Os Discos que não ouvi em 2015

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

E
sta não é uma lista de fim de ano, muito menos uma justificativa para a ausência de um ranking de melhores discos e filmes de 2015 no blog. Esta é, na verdade, uma postagem que exalta o penoso ofício de consumir arte em ritmo lento — algo que descobri há alguns anos e tive de aperfeiçoar nos últimos 12 meses.

Slow Movement é um movimento cultural iniciado nos anos 80 com o irônico slow food — o nome deixa claro do que se trata — e rapidamente aplicado a outras vertentes: slow moneyslow fashion,slow cinema, etc. Em resumo, se trata de viver de forma mais lenta, desfrutando de forma aprofundada das relações humanas e freando o consumismo.
Em abril de 2015, me tornei pai de uma moreninha com olhos de jabuticaba e, naturalmente, dediquei a maior parte do meu tempo à ela desde então. Olhando a pasta de downloads e os discos no Spotify, não passei de 15 álbuns novos neste ano. Um recorde negativo (?) para quem está habituado a ouvir, analisar e escrever sobre os lançamentos recentes.
Neste contexto, o Slow Movement se tornou uma necessidade no meu dia a dia. Entre fraldas, banhos e engarrafamentos no trajeto casa-trabalho-casa, pouco acompanhei dos principais discos, tendências e filmes em cartaz. Como jornalista, me esforcei para manter o ritmo apenas na leitura de notícias de economia e política.
Passada a abstinência dos primeiros dias, me peguei pensando no que cantou Caetano no Festival de 67: “o sol nas bancas de revista / me enchem de alegria e preguiça / quem lê tanta notícia?” Os versos permanecem atuais em tempos de redes sociais: quem curte tantas fotos? Quem vê tantos vídeos? Quem lê tantos tuítes? Quem conta tantos likes?

“Enquanto minha filha crescia, pude perceber o quanto seu ritmo de aprendizado me ensinou”

Com um pendrive lotado de músicas “velhas” no carro, tive a oportunidade de redescobrir nuances, melodias, resignificar frases e encontrar beleza em discos que ouvi na correria em 2014, 2013… Foi na impossibilidade de me atualizar no frenesi da vida moderna que aprendi a enxergar beleza no que estava em minhas mãos o tempo todo.
Até mesmo na Netflix, que lança séries em ritmo alucinado, optei por ver filmes há tempos na lista de pendências. Ironicamente, “O Feitiço do Tempo” (1993) foi uma destas obras que redescobri em 2015. A história do jornalista preso nos eventos de um mesmo dia foi um disparador de reflexões acerca dos valores que damos à vida e às pequenas coisas.
Enquanto minha filha crescia, pude perceber o quanto seu ritmo de aprendizado me ensinou. Examinando cada som, cada gesto e cada cor infinitas vezes, fui entendendo que é na repetição que eles moldam o mundo ao seu redor. Maria degustou cada nova fruta com atenção e curiosidade; cada colherada como se fosse a primeira. Por que não ser assim na vida?
As lições de 2015 deixaram marcas e moldaram o ser humano que pretendo ser em 2016. Que possamos investir mais tempo em fruição estética e menos em ritmo de consumo. Que as listas tirem do foco o que é necessariamente novo ou inovador e abram espaço para o que nos emociona, nos toca de forma sincera e nos muda para melhor.
Mais conteúdo. Menos ritmo.

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Jornalista por formação, cristão por fé e cantautor por pura teimosia. Se equilibra entre ser pai da Maria, esposo da Juliana, nerd, torcedor do Flamengo, jogador de playstation e enxadrista amador, crítico musical e opinador de assuntos aleatórios.

Este texto foi publicado originalmente por Catavento. Conheça você também. Nós recomendamos! http://www.catavento.me/

Conversa entre pai e filho

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Estive ensinando a Bíblia no presídio hoje, filho.
Por que eles estão presos, pai?
Por muitos motivos. Alguns roubaram, outros venderam drogas, uns deles até mataram.”
E estão arrependidos?
Acho que sim, filho. Acho que alguns estão arrependidos. E você, já se arrependeu de algo alguma vez?
Silêncio [...]
Sim. Acho que já pequei umas vinte e cinco vezes, pai. E me arrependi. Mas fiz algo errado uma vez.
O que foi, filho?
Disse a Deus que nunca mais iria pecar. E isso não é verdade, não é mesmo pai? Todo mundo peca, não é mesmo?
Sim, filho. Todos pecamos. O importante é nos arrependermos sempre que pecarmos e pedirmos forças para Deus para não continuar pecando.
Obrigado pai.
Por que, filho?”
Porque você me ajudou a entender isso.
Disse Jesus: 

"Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas."





Sandro Baggio é missionário do Steiger International servindo junto ao Projeto 242 como pastor-mentor, ocasionalmente tradutor e intérprete, escritor. Formado em teologia com ênfase em missiologia pelo SEMITE-RJ, serviu como missionário junto a Operação Mobilização na Europa e à bordo do navio Logos II. Seus dois livros publicados são “Música Cristã Contemporânea” (Editora Vida) e “Intelectualidade Cristã em Crise” (Editora Fôlego).

O que o Natal significa para mim (C.S. Lewis)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015


Há três coisas que levam o nome de "Natal". A primeira é a festa religiosa. Ela é importante e obrigatória para os cristãos, mas, já que não é do interesse de todos, não vou dizer mais nada sobre ela. A segunda (ela tem conexões histórias com a primeira, mas não precisamos falar disso aqui) é o feriado popular, uma ocasião para confraternização e hospitalidade. Se fosse da minha conta ter uma "opinião" sobre isso, eu diria que aprovo essa confraternização. Mas o que eu aprovo ainda mais é cada um cuidar da sua própria vida. Não vejo razão para ficar dando opiniões sobre como as pessoas devam gastar seu dinheiro e seu tempo com os amigos. É bem provável que elas queiram minha opinião tanto quanto eu quero a delas. Mas a terceira coisa a que se chama "Natal" é, infelizmente, da conta de todo mundo.

Refiro-me à chantagem comercial. A troca de presentes era apenas um pequeno ingrediente da antiga festividade inglesa. O Sr. Pickwick levou um bacalhau a Dingley Dell [1]; O arrependido Scrooge [2] encomendou um peru para seu secretário; Os amantes mandavam presentes de amor; As crianças ganhavam brinquedos e frutas. Mas a idéia de que não apenas todos os amigos, mas também todos os conhecidos devam dar presentes uns aos outros, ou pelo menos enviar cartões, é já bem recente e tem sido forçada sobre nós pelos lojistas. Nenhuma destas circunstâncias é, em si, uma razão para condená-la. Eu a condeno nos seguintes termos.

1. No cômputo geral, a coisa é bem mais dolorosa do que prazerosa. Basta passar a noite de Natal com uma família que tenta seguir a 'tradição' (no sentido comercial do termo) para constatar que a coisa toda é um pesadelo. Bem antes do 25 de dezembro as pessoas já estão acabadas – fisicamente acabadas pelas semanas de luta diária em lojas lotadas, mentalmente acabadas pelo esforço de lembrar todas as pessoas a serem presenteadas e se os presentes se encaixam nos gostos de cada um. Elas não estão dispostas para a confraternização; Muito menos (se quisessem) para participar de um ato religioso. Pela cara delas, parece que uma longa doença tomou conta da casa.

2. Quase tudo o que acontece é involuntário. A regra moderna diz que qualquer pessoa pode forçar você a dar-lhe um presente se ela antes jogar um presente no seu colo. É quase uma chantagem. Quem nunca ouviu o lamento desesperado e injurioso do sujeito que, achando que enfim a chateação toda terminou, de repente recebe um presente inesperado da Sra. Fulana (que mal sabemos quem é) e se vê obrigado a voltar para as tenebrosas lojas para comprar-lhe um presente de volta?

3. Há coisas que são dadas de presente que nenhum mortal pensaria em comprar para si - tralhas inúteis e barulhentas que são tidas como 'novidades' porque ninguém foi tolo o bastante em adquiri-las. Será que realmente não temos utilidade melhor para os talentos humanos do que gastá-los com essas futilidades?

4. A chateação. Afinal, em meio à algazarra, ainda temos nossas compras normais e necessárias, e nessa época o trabalho em fazê-las triplica.

Dizem que essa loucura toda é necessária porque faz bem para a economia. Pois esse é mais um sintoma da condição lunática em que vive nosso país – na verdade, o mundo todo –, no qual as pessoas se persuadem mutuamente a comprar coisas. Eu realmente não sei como acabar com isso. Mas será que é meu dever comprar e receber montanhas de porcarias todo Natal só para ajudar os lojistas? Se continuar desse jeito, daqui a pouco eu vou dar dinheiro a eles por nada e contabilizar como caridade. Por nada? Bem, melhor por nada do que por insanidade.




Publicado originalmente em God in the dock ­­ Essays on Theology and Ethics (Deus no banco dos réus – Ensaios sobre Teologia e Ética), 1957.
[1] Samuel Pickwick é o personagem principal de Pickwick Papers, romance de Charles Dickens no qual suas aventuras são narradas. Dingley Dell é o nome de uma fazenda, um dos cenários do romance. (N. do T.)
[2] Referência ao avarento milionário Ebenezer Scrooge, personagem da obra Um Conto de Natal, de Charles Dickens.(N. do T.)Tradução: © 2006 MidiaSemMascara.org

Questionamentos

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015


Sempre temos a impressão de que há coisas na vida que precisam mudar. Levamos essa concepção para nossa casa, nosso trabalho. Até mesmo pro nosso casamento. Cogitamos todos estes ambiente, mas muito pouco sobre mudanças na igreja. Talvez seja pela tradição de que a instituição não pode ser questionada. Mas como imaginar um seguimento que faz coisas contrárias as que seu mentor ensinou? Como ter em mente como inquestionável uma instituição que levanta muros derrubados? Que cria burocracias impedindo o acesso de muitos? Que dá a sua tradição mais relevância do que os próprios ensinamentos de seu mestre?
Somente o levantamento destas questões pode realmente nos levar a um veredito. Este nos dará duas escolhas. A primeira é a omissão, que aliás é coisa típica do movimento. A segunda porém será uma mudança radical de paradigmas nos quais padece a igreja. Esta mudança é vital e não se pode mais fugir. Afinal, não podemos mais fingir que está tudo bem. Colocar a roupa domingueira e o álibi de cristão fiel já não faz mais diferença. Nossa resposta tem que ser mais forte do que uma mera encenação religiosa. A sociedade que nos cerca anseia ver Cristo em nossas ações. É necessário que os sinais do reino sejam escancarados a todos que nos cercam.
É urgente uma tomada de posição. É intrínseco a igreja reler suas doutrinas e tradições. Amolda-las a Sagrada Escritura não pode ser uma opção e sim uma regra imutável. Pensar nessas coisas não é algo bem vindo e visto com bons olhos para a maioria da liderança institucional. Devemos decidir a quem servimos. Se é a um Deus tão limitado, permaneçamos então adormecidos em nossas mazelas. Mas se é a um Deus de graça, grande e poderoso, façamos então dele nosso Deus somente. De seus mandamentos nossos propósitos, de seu legado nossa missão.
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