Coragem

segunda-feira, 30 de setembro de 2013


Paul Tillich

Nas pessoas que clamam ter uma fé inabalada, o farisaísmo e o fanatismo são frequentemente a prova infalível de que a dúvida provavelmente foi reprimida ou de fato ainda está atuando secretamente. A dúvida não é superada pela repressão, e sim pela coragem. A coragem não nega que a dúvida está aí; mas ela aceita a dúvida como expressão da finitude humana e se confessa, apesar da dúvida, àquilo que toca incondicionalmente. A coragem não precisa da segurança de uma convicção inquestionável. Ela engloba o risco, sem o qual não é possível qualquer vida criativa.



Necessidades e desejos, fantasias e vícios

terça-feira, 24 de setembro de 2013

por Simone Weil

O primeiro caráter que distingue as necessidades dos desejos, das fantasias ou dos vícios, e os alimentos das guloseimas ou dos venenos, é que as necessidades são limitadas, assim como os alimentos que lhes correspondem. Um avaro nunca tem ouro suficiente, mas para todo homem, se lhe derem pão à vontade, haverá um momento em que terá o suficiente. O alimento traz a saciedade. Acontece o mesmo aos alimentos da alma.


O segundo caráter, ligado ao primeiro, é que as necessidades se ordenam em pares de contrários, e devem combinar-se num equilíbrio. O homem precisa de alimento, mas também de um intervalo entre as refeições; precisa de calor e de frescura, de repouso e de exercício. Igualmente para as necessidades da alma.

Eu sou se você é

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

por Ed René Kivitz

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a lei. Pois estes mandamentos: "Não adulterarás", "não matarás", "não furtarás", "não cobiçarás", e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: "Ame o seu próximo como a si mesmo". O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei. [Romanos 13.8-10]

O senso popular formado a partir da cultura ocidental confunde amor ao próximo com amor romântico, amabilidade social e ou simpatia cordial no contexto da amizade. A Bíblia Sagrada, entretanto, considera amor ao próximo um critério objetivo de relacionamento que transcende emoções, sentimentos e simpatias. Não é razoável, nem mesmo possível, legislar a respeito da subjetividade dos afetos. Mas é perfeitamente possível e necessário exigir padrões de comportamentos que não sejam sujeitos aos humores interiores ou diferenças próprias de contextos distintos em termos culturais, sociais e históricos. O mandamento do amor ao próximo, é, portanto, critério objetivo que se pretende para toda a humanidade justamente por afirmar uma verdade (ainda que axiomática) atemporal e universal.

Os filósofos judeus Rosenzweig, Buber e Levinás trataram dessa questão quando propuseram um tradução alternativa para a expressão “como a ti mesmo” que compõe o mandamento de amar ao próximo. Disseram que o correto seria “ama a teu próximo, ele é como tu”, ou ainda “ama a teu próximo, pois tu mesmo é ele”. O teólogo e economista alemão radicado na América Latina, Franz Hinkelammert, acrescenta a essas traduções uma outra decorrente das anteriores: “eu sou se você é”.

A tradição africana usa a expressão ubuntu para identificar essa tradução do princípio do amor ao próximo. Ubuntu é uma palavra usada pelos povos Bantos, nas línguas zulu e xhosa, e pode ser traduzida mais ou menos como “sou o que sou pelo que nós somos”. Desmond Tutu, arcebispo anglicano na Africa do Sul, diz que “uma pessoa com ubuntu está aberta e disponível aos outros, não preocupada em julgar os outros como bons e maus, e tem consciência de que faz parte de algo maior e que é tão diminuída quanto seus semelhantes que são diminuídos ou humilhados, torturados ou oprimidos”. Faz sentido dizer que uma pessoa com ubuntu também se reconhece honrada e respeitada em sua dignidade sempre que seus semelhantes assim são reconhecidos e respeitados.


A maturidade espiritual implica olhar o próximo não como um outro em oposição, diferenciação e competição, pois “ele é como tu” e “tu mesmo és ele”, e assim como ele é somente quando você é, também você somente é quando ele é. O que assim não é, está aquém do amor e portanto estranho a Deus, pois Deus é amor.
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