Virada e Futebol...

terça-feira, 30 de dezembro de 2014


2014 veio e passou afoito sem muitas boas notícias. Infelizmente o que mais tivemos neste ano que se finda foi o fracasso do que se ostentava grande. É intrínseco nesse raciocínio nos lembrarmos da “maior Copa do Mundo de todos os tempos”.

Enquanto o “jeitinho brasileiro” entregava arenas milionárias em cima da hora, ainda estava tudo bem, afinal tínhamos o melhor futebol do mundo. Mas assim como no famoso adágio popular, o jogo é jogado. E a cada partida que a Seleção Brasileira ia fazendo, ficava mais exposta nossa fragilidade. A queda foi do tamanho da nossa arrogância... Gigantesca.

No meio desse tamanho temporal, ficou claro que paramos no tempo e nada era como vislumbramos. Enquanto enchíamos o peito para dizer que éramos penta campeões, nossos adversários aprimoraram o que era apenas admiração. Colocaram a tecnologia como uma aliada no desenvolvimento de novas técnicas, novas táticas das quais nossos técnicos além de não acompanharem, tão pouco reconheceram como superior. Ah nosso modo brasileiro de ser!

Eu ainda aprendo muito com tudo isso. Vejo que nunca é um bom negócio ostentar o que não se tem. Uma avaliação criteriosa de quem somos poderia ter nos poupado de tamanha vergonha. Até mesmo de alimentarmos falsas esperanças num povo que parou e deixou de lado a intensa labuta cotidiana, que escolheu esquecer de seus problemas a cada 4 dias, por míseros 90 minutos e deixar que o patriotismo falasse mais alto no peito castigado. Poderíamos ter feito um discurso realista, longe da ilusão gloriosa que um passado distante traz.

Para o ano que vem, não quero ser tão arrogante, antes quero cultivar a humildade de saber quem sou, onde estou e das minhas limitações. Quero buscar aprender, pois já disse Leonardo Boff que...

sábio é aquele que nunca perdeu a capacidade de aprender”. 

Buscarei não viver de aparências, mas provado por dentro. Certo de que situações das mais diversas irão me alcançar, mas resistirei não pela imagem que construí, ou pelo esforço que fiz, mas sim pelo Deus que confiei e coloquei minha fé.     

Não sejam tão ingênuos e autoconfiantes. Vocês não são diferentes. Podem fracassar tão facilmente como qualquer um. Nada de confiar em vocês mesmos. Isso é inútil! Mantenham a confiança em Deus.
I Coríntios 10.12 (A Mensagem)

Evangelização ou Colonização? O risco de fazer missão sem se importar com o outro

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014


Quantas almas você ou sua igreja ganharam para Cristo ano passado? 
A pergunta revela nossa obsessão pelo cumprimento da agenda da igreja. Pior, não leva em conta o nome, a história e a identidade do outro. O “outro” é visto como objeto, é apenas um “alvo” da missão, que mostra se alcançamos (ou não) os objetivos do “nosso” grupo.

Evangelização ou Colonização? mostra historicamente como chegamos a esse modelo no mundo evangélico. Por que nossos métodos e motivações ainda reproduzem uma prática missionária colonialista, caracterizada pelos “superiores” que sabem o que é melhor para “eles”? Para a autora, é possível mudar e ousar novos “jeitos de fazer” missão. É preciso desconstruir aquilo que a tradição moldou ao longo dos séculos, voltando ao modelo simples do nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo.


Analzira Nascimento aponta alguns elementos que podem ajudar aqueles que estão incomodados com os nossos modelos e mostra como pegar o caminho de volta para trabalhar-viver com o outro, e não pelo outro.



Analzira Nascimento, autora de Evangelização ou Colonização?, é missionária da Junta de Missões Mundiais e serviu em Angola por 17 anos durante a guerra civil naquele país. Doutora em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo, coordena o ministério Com Vocação, da JMM, e trabalha com a Associação de Missões Transculturais Brasileiras e a Associação de Professores de Missões do Brasil. É responsável pelos projetos missionários da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo.


A igreja, no decorrer da história, adotou práticas evangelizadoras que contribuíram para sedimentar um modelo de missão fortemente marcado pela expansão colonialista do final do século 15 e início do século 16. Esse modelo foi formatado nos Estados Unidos e deu origem ao formato missionário protestante dominante.
Nos dias atuais, a igreja, zelosa por cumprir programas de expansão, continua reprodu-zindo a mesma lógica colonialista de dominação. Minha hipótese é que, na ânsia de cumprir uma agenda eclesiástica, muitas vezes o missionário não consegue reconhecer o “outro” como sujeito. O modelo de missão que predomina, principalmente no mundo evangélico, reforça a negação da identidade do outro e o reduz a objeto.
É preciso parar de invadir “a casa do outro”, entender que ele também tem o que dizer e que, ouvindo-o, alcançaremos condições de diálogo.

-- Analzira Nascimento

Há 46 anos na UTI, paciente cria desenho animado

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

por Cláudia Collucci

As brincadeiras de sete crianças com paralisia infantil, que passaram a infância internadas numa UTI do Hospital das Clínicas de São Paulo, viraram mote para uma série de desenhos, criada pelo líder da turma. Paulo Henrique Machado, 47, que vive ligado a um respirador artificial no Hospital das Clínicas desde um ano de idade, é mentor e roteirista da animação "Brincadeirantes", concluída nesta semana. A Folha revelou sua história no ano passado. O episódio-piloto, com dez minutos, foi possível graças a um financiamento coletivo que arrecadou R$ 120 mil. Um total de 1.612 doadores colaboraram com a empreitada.
"Pareço criança. Já assisti umas 200 vezes e não me canso de rever. Ficou exatamente do jeito que eu sonhei. A caracterização dos personagens, a trilha, tudo. Foi um processo dolorido, por me fazer recordar dos amigos que já se foram, mas, ao mesmo tempo, desafiador", conta.



Dos amigos que aparecem no primeiro e nos futuros episódios, apenas ele e Léca (Eliana Zagui, sua melhor amiga e vizinha de cama na UTI do HC) sobreviveram. Deitados no leito, ambos concluíram o ensino médio. Paulo fez cursos de computação gráfica e de roteiro pelo Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). É fã de animações, como as do estúdio britânico Aardman Animations (especializado em stop-motion, técnica de animação em que modelos de massinha são fotografados quadro a quatro), que tem personagens deficientes. Pela internet, fez amizade com Carlos Saldanha, diretor de "A Era do Gelo" (2002), que já o visitou no HC. Ao roteirizar suas histórias e as dos amigos, a ideia de Paulo foi combater preconceitos. "Apesar das limitações, a gente se divertia. Da janela do quarto, soltávamos pipa. O hospital foi o meu jardim da infância e continua sendo meu lar." Mesmo com sistema respiratório paralisado pela pólio, Paulo, Pedro e Anderson tinham movimentação nos braços. Já Eliana, Claudia e Tânia, não. Desenhavam e escreviam com boca.

Na animação, Paulo relata uma ida ao Playcenter em que tenta brincar, mas, penalizados com a sua deficiência, funcionários das barracas lhe dão prêmios, sem que ele os dispute. "Não quero brinquedo, quero é brincar", queixa-se Léco, seu personagem. Na vida real, Paulo se diverte com filmes e jogos no computador. "Todos os dias, quando acordo, olho pra cama da Eliana e digo: 'Ainda bem que ainda estamos vivos'." E como estão. Eliana pinta quadros com a boca, escreve o segundo livro e se prepara para ver a primeira obra ["Pulmão de Aço", Belaletra editora, de 2012] virar peça teatral. Ambos os projetos são para 2015. Paulo tenta viabilizar parcerias para a exibição do seu programa-piloto e a criação de novos episódios. Sete roteiros e 22 argumentos já estão prontos. O produtor e animador do programa, Bruno Saggese, professor de Paulo, diz que se surpreendeu com a vitalidade e o talento do aluno. "A gente pensa que UTI é lugar de tristeza, mas aqui é um mundo à parte." A ideia, segundo ele, é procurar TVs abertas e a cabo, além de empresas na internet que possam se interessar em abraçar o projeto. Como a história de Paulo ganhou projeção internacional, há veículos estrangeiros que manifestaram interesse.
"Espero que seja apenas o começo de uma grande aventura. Meu sonho é produzir um longa-metragem", diz um sorridente Paulo, com os olhos vidrados na tela do computador, que exibe sua série pela 201ª vez.

O que a Bíblia não é

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014


1. O propósito da Bíblia não é científico. Isso não significa que o ensino da Escritura e o da ciência estejam de alguma forma em conflito um com o outro, pois ao mantermos cada um em sua própria esfera e discernirmos o que cada um está afirmando, eles não estão em conflito. De fato, se o Deus da verdade é autor de ambas, não poderiam estar. Também não quer dizer que as duas esferas nunca se sobreponham e que nada que a Bíblia diga tenha qualquer relevância científica, pois a Bíblia contém proposições que podem ser (e em muitos casos têm sido) comprovadas cientificamente. Por exemplo, nela está registrada uma série de fatos históricos, como Nabucodonosor, rei de Babilônia, ter cercado, ocupado e quase destruído Jerusalém e Jesus de Nazaré ter nascido quando Augusto era o imperador de Roma. O que estou afirmando é que, embora possa conter dados científicos, o propósito da Bíblia não é científico.
A ciência (pelo menos a ciência natural) é um corpo de conhecimento laboriosamente adquirido pela observação, experimentação e indução. O propósito de Deus na Escritura, entretanto, foi revelar verdades que não podem ser descobertas por esse método (chamado pelos cientistas de método empírico), coisas que teriam permanecido desconhecidas e encobertas se ele não as tivesse revelado. Por exemplo, a ciência pode ser capaz de dizer alguma coisa sobre nossa origem material (embora até mesmo essa permaneça uma questão aberta); apenas a Bíblia revela nossa natureza, tanto nossa nobreza única na qualidade de criaturas feitas à imagem do Criador quanto nosso estado de degradação como pecadores egoístas revoltados contra nosso Criador.

2. O propósito da Bíblia não é literário. Há alguns anos foi publicado um livro intitulado The Bible Designed to be Read as Literature. É uma edição primorosa. A disposição tradicional em versículos foi abandonada, e a diagramação indicava claramente o que era poesia e o que era prosa. Tudo isso ajuda. Além disso, ninguém, quaisquer que sejam suas crenças ou descrenças, pode negar que a Bíblia contém de fato literatura admirável. Ela fala sobre os grandes temas da vida e do destino humanos e os trata com simplicidade, discernimento e imaginação. Sua tradução do original foi tão boa que em alguns países, como Inglaterra e Alemanha, a Bíblia tornou-se parte da herança literária nacional. No entanto, Deus não planejou a Bíblia como literatura grandiosa. Ela contém fraquezas estilísticas gritantes.
O Novo Testamento foi em grande parte escrito em grego koiné, a linguagem cotidiana do mercado e do trabalho, e muito dele carece de refinamento literário, até mesmo exatidão gramatical. O propósito da Bíblia está em sua mensagem, não em seu estilo.

3. O propósito da Bíblia não é filosófico. É evidente que a Escritura contém sabedoria profunda – na verdade, a sabedoria de Deus. Todavia, alguns dos grandes temas que os filósofos têm enfrentado não recebem um tratamento exaustivo na Escritura. Vejamos, por exemplo, o grande problema do sofrimento e do mal. Como fenômenos da experiência humana, são figuras proeminentes na Bíblia. Em quase todas as páginas homens e mulheres pecam, homens e mulheres sofrem. Alguma luz é lançada – de forma suprema na cruz – sobre ambas as questões. Mas nenhuma explicação definitiva é oferecida para qualquer um dos dois, tampouco os caminhos de Deus são justificados em relação a eles, em termos aceitáveis pela filosofia humana. Até mesmo no Livro de Jó, que se concentra no problema do sofrimento, Jó por fim humilha-se diante de Deus sem chegar à compreensão da providência divina. Creio que o motivo é o fato de a Bíblia ser simplesmente um livro mais prático do que teórico. Está mais interessada em nos dizer como suportar o sofrimento e vencer o mal do que em filosofar sobre sua origem e propósito.
A Bíblia não é, portanto, basicamente um livro de ciência, nem de literatura, nem de filosofia, mas de salvação.
Com isso, devemos atribuir à palavra salvação o sentido mais amplo possível. A salvação é muito mais do que meramente o perdão dos pecados. Ela inclui o amplo alcance do propósito de Deus de redimir e recuperar a humanidade e, de fato, toda a criação. O que sustentamos a respeito da Bíblia é que ela revela o plano integral de Deus.
Ela começa com a criação, para que possamos saber sobre a semelhança divina em que fomos feitos, as obrigações que repudiamos e as alturas de que caímos. Não somos capazes de entender nem aquilo que somos no pecado nem aquilo que pela graça podemos chegar a ser até que saibamos o que fomos pela criação.
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Talvez nenhuma outra palavra bíblica tenha sofrido tanto a partir do mau uso e da compreensão equivocada do que é salvação. Alguns de nós, cristãos, somos culpados pela caricatura que se tem apresentado dela ao mundo. Consequentemente, a palavra salvação tem sido para muitos fonte de vergonha ou até mesmo alvo de ridículo. Devemos resgatá-la desse conceito tacanho com o qual a palavra tem sido com frequência degradada. Pois salvação é uma palavra grande e nobre. Salvação é liberdade. Sim, e também renovação; em última instância, a renovação do universo inteiro.


Nota: este é um trecho do lançamento da Ultimato: Para Entender a Bíblia, de um dos mais famosos expositores bíblicos, John Stott.

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Conhecido no mundo inteiro como teólogo, escritor e evangelista, John Stott é autor de mais de quarenta livros, incluindo A Missão Cristã no Mundo ModernoA Bíblia Toda, O Ano TodoPor Que Sou CristãoO Discípulo RadicalOs Cristãos e os Desafios Contemporâneos e o campeão de vendasCristianismo Básico. Stott foi pastor emérito da All Souls Church, em Londres, e fundador do London Institute for Contemporary Christianity. Foi indicado pela revista Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo.

Para Entender a Bíblia – John Stott

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014


Para Entender a Bíblia é uma das obras mais elucidativas sobre as Escrituras.
O que é a Bíblia?
Por que ela foi escrita?
Como interpretá-la?
Para alguns, a Bíblia não passa de uma coleção de mistérios e símbolos exotéricos, ou ainda um punhado de fábulas complicadas. Para todos os tipos de leitores, o teólogo e escritor inglês John Stott escreveu Para Entender a Bíblia.
Para Entender a Bíblia fala da história, da teologia, da autoridade, da geografia e da interpretação da Bíblia. Dos textos complicados e misteriosos às aparentes contradições, John Stott guia o leitor pelas páginas das Escrituras desafiando a própria fé e a espiritualidade superficial dos nossos dias.

Os segredos da maturidade cristã estão prontos para serem descobertos nas Escrituras por todos aqueles que os buscam. Há uma amplitude na Palavra de Deus que poucos de nós conseguem depreender, uma profundidade que raramente sondamos.
 John Stott

O Autor – Conhecido no mundo inteiro como teólogo, escritor e evangelista, John Stott é autor de mais de quarenta livros, incluindo A Missão Cristã no Mundo Moderno, A Bíblia Toda, O Ano Todo, Por Que Sou Cristão, O Discípulo Radical, Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos e o campeão de vendas Cristianismo Básico. Stott foi pastor emérito da All Souls Church, em Londres, e fundador do London Institute for Contemporary Christianity. Foi indicado pela revista Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo.


Ego Transformado de Timothy Keller é o novo livro das Edições Vida Nova

terça-feira, 9 de dezembro de 2014


Quais são as marcas de um coração sobrenaturalmente transformado?
Essa é uma das questões sobre as quais o apóstolo Paulo trata quando escreve à igreja de Corinto. O interesse real dele não é algum tipo de reparo ou remendo; antes, uma mudança profunda, capaz de transformar a existência.
Numa era em que agradar as pessoas, insuflar o ego e montar o curriculum vitae são vistos como os meios para “chegar lá”, o apóstolo nos chama a encontrar o verdadeiro descanso na bênção que é nos esquecermos de nós mesmos. 
Neste livro breve e contundente, Timothy Keller mostra que a humildade que brota do evangelho torna possível pararmos de vincular cada experiência e cada conversa com a nossa história e com quem somos. E assim podemos ficar libertos da autocondenação. Quem é realmente humilde segundo o evangelho não se odeia, mas também não se ama... é, antes, alguém que esquece de si mesmo. Você também pode conquistar essa liberdade...

leia um trecho aqui

Timothy Keller é fundador e pastor-titular da igreja Redeemer Presbyterian Church, em Nova York. É autor de A cruz do Rei, Justiça generosa, Como integrar fé e trabalho e O significado do casamento, publicados por Edições Vida Nova. Seus títulos A fé na era do ceticismo e O Deus pródigo já ocuparam as listas de mais vendidos do New York Times. Por meio da rede Redeemer City to City, projeto que já possibilitou a criação de 200 igrejas em 35 importantes cidades do mundo, Keller é mentor de vários jovens que plantam igrejas e de pastores de igrejas urbanas em Nova York e em outras cidades.

O que C. S. Lewis pensava sobre a morte?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014


No dia 29 de novembro, C. S. Lewis, se vivo, completaria 116 anos. No 22 de Novembro, relembramos 51 anos da sua morte. Lewis teve uma série de complicações de saúde, após a morte de sua amada esposa Joy, como obstrução da próstata, insuficiência renal, e problemas cardíacos, que foram a causa imediata de sua morte.

Essa é uma ocasião propícia para nos lembrarmos do que ele pensava a respeito da morte. Há uma série de conjecturas a esse respeito. Baseado em “O Grande Abismo”, há quem defenda que Lewis cresse no purgatório e eu respeito. Mas a meu ver, muitas dessas suposições, como que ele acreditasse também em fadas e duendes e extraterrestres (devido à sua trilogia espacial), apontam para uma incompreensão de sua verdadeira arte, que era a da ficção, ou do que ele chamava de “romance”. O grupo de amigos a que ele pertencia, os “Inklings” (que incluía J.R.R. Tolkien, entre outros) praticava essa arte e sua “teologia”, entendida como “teologia do romance” (mas também pode ser chamada de “mitopoiesis” ou “teopoeisis”). O que essa arte narrativa tem em comum com a mitologia (“mythos” = narrativa) é o apelo à imaginação.

Assim, Lewis, que também era um especialista em Idade Média, acreditava no purgatório como ele acreditava em todas as crenças provenientes do imaginário medieval: ele as respeitava como sendo narrativas que fizeram história. O modelo medieval de pensamento foi por ele explorado de todos os ângulos em seus escritos acadêmicos (que tive o privilégio de traduzir a começar por “Alegoria do Amor”, lançado pela Editora É­Realizações). Mas como o próprio Lewis afirma em “A Imagem Descartada” (próximo livro a ser lançado), essa visão de mundo, por mais interessante que seja intrinsecamente, é falsa em vários pontos, como na crença de que a Terra fosse o centro do sistema solar.

Respeitar um imaginário e valer-se dele não significa que se acredita nele literalmente. É claro que o que Lewis cria mesmo ou deixava de crer, só saberemos com certeza quando nos unirmos a ele no Céu, que era para ele o real destino da humanidade. A famosa frase de que essa vida é uma “Terra das Sombras”, foi pronunciada no leito de morte de Joy, como se pode ver no filme com o mesmo nome. Essa ideia lembra o Salmo 102.11, que diz, referindo-se à vida terrenal: “A minha vida é como as sombras do anoitecer; vou secando como o capim”.

Foi na morte de Joy que Lewis se confrontou de maneira mais séria e real com a temática. Em “A Anatomia de uma Dor”, Lewis dá vazão a todo o sofrimento envolvido na perda da esposa. Nela, ele compara Deus a um dentista e a um carrasco. Considero esse o “livro de Lamentações” de Lewis. A prova de que ele não perdeu a fé, mas superou a dor e sofrimento, está em “Cartas a Malcolm”, obra publicada postumamente e escrita depois de “A Anatomia...” que acredito ser o livro que mais fala sobre a espiritualidade cristã.

Antes de tudo, porém, a morte significava para Lewis o afloramento de vida, da vida verdadeira, da verdadeira realidade, que vai muito além da realidade espaço temporal. Em carta, escrita em 28 de junho de 1963 para Mary Willis Shelburne ­ perto de sua própria morte, portanto ­ Lewis usa novamente de toda a sua arte narrativa e imaginativa, falando da morte em termos metafóricos e proféticos: 

Imagine-se como sementinha pacientemente hibernando enterrada na terra; à espera do afloramento no tempo que o jardineiro achar melhor, para o mundo real, para o verdadeiro despertamento. Suponho que toda a nossa vida presente, quando olharmos para trás, a partir daí, não parecerá mais, do que um devaneio sonolento. Este é o mundo dos sonhos. Mas o galo está para cantar. E está mais próximo agora, do que quando eu comecei a escrever esta carta. (Tradução da autora)

Nota: Clive Staple Lewis nasceu em Belfast, Irlanda, em 29 de novembro de 1898 em morreu em 22 de novembro de 1963, aos 65 anos.


Gabriele Greggersen é mestre e doutora em educação (USP) e doutoranda em estudos da tradução (UFSC). É autora de O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética e tradutora de Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Costuma se identificar como missionária no mundo acadêmico. É criadora e editora do site www.cslewis.com.br

Filhos da batina

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014


Por mera coincidência, na mesma cidade (Brasília) e quase na mesma semana, aconteceram duas coisas que se relacionam. Primeiro: Maria Helena de Aguiar, de 31 anos, funcionária da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência tornou público*, no dia 23 de outubro, um segredo guardado por 25 anos a pedido da mãe, que é filha de padre. Segundo, o falecimento, no dia 05 de novembro, do padre casado Raimundo Nonato Silva, da Ordem dos Capuchinhos, ordenado há 69 anos e casado nove anos depois. Nonato é autor do pequeno livro “Filhos da Batina” (na Europa se fala “Enfants Du Silence”).

Além de citar o nome de alguns brasileiros notáveis que eram filhos de sacerdotes, como Clóvis Beviláqua (o maior jurista brasileiro), José do Patrocínio (célebre abolicionista) e José de Alencar (notável romancista), Nonato Silva explica que no passado havia padres que geravam filhos em pleno exercício sacerdotal, como pároco e vigário sem que a população os censurasse e as autoridades eclesiásticas os molestassem. Nesse tempo (séculos 17, 18, 19 e primórdios do século 20), para muitos padres a lei do celibato era como que inócua. Depois, as coisas mudaram sob o ponto ético: os padres afastavam-se das funções sacerdotais por vontade própria ou por imposição episcopal e casavam-se no civil ou viviam maritalmente.

Depois do Vaticano II, eles se desincompatibilizavam do múnus sacerdotal e casavam-se, ora no civil ora no religioso. No ano em que escreveu o seu “Filhos da Batina” (2000), o recém falecido padre Nonato (os padres casados continuaram padres mas não podem exercer o sacerdócio) estimava que haveria cerca de 100 mil padres casados no mundo e 300 mil filhos de padres (no caso de haver três por casal). Maria Helena, de Brasília, é uma delas.
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Em entrevista à seção Cotidiano, do jornal Folha de S. Paulo, do dia 23/10/2014. Este texto foi escrito – mas não publicado – para a seção “Mais do que notícias” da revista Ultimato. Leia pequenos textos desta seção em edições anteriores de Ultimato.
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