A campanha da Globo e a legalização do aborto

quinta-feira, 19 de novembro de 2015


Dizer que fiquei chocada com a campanha da Globo em favor do aborto seria um exagero, pois não foi exatamente esse sentimento que me acometeu, pois, a gente se escandaliza fácil com o inesperado e o que vai contra a moral e os bons costumes. Na verdade, não fiquei muito surpresa, pois C.S. Lewis já me preparou para coisas desse tipo que não passam de um sinal do modernismo e, mais recentemente, do pós-modernismo, caracterizados pelo egoísmo, individualismo e subjetivismo.

Nesse vídeo, atores globais, homens e mulheres, usam um vestido cor de rosa e uma peruca para representar uma grávida, enquanto declamam, intercaladamente o texto. A mensagem central, a meu ver, após afirmar a repressão da mulher que, grávida, não pode reclamar e tem que permanecer bonita, é a que questiona: “e se ela foi estuprada, e se ela não quiser um filho, não pode abortar...”

Veja, aqui se coloca lado a lado duas situações completamente diferentes: uma objetiva, de estupro, e outra de desejo, não querer o filho, como se todos os casos de criança indesejada fossem desse tipo. E pela forma como está sendo colocado, a ênfase está no querer ou não querer a criança, e não no crime. Mas as conclusões são aplicadas a todos os casos. E o clímax vem logo em seguida, com a frase absolutamente individualista, subjetivista e egoísta, por mais que se diga que não seja: “Meu corpo, minhas regras”, fazendo um jogo de palavras com a menstruação. Como se ter um filho fosse apenas uma questão material, física, corporal e nada tivesse a ver com a vida de uma terceira pessoa (a segunda é a do parceiro, que também não é mencionado).

Em seguida, ser mãe ou não ser mãe, que se transforma em ser mulher ou não ser mulher, é disputado na base da brincadeira das pétalas de uma flor, como se fosse uma questão do acaso e da escolha ao léu. O vídeo termina com uma série de mulheres famosas na literatura e com a pergunta: o que é ser mulher, o que é uma mulher? Como se abortar ou não fosse uma questão não de vida ou de morte, mas de identidade subjetiva da mulher.

No final do vídeo, há a reiteração da frase absolutamente hedonista e epicurista: “Meu corpo, minhas regras.” Ora, o lema é adotado por pessoas totalitárias, psicopatas, drogados e viciados em geral e crianças muito mimadas, menos gente de bem e que considera os outros e o bem comum.

Não vou nem me reportar à observação no vídeo, cheia de ironia e deboche, de que a crença no nascimento de Jesus de uma virgem fosse decorrência de um erro de tradução na Bíblia, pois dispensa comentários.

Chamo a atenção antes para a celebração da privação de uma vida para evitar o desconforto de uma mulher que valoriza outras coisas mais do que a vida.

Um blog feminista tenta se defender, apresentando dados, sem citar fontes, de que a legalização do aborto, que é o projeto político que inspirou o vídeo, não aumenta o número de abortos e que a sua criminalização não diminui o seu número. Bem, só se poderia ter certeza sobre isso se o aborto fosse legalizado em vários países e não apenas em alguns, que não são uma amostra representativa.

Segundo as feministas ainda, ser a favor da legalização seria uma forma de proteger a vida das mulheres que teriam mais condições e recursos dos sistemas de saúde para fazer o procedimento de forma legal.

Se fôssemos usar essa lógica, em breve também teríamos que legalizar o roubo e o assassinato, já que a punição não reduz o número de incidências e a legalização contribui para o conforto dos ladrões e dos assassinos. Afinal, “meu corpo, minhas regras”, nem que sejam as de roubar e assassinar.

Isso não significa ser contra nos casos em que o aborto já é permitido no Brasil, como no caso de recomendação médica. Significa ser a favor da vida, como qualquer criança seria. Que tal perguntar às crianças, que são as maiores interessadas, o que acham do aborto?

Nota:
1. Já existe um vídeo com crianças, mas, ao meu ver, muito induzido por adultos. Eu faria uma enquete sem rodeios, perguntando às crianças simplesmente o que elas acham do aborto, explicando-lhes obviamente, de forma objetiva, o que é isso.




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É mestre e doutora em educação (USP) e doutora em estudos da tradução (UFSC). É autora de O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética e tradutora de Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Costuma se identificar como missionária no mundo acadêmico. É criadora e editora do site www.cslewis.com.br

Protestantes que não protestam

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Não há um justo, sequer um…” Romanos 3.9-18
 Só tu me remiste, Deus da verdade.” Salmo 31

Cuidemos do princípio protestante, como lembrava Paul Tillich. Este imprime a intuição sobre a função histórica do protestantismo. Ele desmascara os ídolos religiosos, os santos e as imagens, como as máscaras da religião, os ídolos políticos, os governantes, os pastores, e o próprio “status quo” das igrejas oficiais e influentes quanto ao exercício das leis que regem uma nação, e do moralismo hipócrita das elites burguesas eclesiásticas ou pretensamente cristãs.

Sobre tais assuntos, regidos por três pontos: “Sola Gratia”, “Sola Fide” e “Sola Scriptura” (Só a Graça, Só a Fé e Só a Escritura). “Só a Escritura” é um princípio que evoca o esforço de volta às fontes do Cristianismo.

A Reforma, no tabuleiro das políticas ocidentais, deu o xeque-mate ao mundo espiritual imperialista, autoritário, absoluto, que pretendia governar o mundo com vestes clericais e símbolos religiosos que impõem poder aos tiranos, dão-lhes a força das armas e poder político absoluto, enquanto enfraquece os suspiros dos oprimidos. O poder político-religioso era questionado desde as fortalezas e portões de ferro que separavam pobres e fracos dos dominadores imperiais e poderosos.

Em questão as denúncias protestantes: “prerrogativas do estado religioso sobre o estado civil”; “prerrogativas de instâncias religiosas oficiais sobre a interpretação das Escrituras”; “prerrogativas divinas para os mestres da igreja”; “prerrogativas para convocar a igreja aos concílios, para receberem suas orientações” (conformação tirânica aceita por consenso inautêntico). Representando a tirania eclesiástica, uma igreja na Alemanha mantinha 17.413 relíquias sagradas, para as quais se exigia veneração mediante pagamento de indulgência, comportando 128.000 anos de "direito à salvação do inferno, e lugar garantido no céu".

A Reforma afirma que a Graça vem da iniciativa de Deus, e não pela oferta da salvação homologada pela Igreja; a Salvação é a “fides” concreta, “fides incarnata”, fé ativa nas obras que libertam. O discipulado cristão vem em primeiro lugar, pelo testemunho libertador das Escrituras, em favor das liberdades humanas.

Necessitamos do protestantismo bem identificado, porque nem todos evangélicos são “protestantes”, no rigor do termo. Nada, no mundo eclesiástico, é mais representativo da Reforma que o movimento pela unidade dos cristãos, sob a orientação revolucionária, em torno de diaconias libertárias.

O CMI (Conselho Mundial de Igrejas) e suas filiadas, representam um movimento de solidariedade aos oprimidos do mundo inteiro. Inclusive a Criação, o Planeta Terra, aviltados e espoliados; inclusive os desterrados e refugiados, banidos, excluídos, os pobres, os famintos, em todos os quadrantes do mundo habitado (“oikumene”).

A oração ecumênica, pronunciada em todas as línguas e dialetos, em toda a parte, evoca a confiança que as Escrituras oferecem aos cristãos: "Na nova era, a comunidade mundial será redimida. Sob a égide de Deus, estabelece-se uma nova etapa na história do mundo. O relacionamento com Deus será tão íntimo que Deus se dispõe a responder aos oprimidos mesmo antes que estes o procurem. A oração ecumênica: Deus, em tua Graça, transforma o mundo, é também o clamor do cristianismo ecumênico". Nos opositores da Reforma se encontrará também uma espécie de ódio filial à própria matriz comum da Igreja Apostólica total, geral (“ekklesia katholikos”).

A misericórdia de Deus se apresenta aos homens e mulheres pecadores presos aos sistemas de pensar do passado autoritário; sua compaixão pelos pecadores presos à sua religião e doutrinas, como a do particularismo denominacional, ou religioso, se manifesta. Porque os homens e as mulheres, além de não encontrarem salvação em suas obras, não se salvam nem de si mesmos e nem da corrupção ou depravação que os acompanham (João Calvino). Comentando o Catecismo de Calvino, Karl Barth diz mais: “É Deus quem toma a iniciativa de salvação; é Deus que vem ao encontro do homem para salvá-lo”.

Nada levará à salvação, libertação material ou espiritual; nada se assemelha à gratuidade divina. Lutero diria mais, escrevendo a Melanchton angustiado por sentir que não podia livrar-se por si mesmo do pecado: “Esto peccator et pecca fortiteter, sed fortius fide” (“seja um pecador, e peca fortemente, mas creia ainda mais firmemente”; esteja confiante na graça da salvação).

Teses da Reforma, hoje, não passam de “lembranças nebulosas”, em várias situações. Protestantes “não protestam mais”, ao que parece. Resignam-se ou se submetem aos poderes opressores. O corporativismo evangélico funciona como uma mordaça, não lembra a unidade na Reforma, nem de longe. Mas, "se todo mundo é evangélico, ninguém é evangélico” (Luiz Longuini Neto).

Resta dizer que a oikumene compreendia a Igreja católica, originalmente universal, abrangente, total (katholikos), no Protestantismo emergente. A democracia do laós (povo) de Deus, nunca existiu na totalidade, ao que parece, porque ainda está por vir. Ou, se existe em muitas comunidades reformadas, está por restringir-se, ou em retrocesso, onde foi alcançada. Creio. 

Essa era a Igreja que restara do cisma de 1054, no Ocidente. O princípio “Igreja reformada sempre se reformando” vigia desde séculos, segundo a patrística cristã. Reformava-se a Igreja dentro da Igreja. Nenhum reformador falou da criação de outras igrejas. Menos de dois séculos depois, a Reforma era traída pelo denominacionalismo individualista e, posteriormente, pelo evangelicalismo exclusivista. Protestantes são apontados como crentes que não protestam mais.




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É pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância" (2013) e "O Dragão que Habita em Nós” (2010).
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