Sal, Luz e Fermento

segunda-feira, 2 de março de 2015


Há quem acredite que o mundo “se encherá do conhecimento da glória do Senhor” quando todas as pessoas se tornarem religiosas, e quando a religião ocupar cada espaço da vida.
Dessa compreensão surge um tipo de Cristianismo, baseado em
. lugares sagrados
. objetos sagrados
. dias sagrados
. atividades sagradas
. pessoas sagradas
. discursos sagrados

e a irritante necessidade de pronunciar o nome de Deus em relação a tudo, como também e principalmente de ordenar a vida a partir de dogmas, ritos, e tabus.

Nesse tipo de Cristianismo, o espaço religioso é delimitado, separado do espaço secular, o que parece razoável. O problema é que confunde-se espaço religioso com espaço sagrado – onde tudo é bom e aprovado por Deus, e espaço secular com espaço profano e tenebroso, onde tudo é mal e inspirado pelo diabo.
Outro problema é que esse tipo de Cristianismo transforma a experiência do sagrado em espetáculo, dando ao Espírito Santo dia, hora, local, atores e script para se manifestar. E não faltam espertalhões e abusadores para se locupletarem desse tipo de vivência religiosa.
Mas a Bíblia Sagrada aponta para um tempo quando os seus filhos seriam “uma carta de Cristo, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos”. Nesse dia, Deus não seria mais adorado em ritos e templos, mas no coração, em espírito e em verdade.
Dessa compreensão surge outro tipo de Cristianismo, baseado na identificação com o Cristo morto e ressurreto, e sua dinâmica irreprimível e irreversível: homens e mulheres que morrem com Cristo e ressuscitam com ele ininterruptamente, de modo que a própria presença gloriosa de Deus vai ganhando espaço no mundo independentemente dos limites estabelecidos pelas categorias religiosas, numa divina kenósis que não tem fim, e a partir da qual Deus se mistura na terra como o sal, ilumina o mundo desde o monte onde suas cidades estão edificadas, e aos poucos leveda toda a massa.
Jamais passou pela cabeça de Jesus de Nazaré um mundo impregnado de religião, onde os símbolos do sagrado – meios – fossem confundidos e tomados como fins. Jesus falava de sal, luz e fermento, realidades que afetam o ambiente onde estão imiscuídas sem contudo chamar a atenção para si mesmas. Ninguém come bolo de fermento. Para aproveitar o dia ensolarado é tolice ficar olhando para o sol. E a comida salgada é intragável. O fermento faz crescer a massa com chocolate, o sol ilumina o dia para quem deseja a vida, e o sal realça o sabor dos alimentos. As metáforas são óbvias: a espiritualidade cristã é supra religiosa, pois uma vez esvaziado e encarnado no seu Cristo, Deus extrapola os limites do culto-clero-domingo-templo e ganha as ruas. Na cruz de Cristo e sua ressurreição, o véu do templo se rasga e a glória de Deus vaza para a vida, deixando para traz as estreitas bitolas das estruturas religiosas.

Desde então, como bem disse meu amigo Paulo Brabo, “Deus não quer servos oficiais como sacerdotes e levitas, quer somente amigos como o bom samaritano”.

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Ed René Kivitz graduado em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo; pastor presidente da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo; autor de Quebrando paradigmas (Abba Press), Vivendo com propósitos, Outra Espiritualidade e O livro mais mal humorado da Bíblia (Mundo Cristão); idealizador do Fórum Cristão de Profissionais.
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