Caio

quinta-feira, 26 de junho de 2014

por Bráulia Ribeiro

Ontem (25/06/14) uma  entrevista de Caio Fábio a Danilo Gentili (The Noite, SBT) suscitou muitos comentários pelo Brasil afora.
Pisar no território que circunda Caio é muito arriscado. Ele foi,  e sem dúvida continua sendo, de uma imensa importância para o contexto evangélico brasileiro, e examinar os problemas que o cercaram nas ultimas décadas nos revela muito sobre nós mesmos. Inclusive a entrevista exibida ontem (24/06/14).  Se você quiser se divertir com a polaridade dos pontos de vista, leia a tweetfeed de ontem com a #caiofabio. Não existe meio termo. O homem ou é o diabo ou é um semideus.
Por isto vai ser impossível sair deste artigo ilesa. O Caio inspira ódios extremos e amores extremos. Minha pretensão neste artigo não é afirmar este ou aquele ponto de vista, mas é dar uma olhada rápida no paradigma de liderança da cultura brasileira. No meu ponto de vista a  “questão Caio” não foi apenas problema  dele como indivíduo, mas de todos nós que cultivamos e permitimos que esta cultura disfuncional se perpetue.
Digo que o problema mora na cultura brasileira no sentido genérico e não cultura evangélica, porque os aspectos aos quais vou me referir não são exclusividade dos evangélicos mas fazem parte da nossa formação cultural nacional. Refletem  partes de nossa identidade que não conseguimos despir, que mesmo estudando a Bíblia não fomos capazes de desconstruir para transformar. Revisitar axiomas culturais e repensar valores à luz da Palavra é essencial para saúde espiritual, mas é uma tarefa muito árdua. Me ajude aqui. Se você tem algum “insight” a acrescentar  vou publicar seu comentário.
É importante lembrar também de que as deformações  culturais humanas convivem com a revelação de Deus desde sempre. A revelação divina não tem o poder em si mesma de  tornar as culturas perfeitas.  É apenas  um farol no meio delas. Na narrativa bíblica percebemos isto claramente.  A busca pela transformação tem que ser uma busca humana. Não é trabalho de Deus transformar culturas, mas nosso.
Vou fazer um pulo fora do assunto Caio, para discutir um pouco o modelo cultural de liderança que marcou a sua era, e infelizmente feriu a ele e a  muitos. Depois volto à aplicação. Tenha paciência.

O paradigma cultural de liderança

O paradigma cultural de liderança é obvio o suficiente para ser reconhecido sem muito estudo. Mas podemos dissecá-lo um pouco.

Por causa da posição, líderes são alçados à uma condição supra-humana.

No espaço religioso ou no espaço de trabalho o líder tem que ser mais do que um mero colega. Ele tem que demonstrar qualidades que o colocam acima dos vis mortais, e se portar como se não fosse apenas mais um do rebanho para obter respeito.  No mundo religioso esta nuance de ser um ser “melhor” que outros, por isto líder, torna-o um semi-Deus.

Liderança é posição e não função

Liderança te atribui uma posição na escala social verticalizada brasileira. Usamos a linguagem hierárquica e posicional em nosso dia a dia. “Quem está acima de você?”  “Um homem na minha posição…” “Galguei este espaço…”  etc.
Na cultura brasileira em que identidade pessoal é definida de acordo com o valor que o grupo te atribui, o conceito de liderança  verde amarelo fica inerentemente preso a valorização pessoal. Se torna parte da sua identidade. Nao é uma mera função que voce exerce para servir o corpo.  (Você sabe com quem está falando?)
A sociedade brasileira é verticalizada. As pessoas se inserem em camadas que definem sua maior ou menor “importância” dentro do tecido social. Não seria possível falar de pessoas mais ou menos “importantes” o conceito de valor individual fosse o conceito bíblico. Na Bíblia indivíduos são importantes por causa de sua natureza única  não pelo que possam  representar para a sociedade. (Matta 1997)
Infelizmente esta ideia pagã de valor social é travestida de linguagem bíblica na cultura religiosa. O pastor é “anjo” da igreja, o profeta, apóstolo. Infelizmente repetimos a igreja Católica na sua cultura clericalizada, que refletia a hierarquia dos países monárquicos onde ela foi nutrida. O clero é a nobreza, e os outros os comuns.

A distância impossibilita o diálogo- o líder não pode ser vulnerável

Não existe espaço para a vulnerabilidade do líder: fraquezas tem que ser necessariamente maquiadas ou escondidas ou o líder perde a posição. Portanto, poucos tem a coragem de se mostrar humanos.  Líderes tem que ser necessariamente auto-suficientes porque não podem depender de outros, pelo menos não abertamente.
O líder brasileiro é extremamente solitário. Ele não pode expor suas dores e dúvidas aos “comuns”, ou seja aos que estão “debaixo” dele, e não pode expô-las a seus colegas, outros líderes. Porque ali  se compete mutuamente. Também não há espaço para sua humanidade. Se um líder busca conselhos, o faz com alguém que considere “superior” a si. Se ele está no topo da pirâmide, então não tem a quem consultar. Fica amargando seus tormentos internos sozinho. Ou se é capaz de se abrir com seus colegas, não vai ouvir repreensão, discordância, mas aquiescência.

Não se confronta liderança, mas se fala por trás

Numa sociedade onde meu valor é determinado pela posição que ocupo junto a liderança, qualquer discordância é extremamente perigosa. Se ouso confrontar ou apenas discordar da liderança me arrisco a perder o favor social que tenho. Então o que faço? Minha discordância tem que ser expressada de alguma forma  para que eu continue me sentindo humano. A cultura providencia então um espaço para dissonância. É um espaço inicialmente marginal, mas que se legitima  à medida que a dissonância cresce. É o que chamamos de “falar pelas costas”.
Não é pecado no Brasil falar mal de líder para outros, desde que se justifique fantasiando com “preocupação”, “vamos orar”, aliás  este “falar nas costas” é quase uma obrigação do liderado.
O comportamento do indivíduo fica à mercê de duas forças culturais que se opõe. A primeira que vamos dizer que metaforicamente  opera de cima para baixo é a necessidade de lealdade. O estilo de liderança aqui promove a lealdade acima da competência. O sujeito quer ser leal, porque a lealdade é vista como virtude. Esta lealdade o compele a aceitar calado os erros do líder, a tecer-lhe elogios constantes mesmo quando não merece, a fazer vista grossa a seus problemas. Ele sabe que sua sobrevivência no sistema depende desta dinâmica.
A outra força compele o sujeito para cima.  Todo mundo quer mais espaço, quer ser visto, quer “vencer”. Como o modelo de lealdade cega não promove baseado em competência mas relacionamento, cria um espaço para a constante insegurança. Bolman  and Deal, autores do best-seller “Reframing Organizations” descrevem esta atmosfera de liderança chamando-a de “Cenário Político” e até usam a metáfora da lei da selva para descrevê-lo. E é um modelo usado até intencionalmente em culturas organizacionais de empresas com excesso de individualismo. Ou seja, porque a liderança não se define por valores coletivos, e/ou não atribui ao indivíduo valor nem espaço para tomada de decisões, se estabelece o vale tudo.
A essência desta cultura de liderança é o conflito de poder e as coalisões baseadas em interesses mútuos. A definição essencial de liderança neste contexto é “um processo realista de tomada de decisões e alocação de recursos no contexto de interesses divergentes e de necessidade.”(Bolman 1991, 181) Ou seja se beneficia aquilo que se interessa, para se obter o que interessa.

A cultura de vergonha não permite a redenção

Vamos rever rapidamente o conceito de culturas de vergonha e culturas de culpa. Apesar da antropologia moderna procurar não fazer julgamento de valor sobre culturas melhores ou piores que outras, o fato é que alguns conceitos essenciais tem consequências sociais irrefutáveis. A cultura latino-americana tem sido uma cultura de vergonha, provavelmente uma herança da dominação moura de 700 anos sobre a península. (Para uma leitura sobre honra/vergonha na América Latina veja (Johnson 1998)).   Culturas de vergonha empregam desgraça social como sanção para comportamento fora da norma. A vergonha social destitui o individuo de seu valor inerente. Ele não é mais a pessoa, se torna o pecado, ou o crime que cometeu. Culturas de culpa inserem o fator redenção  no processo de sanção. Resume-se o conceito assim:  em culturas de culpa – eu fiz algo errado, em culturas de vergonha – eu sou um erro.
Paul Hiebert (1985) explica que em culturas de culpa existe o alívio: a confissão. Em culturas de culpa está estabelecida a redenção através da devida punição. Uma vez punido e redimido o indivíduo tem seu espaço restaurado porque seu valor em nenhum momento foi colocado em questão. Em culturas de vergonha tornar seu pecado/problema público só exacerba a dor. Quanto mais pessoas sabem, mais vergonha se acumula, menos compaixão se recebe. A vergonha culmina na execração pública total, o ostracismo. Numa cultura de vergonha não existem mecanismos pré-estabelecidos de redenção social. Uma vez pecador, sempre pecador. É  impossível de se recuperar a dignidade. O escárnio público sempre vai acompanhar o dissonante.
De Volta ao Caio
Depois que a dissolução de seu casamento veio a público Caio sabe que não há redenção possível para si dentro do universo cultural brasileiro. A pecha do adultério vai sempre estar sobre a sua cabeça. O que ele faz? Se volta contra ela. Se estabelece como oráculo de uma nova moral anti-moral.

O Caio não pretendeu ser perfeito, nem se colocou na posição de semi-Deus. Pelo contrário descreveu bem a síndrome dos que se embriagam de poder. Mas infelizmente não deixou de ser vítima da cultura que o endeusou. Esta cultura é inescapável. Enquanto nós não a destruirmos, intencionalmente, desmascarando-a, despindo-a do falso glamour que tem, colocando-a no raio X.

Erros de um ídolo?

1. Ele chama a hipocrisia brasileira de hipocrisia evangélica ou religiosa.
Mas os mecanismos de comportamento que o levaram ao ostracismo e à vergonha não são cristãos. Pelo contrário a verdadeira cultura cristã é a cultura da culpa, não da vergonha. Em Cristo todos somos encontrados pecadores e somos todos redimidos. Em Cristo o meu pecado e o seu se igualam assim como a redenção que nos é oferecida na cruz. Foi a hipocrisia da cultura brasileira não redimida por Cristo que o condenou.
2. Ele não torna pública a sua jornada de perdão.
Se Caio perdoou ou não seus algozes é problema interno dele. Não julgo o seu coração. Um homem que prega e conhece a graça conhece também o poder do perdão. Mas seu perdão não é público, sua graça não é pública. Não existe perdão oculto se o pecado foi público. Assim como não existe a graça que discrimina entre este ou aquele grupo. O caminho da graça tem que estar aberto para todos inclusive aos inimigos.
Amo uma música do Atilano Muradas que nos chama a amar os pobres e as crianças abusadas, mas também a amar os políticos corruptos e os abusadores que praticam a violência contra a crianças. Me lembro que engasguei na primeira vez que ouvi a canção. Mas se não posso amar os mais vis pecadores (inclua nesta lista os religiosos) não posso professar a cruz.
3. A partir dele, se criou uma ambiguidade na mensagem cristã.
Se não existe pecado ou o mal não pode existir também a redenção. A graça só existe porque existe o mal. Na era pós-Caio muitos embarcaram na mensagem ambígua da cruz sem pecado. A culpa não é  dele mas a coisa virou um fenômeno cultural, típico de um país de análises superficiais e argumentos vazios.  Uma vez numa conferência com outros líderes numa conversa com um garoto pastor de uma igreja percebi que ele se vangloriava do pecado na sua igreja como se fosse algo não só aceitável mas desejável.
Não podemos nos esquecer do paradoxo da cruz. Porque sou amado como estou, com meus pecados e imperfeições sou impelido para uma busca do amor, da santificação de vida (que no original hebraico significa ordem), da reforma moral.
A luz do amor de Cristo brilha nas trevas para iluminá-la não para torná-la mais densa. Meu relacionamento com Cristo não se baseia na compra e venda de minhas boas ações e se justifica na minha pseudo-santificação.  Mas o amor dele me faz melhor.
Se usássemos a fórmula do AA (Alcoólatras Anônimos)  nas nossas reuniões seríamos certamente mais saudáveis. “-Oi. Sou a Braulia. Pecadora e muito.” Não me dou o direito de julgar ninguém, porque maior é a misericórdia que o juízo.
Salve Caio. Parabéns pela entrevista. Sigamos juntos no Caminho.
Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical.

Referências
Bolman, Lee G. Deal Terrence E. 1991. Reframing Organizations : Artistry, Choice, and Leadership. San Francisco: Jossey-Bass.
Hiebert, Paul G. 1985. Cultural Anthropology. Grand Rapids, Mich.: Baker Book House.
Johnson, Lyman L. Lipsett-Rivera Sonya. The Faces of Honor Sex, Shame, and Violence in Colonial Latin America. University of New Mexico Press 1998. Available fromhttp://public.eblib.com/EBLPublic/PublicView.do?ptiID=1594549.
Matta, Roberto da. 1997. Carnavais, Malandros E Herûis : Para Uma Sociologia Do Dilema Brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco.
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