Adoração ou Desperdício?

By Leonardo Carvalho - quarta-feira, julho 16, 2014


Em "A arte e a Bíblia", Francis Schaeffer disse que “os cristãos não devem se sentir ameaçados pela fantasia e a imaginação. Pelo contrário, os cristãos devem desenvolver a capacidade de, através da imaginação, voar além das estrelas”.

É muito estarrecedora a incapacidade que temos de dialogar com a cultura dita “pós-literária”. Temos muita gente lidando com palavras, mas infelizmente pouquíssimos heróis trabalhando com imagens. Seria essa fraqueza uma consequência remota da nossa tradição protestante, em certo sentido, iconoclasta?

Em "Uma força em movimento", Erwin McManus diz que “orientar a igreja de tal forma que ela se torne uma comunidade inteiramente orientada pelo texto impresso é uma sentença de morte. As pessoas simplesmente não leem”. Vou logo dizendo que não sou contra a cultura do livro e, sim, contra a ideia de que o livro é o único recurso útil para expressar o pensamento ou uma ideia. Por isso, acredito que é urgentemente necessário desenvolvermos a arte de capturar e produzir imagens que comuniquem as verdades do Evangelho em nosso contexto.

Porém, para que isso aconteça, é necessário dilatarmos o conceito de adoração. Não se glorifica a Deus apenas com música e palavras. Você já parou para pensar que a moçada pós-literária, universitária e que está em nossas igrejas, só tem dois espaços para participar da liturgia? Os caras ou podem cantar, tocar ou pregar. Nada mais que isso! Ou seja, se você não sabe cantar e não fala bem, não tem boa oratória, é melhor procurar outro lugar para glorificar a Deus... Isso é muito triste, não?! 

Pois é, nosso conceito de adoração precisa ser dilatado o quanto antes para o uso da escultura, da pintura, da gravura, do cinema, do design, da arquitetura, etc. Mas para que isso aconteça, precisamos ultrapassar duas dificuldades. De um lado, a cultura de massa, de entretenimento, que é meramente consumista e individualista; e, do outro, a cultura da justa “luta pelo pobre”, que equivocadamente vê nas artes o diletantismo de uma sociedade do desperdício.

Veja, alguém poderia muito bem dizer: “tem muita gente morrendo de fome para que a igreja fique preocupada com a arquitetura de seus templos e a arte de suas liturgias!” Quem de nós nunca ouviu esse discurso?! O próprio Jesus ouviu algo parecido quando um de seus discípulos resmungou porque uma mulher havia derramado um bálsamo caríssimo sobre sua cabeça:

“Para que este desperdício?”, disse o discípulo, “Este perfume poderia ser vendido por muito dinheiro e dar-se aos pobres”.

Porém, não podemos nos esquecer do que disse Jesus, logo em seguida:

“Ela praticou boa ação para comigo… Onde for pregado em todo mundo este evangelho, será também contado o que ela fez” (Mt 26.7-13).





Jonas Madureira é bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pelo Betel Brasileiro em São Paulo; bacharel e mestre em Filosofia pela PUC-SP; doutorando em Filosofia pela USP com estágio sanduíche no Thomas-Institut da Universidade de Colônia (Alemanha). Professor de Teologia e Filosofia da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, do Servo de Cristo e do Betel Brasileiro. Autor do livro Filosofia do Curso Vida Nova de Teologia Básica, publicado por Edições Vida Nova. Em 2005, recebeu da PUC-SP a premiação de Menção Honrosa, na área de Filosofia, pelo estudo que apresentou sobre a doutrina do conhecimento negativo de Deus em Tomás de Aquino. É editor de Edições Vida Nova.

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