Misericórdia

By Leonardo Carvalho - sexta-feira, julho 04, 2014

por Leonardo Carvalho
Como pode ser possível caminhar olhando meramente para si mesmo, esquecendo do próximo que atrás fica?
Como pode haver liberdade de fato se o meu próximo permanece ainda em correntes?
Como o meu bem estar pode estar acima da desgraça do outro?
Minha momentânea alegria sobrepujando as mazelas alheias?
É o legado do nosso egocentrismo!
Legado esse que só veremos e entenderemos quando estivermos na pele do outro, entrelaçados no contexto. Só então, pra nossa perdição, entenderemos o que infligimos em quem padecia a deriva de uma simples mão estendida.
Daí choraremos e clamaremos aqueles que surdos se fizeram, impregnados pelo nosso velho hedonismo sagaz.
Mas quem ouvirá?
Quem terá misericórdia?
Só então os olhos se abrirão, escamas cairão para vermos que passamos tempo demais nos auto afirmando, mas raros reconhecemos quem éramos.
Se não houver quem olhe com os olhos do cristo, que mesmo padecendo na cruz, não se importou consigo mesmo, mas teve misericórdia do ladrão que ao seu lado estava, ficaremos cegos.
Se não houver quem fale com graça, não reforçando as falhas, mas apontando caminho da esperança que está à frente, ficaremos mudos, sem quem diga o que realmente importa.
Se não houver quem se coloque a frente da milha, em meio a batalha, sem pensar no conforto próprio, mas olhando com misericórdia pra quem está caído em meio à guerra, nossa religião falirá. Sem propósito, valor ou mesmo razão.
E o que dirão do que chamávamos de fé?
Algo que muitos gritavam e impunham como um mero degrau para se alcançar coisas materiais, mas que jamais ousaram dizer que sua essência estava além da barganha, além da mediocridade?
Liberdade nos chama, o Cristo que liberta convida. Ainda há tempo, ainda há tempo.
Tempo de ouvir, de refletir, se consternar. Tempo de chorar, quebrantarmos nosso coração e irmos aos aflitos. Fazer de nossa vida diária uma missão contínua de amar, de fazer conhecida boa nova que renova, que restaura. De sermos o que de fato fomos chamados a ser.
Quem ouvirá?
Quem terá misericórdia?

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