Eu idolatro, Tu idolatras, Nós idolatramos

quinta-feira, 7 de maio de 2015


Quando lemos sobre o empresário que tinha um carro no meio da sala de uma de suas muitas casas, ficamos surpresos, mas não devíamos, porque somos realmente capazes de criar ídolos. Na verdade, não somos iconoclastas (aqueles que derrubam ídolos); somos idólatras (aqueles que levantam ídolos).

Podemos idolatrar as coisas, com as quais devíamos ter uma relação sadia, já que são apenas coisas. Podemos idolatrar os objetos eletrônicos que possuímos, mesmo sabendo que ficarão obsoletos dentro de alguns meses.

Podemos idolatrar o conhecimento que adquirimos por meio do estudo. Podemos inclusive decoram as paredes dos nossos escritórios com diplomas e certificados que, a propósito, são sempre bordejados com a cor do ouro.

Podemos idolatrar as ideologias, tanto as políticas ou filosóficas quanto as de consumo, que se tornam moda. Sentimo-nos na obrigação de pensar o que nos dizem para pensar ou de vestir o que nos dizem para vestir ou frequentar o restaurante que nos mandam ir. Dizemos que nossas escolhas são racionais, porque assim nos são vendidas. Elas podem ser racionais para os seus formuladores, não para os seus consumidores.

Podemos idolatrar pessoas públicas, celebridades e subcelebridades. Nós olhamos para suas imagens como se olhássemos para elas. Nós as vemos na televisão e achamos que nos relacionamos com elas. Não há imagem mais perfeita para a idolatria.

Objetos, conhecimentos, ideologias e pessoas públicas são coisas, a menos que lhes sopremos o fôlego da vida. Quando Jesus deu ao dinheiro o nome de um deus (Mamom), estava nos lembrando que podemos idolatrar as coisas. Por isto, o mandamento bíblico é claro: "não faças para ti imagens de escultura" (Êxodo 20.).

Ou adoramos livremente o Deus verdadeiro ou nos tornamos escravos das coisas. A boa notícia é que podemos escolher.

Podemos idolatrar pessoas comuns. Pais podem idolatrar seus filhos. Esposas podem idolatrar seus maridos. Alunos podem idolatrar seus professores. Fiéis podem idolatrar seus pastores. Nossos sentimentos, inicialmente lindos, acabam se tornando em fantasia. Pomos essas pessoas como a razão de ser de nossas vidas. Imaginamos que elas são o que não são e nem podem ser. E quando nos relacionamos com as imagens que fazemos das pessoas, nós não nos relacionamos verdadeiramente com as pessoas, mas com os ídolos que fazemos delas.

Podemos nos relacionar com as pessoas por aquilo que podem nos dar. Neste caso, nós as mercantilizamos. As pessoas são vistas pelo que podem nos oferecer. Quando alguém faz aniversário, podemos, por exemplo, cumprimentá-lo nos seguintes termos:

- Parabéns! Que Deus lhe dê muitos anos de vida para que você continue nos inspirando.

Nossas palavras dizem que não amamos o aniversariante pelo que ele é, mas pelo benefício que, eventualmente, pode nos gerar. É tudo muito sutil, sutil e dramático.

Podemos nos idolatrar a nós mesmos, curvando-nos diante da trindade absoluta do eu, eu e eu. Para os escravos desta idolatria, o que importa é o que sentem e como se sentem. O que importa é que a sua autoestima esteja alta. Quando nos submetemos a estes ídolos, exigimos que as pessoas nos aceitem como nós somos, mesmo em nossos defeitos de caráter que não admitimos e não queremos mudar. Boas são as coisas que nos dão prazer, mesmo que nos furtem a consciência.

Para não mercantilizarmos nossos relacionamentos, precisamos ouvir os Dez Mandamentos. Ouvindo-os, seremos candidatos a nos relacionarmos de modo sincero com Deus. Quando nos relacionamos de modo sincero com Deus, pelo prazer de estar com ele e não pelo que oferece, estamos prontos a jogar fora as nossas máscaras.
É sem máscaras que a vida vale a pena.


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Israel Belo de Azevedo é pastor da Igreja Batista Itacuruçá, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Graduado em teologia e em comunicação, pós-graduado em história, mestre em teologia e doutor em filosofia. Também é escritor de obras aclamadas como "Academia da Alma" publicado pela editora Hagnos.
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