que discrimina entre este ou aquele grupo. O caminho da graça tem que estar aberto para todos inclusive aos inimigos.
Amo uma música do Atilano Muradas que nos chama a amar os pobres e as crianças abusadas, mas também a amar os políticos corruptos e os abusadores que praticam a violência contra a crianças. Me lembro que engasguei na primeira vez que ouvi a canção. Mas se não posso amar os mais vis pecadores (inclua nesta lista os religiosos) não posso professar a cruz.
3. A partir dele, se criou uma ambiguidade na mensagem cristã.
Se não existe pecado ou o mal não pode existir também a redenção. A graça só existe porque existe o mal. Na era pós-Caio muitos embarcaram na mensagem ambígua da cruz sem pecado. A culpa não é  dele mas a coisa virou um fenômeno cultural, típico de um país de análises superficiais e argumentos vazios.  Uma vez numa conferência com outros líderes numa conversa com um garoto pastor de uma igreja percebi que ele se vangloriava do pecado na sua igreja como se fosse algo não só aceitável mas desejável.
Não podemos nos esquecer do paradoxo da cruz. Porque sou amado como estou, com meus pecados e imperfeições sou impelido para uma busca do amor, da santificação de vida (que no original hebraico significa ordem), da reforma moral.
A luz do amor de Cristo brilha nas trevas para iluminá-la não para torná-la mais densa. Meu relacionamento com Cristo não se baseia na compra e venda de minhas boas ações e se justifica na minha pseudo-santificação.  Mas o amor dele me faz melhor.
Se usássemos a fórmula do AA (Alcoólatras Anônimos)  nas nossas reuniões seríamos certamente mais saudáveis. “-Oi. Sou a Braulia. Pecadora e muito.” Não me dou o direito de julgar ninguém, porque maior é a misericórdia que o juízo.
Salve Caio. Parabéns pela entrevista. Sigamos juntos no Caminho.
Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical.

Referências
Bolman, Lee G. Deal Terrence E. 1991. Reframing Organizations : Artistry, Choice, and Leadership. San Francisco: Jossey-Bass.
Hiebert, Paul G. 1985. Cultural Anthropology. Grand Rapids, Mich.: Baker Book House.
Johnson, Lyman L. Lipsett-Rivera Sonya. The Faces of Honor Sex, Shame, and Violence in Colonial Latin America. University of New Mexico Press 1998. Available fromhttp://public.eblib.com/EBLPublic/PublicView.do?ptiID=1594549.
Matta, Roberto da. 1997. Carnavais, Malandros E Herûis : Para Uma Sociologia Do Dilema Brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco.

Caio Fábio na Integra no The Noite

terça-feira, 24 de junho de 2014


Caio Fábio na Integra no The NoiteEspero que isso gere reflexão sadia. Que a perspectiva seja tentar ser aberto para pelo menos poder entrar em questões das quais ele discorre.

Pornolescência

sexta-feira, 20 de junho de 2014


Vai levar tempo – décadas, pelo menos – antes de conseguirmos calcular o custo preciso de nosso vício cultural em pornografia. Porém, como cristãos, nós sabemos o que significa adulterar o plano claro e inequívoco de Deus para a sexualidade: o custo será alto. Ele deve ser alto.

Todos nós sabemos que o custo será alto em famílias fraturadas e pais, maridos e esposas inconsoláveis. Já estamos vendo muitos desses casos e cada um deles é uma tragédia particular. Nós sabemos que o custo será alto nos incontáveis milhares de mulheres que são usadas e abusadas na frente das câmeras para serem violadas para o prazer de outros. Esta também é uma tragédia repugnante. Mas um custo negligenciado, que ficará claro com o tempo, é que a pornografia está roubando os melhores anos de um milhão de rapazes e moças cristãs. A pornografia está dominando suas vidas durante a adolescência e os vinte anos. Está controlando suas vidas durante esses anos quando há muita energia e pouca responsabilidade, quando o mundo se abre diante deles e as possibilidades são infinitas, quando eles estão traçando as trajetórias para o resto de suas vidas. Seus sonhos e seus talentos estão sendo embaraçados e esmagados por um compromisso descuidado com o pecado.

Assim, muitos jovens cristãos têm detido seu crescimento espiritual naquilo que eu chamo de pornolescência. Pornolescência é aquele período em que a pessoa é velha e madura o suficiente para saber que pornografia é errado e exige um alto preço, mas imatura ou apática demais para fazer alguma coisa sobre isso.

Pornolescência é aquele período em que ela sente a culpa por seu pecado, mas ainda gosta demais dele para abrir mão.

Ele pode fazer o ocasional pedido de ajuda, ou instalar o Covenant Eyes (mas mantendo uma alternativa para quando estiver realmente pegando fogo), ou procurar um parceiro para prestar contas. Mas ele não quer realmente parar. Ainda não. Ela pode telefonar para uma amiga ocasionalmente ou planejar uma conversa com uma mulher mais velha na igreja, mas, no fim, sua vergonha interna pesa mais que seu desejo por santidade. E assim, ela continua, noite após noite.

Isso é pornolescência, aquele período entre enxergar o pecado pelo que ele é e realmente mortificá-lo, aquele período entre a profunda convicção de imoralidade e o compromisso obstinado com a pureza. Para algumas pessoas, isso dura dias, mas, para um grupo muito maior, dura anos. Muitos jovens – jovens demais – estão crescendo muito lentamente hoje. Seu despertar sexual está chegando muito cedo e entre todo tipo de circunstâncias erradas, e isso está atrasando todos os outros tipos de maturidade. Em especial, isso está atrasando sua maturidade espiritual.

1 Tessalonicenses 4.3 deixa isso claro como o dia: “A vontade de Deus para vós é esta: a vossa santificação; por isso, afastai-vos da imoralidade sexual”. Um crescimento cristão em santidade e seu desenvolvimento em maturidade cristã estão direta e inextricavelmente ligados à pureza sexual. Uma pessoa não pode buscar a Deus com todo empenho enquanto também busca a pornografia com todo empenho. É um ou outro, não um e outro. Deus não será zombado.

"
Deus não permitirá que você alcance o topo das montanhas espirituais enquanto rasteja na sujeira pornográfica. Deus não permitirá que você cresça em maturidade cristã enquanto você chafurda em sua incessante pornolescência.


E eu acho que o tempo provará que este é um dos custos mais sombrios da pornografia: ela está roubando os melhores anos de jovens cristãos demais. Está tolhendo seu crescimento espiritual e atrasando seu ingresso no serviço e ministério cristãos. Essas são as pessoas que representam o futuro da igreja – futuros presbíteros, futuros diáconos, futuras líderes de ministérios femininos, futuros líderes da juventude, futuros professores de crianças, futuros mentores, futuros missionários, futuros professores de seminário, futuros defensores da fé, futuros líderes denominacionais e assim por diante. Mas, a cada clique, a cada vídeo, a cada exposição desavergonhada ao que Deus considera detestável, eles escolhem adorar um deus no lugar do Deus. E, tudo isso, enquanto atrasam seu ingresso na maturidade, na liderança, em quem e naquilo que Deus os chama para ser.

Se este é você, escute meu apelo: por causa da igreja de Cristo e por amor à igreja de Cristo, mortifique esse pecado. Faça isso por Ele e faça por nós.


POR TIM CHALLIES | 20 de junho de 2014
Traduzido por Josaías Jr | Reforma21.org | Original aqui

Teologia da Prosperidade: um adolescente rebelde?

quinta-feira, 12 de junho de 2014


Igrejas comprometidas com a Teologia da Prosperidade podem ser consideradas cristãs? Aqueles que aderem ao evangelho da prosperidade devem ser tratados como nossos irmãos em Cristo? Mas e os pastores e líderes que enganam as pessoas com essa mensagem espúria? Como devemos encará-los?

Essas perguntas têm perturbado muitas pessoas há muito tempo. Acredito que também não eram poucos os que buscavam respostas a essas questões ao participar da Consulta Teológica e Pastoral “Um chamado à humildade, à integridade e à simplicidade”, nos dias 3 a 5 de abril na Estância Palavra da Vida, em Atibaia (SP). Essa Consulta, promovida pela Aliança Cristã Evangélica Brasileira em parceria com o Movimento de Lausanne, ocorreu mais de 20 anos depois que a Teologia da Prosperidade começou a confrontar as igrejas evangélicas brasileiras.

O que motivou tamanho atraso na realização de um encontro de alto nível sobre o assunto em nosso país? Creio que foi em grande parte pela nossa dificuldade em administrar a tensão que também esteve presente na Consulta. De um lado, há aqueles que preferem adotar uma atitude conciliatória, tentando aproximação com os adeptos da Teologia da Prosperidade, deixando-lhes abertas as portas para o caso de mudarem de posição. Do outro lado, há os que se preocupam com a doutrina e prática corretas e sentem necessidade de denunciar os abusos dos promotores da Teologia da Prosperidade a fim de proteger cristãos e não-cristãos dessa heresia.

Joel Edwards, Diretor Internacional do Micah Challenge (Desafio Miquéias), causou impacto ao comparar os adeptos da Teologia da Prosperidade a um “adolescente desviado”, que tem crises éticas e é caracterizado por atitudes egocêntricas. Lembrou que quando os adolescentes cometem erros, em vez de expulsá-los de casa, os pais devem conversar com eles e, ao fazê-lo, talvez percebam coisas que precisam aprender deles.

Comparar os adeptos da Teologia da Prosperidade a adolescentes implica conferir-lhes legitimidade, aceitando-os como filhos ou irmãos, membros da nossa família. Talvez devamos, sim, ter coração aberto para relevar alguns erros na doutrina e na prática, pois é próprio dos adolescentes serem imaturos, irresponsáveis, fazer criancices e até cometer pequenos delitos de vez em quando.
Devemos, porém, lembrar que a realidade é muito mais complexa. Há os que se aproveitam da imaturidade dos adolescentes e lhes passam drogas ou os conduzem à prostituição. E mesmo entre os traficantes, há os pequenos vendedores, os chefes do “morro” e os donos do tráfico, e não podemos tratar todos da mesma maneira.

Nos evangelhos, Jesus trata de maneira diferenciada os diversos tipos de ouvintes. Em relação aos mestres da lei e fariseus, não mediu palavras para denunciar os ensinos e malfeitos desses líderes religiosos que não queriam entrar no Reino de Deus nem deixavam entrar os que desejavam fazê-lo (Mateus 23). Já em relação às multidões, sempre demonstrou compaixão e acolhimento, embora tomasse o devido cuidado para evitar que sua fama se espalhasse e ele fosse encarado como um Messias que iria satisfazer os interesses egoístas e utilitaristas dos judeus (Mateus 9.36; Marcos 6.34; cf. Marcos 1.43-44; 5.43; 7.36; 8.26, 30; 9.9; João 6.15).

Seguindo o exemplo de Jesus, nossa resposta à Teologia da Prosperidade deve fazer distinção clara entre a “multidão” e os falsos mestres. Para os que estão premidos pelas necessidades ou se encontram na infância teológica e se tornam presas fáceis do ensino da prosperidade, precisamos apresentar a mensagem autêntica de Jesus, mas com compaixão e paciência, lembrando que ele nos amou primeiro. Para os que exploram dolosamente os incautos com o “outro evangelho” da prosperidade, em especial aos donos das igrejas, a mesma severidade com que Jesus tratava os que enredavam o povo com ensinos espúrios. E a todos, o evangelho integral do Reino de Deus, com sua visão de riqueza e pobreza, prosperidade e simplicidade, poder e serviço, glória e cruz.


Norio Yamakami é pastor da Igreja Evangélica Holiness do Brasil.

O Pentecostes, o Brasil e a Copa

quarta-feira, 11 de junho de 2014


Pentecostes é uma das festas regulares dos israelitas, comemorada há milhares de anos. Para participar dessa festa, celebrada 50 dias após a Páscoa, gente de todas as partes viajava para Jerusalém. Com o passar dos séculos ela tornou-se internacional, atraindo devotos de muitos povos e regiões diferentes. Foi numa dessas ocasiões, exatamente durante a celebração da Festa de Pentecostes, que ocorreu uma manifestação divina especial, em cumprimento à promessa de derramar o Espírito, como água viva sobre a terra seca, tendo em vista abençoar muitas raças e nações diferentes. Naquela oportunidade o Evangelho foi espalhado para muitos povos! Assim, também a igreja de Cristo celebra o Pentecostes, o que acabamos de fazer neste último domingo, às portas da abertura da Copa do Mundo de Futebol.
Em nossos dias, a Copa do Mundo também tem o poder de reunir diferentes nações, concentrando multidões, em geral num país, para uma celebração que tem a intenção de estimular a paz e o convívio respeitoso entre pessoas e povos.
O mundo ama futebol; e os brasileiros, então, o têm em alta consideração. Futebol faz o nosso país vibrar e é uma espécie de metalinguagem nacional, onde estão representados sentimentos, expectativas, angústias, dramas e lutas da nação. O brasileiro raramente é indiferente ao futebol e menos ainda diante da realização da Copa do Mundo em nosso território. As emoções sobem e se transfiguram em paixão. Mas, desta vez, estamos mais cientes de que a realidade do nosso país vai muito além da emoção dos jogos, das alegrias das vitórias ou tristezas por eventuais derrotas. Hoje a consciência está mais amadurecida e temos compreensão de que a construção de uma sociedade justa e igualitária extrapola os campos e as partidas de um campeonato mundial de futebol. A magia do futebol não enfeitiça a nação diante dos desafios que temos!
Torcemos para a seleção balançar as redes, reconhecendo que alguns não o façam, mas torcemos mais ainda pelo Brasil. Esperamos que o Brasil seja campeão em campo e também fora do campo. Sabemos que o Brasil tem suas virtudes e problemas, como qualquer nação, e estamos desenvolvendo uma avaliação cada vez mais nítida da situação nacional. Mas não nos envergonhamos do nosso país, nem do nosso povo, apesar das questões ainda não resolvidas e da conturbada preparação deste Mundial. Não precisamos nos sentir inferiores por causa dos problemas que ainda temos para equacionar e afirmamos a nossa identidade fugindo da arrogância. O que esperamos é que o Brasil vá muito além da organização de uma Copa do Mundo e invista, cada vez mais, para melhorar a educação, a saúde e a segurança da população. Quando houver mais justiça social, menos corrupção, uma classe política mais qualificada e melhor distribuição de renda, então iremos cantar o Hino Nacional juntos com mais força ainda!
Somos um povo acolhedor e nos alegramos em receber os visitantes de outros países. Os estrangeiros são bem vindos ao nosso país e esperamos que experimentem algo da boa alegria brasiliana e que conheçam as belezas naturais e os magníficos sabores do Brasil, mas sem envolver-se de modo nenhum na exploração sexual de crianças e adolescentes. O Brasil não é destino de turismo sexual! Não aceitamos que esta festa, que nos está custando tão caro, seja usada para fins escusos como o turismo sexual e a exploração de menores, nem que este momento festivo seja usado para fins que dificultem a vida da população e venham a destruir o patrimônio nacional. Queremos que esta festa seja marcada pelo bom convívio e respeito para com todos, sejam estrangeiros ou brasileiros.
Amamos o Brasil como nação, igualmente reconhecida e constituída sob a benção dos céus, entre centenas de outras nações. Milhares de brasileiros são voluntários para cooperar com a organização do evento e outros milhares ajudarão espontaneamente aos estrangeiros e turistas. Mais do que oferecer uma festa e compartilhar a alegria momentânea da Copa do Mundo, porém, desejamos repartir os valores que identificam a nossa nação. Oramos que o Evangelho alcance e abençoe os milhares de visitantes que vierem ao nosso país e que estes levem de volta na bagagem ótimas lembranças do Brasil, mas, especialmente, a Paz permanente nos seus corações, para espalhá-la entre os seus povos, assim como ocorreu no Pentecostes dois mil anos atrás. Esperamos que a ocasião da Copa do Mundo sirva como plataforma de encontro e congraçamento dos povos da Terra, mas também para o Brasil dar um passo e crescer como nação.

Oramos, pois, pela nossa nação, pelo seu povo e seus governantes, neste momento tão especial para todos nós. Oramos pelas nossas crianças e pelos desfavorecidos, para que sejam protegidos e experimentem segurança durante este período. E oramos que as diferentes iniciativas de tantas de nossas igrejas para estes dias tenham a marca do Evangelho e levem muitos a celebrar a vida nova em Jesus Cristo.

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