Os Discos que não ouvi em 2015

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

E
sta não é uma lista de fim de ano, muito menos uma justificativa para a ausência de um ranking de melhores discos e filmes de 2015 no blog. Esta é, na verdade, uma postagem que exalta o penoso ofício de consumir arte em ritmo lento — algo que descobri há alguns anos e tive de aperfeiçoar nos últimos 12 meses.

Slow Movement é um movimento cultural iniciado nos anos 80 com o irônico slow food — o nome deixa claro do que se trata — e rapidamente aplicado a outras vertentes: slow moneyslow fashion,slow cinema, etc. Em resumo, se trata de viver de forma mais lenta, desfrutando de forma aprofundada das relações humanas e freando o consumismo.
Em abril de 2015, me tornei pai de uma moreninha com olhos de jabuticaba e, naturalmente, dediquei a maior parte do meu tempo à ela desde então. Olhando a pasta de downloads e os discos no Spotify, não passei de 15 álbuns novos neste ano. Um recorde negativo (?) para quem está habituado a ouvir, analisar e escrever sobre os lançamentos recentes.
Neste contexto, o Slow Movement se tornou uma necessidade no meu dia a dia. Entre fraldas, banhos e engarrafamentos no trajeto casa-trabalho-casa, pouco acompanhei dos principais discos, tendências e filmes em cartaz. Como jornalista, me esforcei para manter o ritmo apenas na leitura de notícias de economia e política.
Passada a abstinência dos primeiros dias, me peguei pensando no que cantou Caetano no Festival de 67: “o sol nas bancas de revista / me enchem de alegria e preguiça / quem lê tanta notícia?” Os versos permanecem atuais em tempos de redes sociais: quem curte tantas fotos? Quem vê tantos vídeos? Quem lê tantos tuítes? Quem conta tantos likes?

“Enquanto minha filha crescia, pude perceber o quanto seu ritmo de aprendizado me ensinou”

Com um pendrive lotado de músicas “velhas” no carro, tive a oportunidade de redescobrir nuances, melodias, resignificar frases e encontrar beleza em discos que ouvi na correria em 2014, 2013… Foi na impossibilidade de me atualizar no frenesi da vida moderna que aprendi a enxergar beleza no que estava em minhas mãos o tempo todo.
Até mesmo na Netflix, que lança séries em ritmo alucinado, optei por ver filmes há tempos na lista de pendências. Ironicamente, “O Feitiço do Tempo” (1993) foi uma destas obras que redescobri em 2015. A história do jornalista preso nos eventos de um mesmo dia foi um disparador de reflexões acerca dos valores que damos à vida e às pequenas coisas.
Enquanto minha filha crescia, pude perceber o quanto seu ritmo de aprendizado me ensinou. Examinando cada som, cada gesto e cada cor infinitas vezes, fui entendendo que é na repetição que eles moldam o mundo ao seu redor. Maria degustou cada nova fruta com atenção e curiosidade; cada colherada como se fosse a primeira. Por que não ser assim na vida?
As lições de 2015 deixaram marcas e moldaram o ser humano que pretendo ser em 2016. Que possamos investir mais tempo em fruição estética e menos em ritmo de consumo. Que as listas tirem do foco o que é necessariamente novo ou inovador e abram espaço para o que nos emociona, nos toca de forma sincera e nos muda para melhor.
Mais conteúdo. Menos ritmo.

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Jornalista por formação, cristão por fé e cantautor por pura teimosia. Se equilibra entre ser pai da Maria, esposo da Juliana, nerd, torcedor do Flamengo, jogador de playstation e enxadrista amador, crítico musical e opinador de assuntos aleatórios.

Este texto foi publicado originalmente por Catavento. Conheça você também. Nós recomendamos! http://www.catavento.me/

Conversa entre pai e filho

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Estive ensinando a Bíblia no presídio hoje, filho.
Por que eles estão presos, pai?
Por muitos motivos. Alguns roubaram, outros venderam drogas, uns deles até mataram.”
E estão arrependidos?
Acho que sim, filho. Acho que alguns estão arrependidos. E você, já se arrependeu de algo alguma vez?
Silêncio [...]
Sim. Acho que já pequei umas vinte e cinco vezes, pai. E me arrependi. Mas fiz algo errado uma vez.
O que foi, filho?
Disse a Deus que nunca mais iria pecar. E isso não é verdade, não é mesmo pai? Todo mundo peca, não é mesmo?
Sim, filho. Todos pecamos. O importante é nos arrependermos sempre que pecarmos e pedirmos forças para Deus para não continuar pecando.
Obrigado pai.
Por que, filho?”
Porque você me ajudou a entender isso.
Disse Jesus: 

"Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas."





Sandro Baggio é missionário do Steiger International servindo junto ao Projeto 242 como pastor-mentor, ocasionalmente tradutor e intérprete, escritor. Formado em teologia com ênfase em missiologia pelo SEMITE-RJ, serviu como missionário junto a Operação Mobilização na Europa e à bordo do navio Logos II. Seus dois livros publicados são “Música Cristã Contemporânea” (Editora Vida) e “Intelectualidade Cristã em Crise” (Editora Fôlego).

O que o Natal significa para mim (C.S. Lewis)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015


Há três coisas que levam o nome de "Natal". A primeira é a festa religiosa. Ela é importante e obrigatória para os cristãos, mas, já que não é do interesse de todos, não vou dizer mais nada sobre ela. A segunda (ela tem conexões histórias com a primeira, mas não precisamos falar disso aqui) é o feriado popular, uma ocasião para confraternização e hospitalidade. Se fosse da minha conta ter uma "opinião" sobre isso, eu diria que aprovo essa confraternização. Mas o que eu aprovo ainda mais é cada um cuidar da sua própria vida. Não vejo razão para ficar dando opiniões sobre como as pessoas devam gastar seu dinheiro e seu tempo com os amigos. É bem provável que elas queiram minha opinião tanto quanto eu quero a delas. Mas a terceira coisa a que se chama "Natal" é, infelizmente, da conta de todo mundo.

Refiro-me à chantagem comercial. A troca de presentes era apenas um pequeno ingrediente da antiga festividade inglesa. O Sr. Pickwick levou um bacalhau a Dingley Dell [1]; O arrependido Scrooge [2] encomendou um peru para seu secretário; Os amantes mandavam presentes de amor; As crianças ganhavam brinquedos e frutas. Mas a idéia de que não apenas todos os amigos, mas também todos os conhecidos devam dar presentes uns aos outros, ou pelo menos enviar cartões, é já bem recente e tem sido forçada sobre nós pelos lojistas. Nenhuma destas circunstâncias é, em si, uma razão para condená-la. Eu a condeno nos seguintes termos.

1. No cômputo geral, a coisa é bem mais dolorosa do que prazerosa. Basta passar a noite de Natal com uma família que tenta seguir a 'tradição' (no sentido comercial do termo) para constatar que a coisa toda é um pesadelo. Bem antes do 25 de dezembro as pessoas já estão acabadas – fisicamente acabadas pelas semanas de luta diária em lojas lotadas, mentalmente acabadas pelo esforço de lembrar todas as pessoas a serem presenteadas e se os presentes se encaixam nos gostos de cada um. Elas não estão dispostas para a confraternização; Muito menos (se quisessem) para participar de um ato religioso. Pela cara delas, parece que uma longa doença tomou conta da casa.

2. Quase tudo o que acontece é involuntário. A regra moderna diz que qualquer pessoa pode forçar você a dar-lhe um presente se ela antes jogar um presente no seu colo. É quase uma chantagem. Quem nunca ouviu o lamento desesperado e injurioso do sujeito que, achando que enfim a chateação toda terminou, de repente recebe um presente inesperado da Sra. Fulana (que mal sabemos quem é) e se vê obrigado a voltar para as tenebrosas lojas para comprar-lhe um presente de volta?

3. Há coisas que são dadas de presente que nenhum mortal pensaria em comprar para si - tralhas inúteis e barulhentas que são tidas como 'novidades' porque ninguém foi tolo o bastante em adquiri-las. Será que realmente não temos utilidade melhor para os talentos humanos do que gastá-los com essas futilidades?

4. A chateação. Afinal, em meio à algazarra, ainda temos nossas compras normais e necessárias, e nessa época o trabalho em fazê-las triplica.

Dizem que essa loucura toda é necessária porque faz bem para a economia. Pois esse é mais um sintoma da condição lunática em que vive nosso país – na verdade, o mundo todo –, no qual as pessoas se persuadem mutuamente a comprar coisas. Eu realmente não sei como acabar com isso. Mas será que é meu dever comprar e receber montanhas de porcarias todo Natal só para ajudar os lojistas? Se continuar desse jeito, daqui a pouco eu vou dar dinheiro a eles por nada e contabilizar como caridade. Por nada? Bem, melhor por nada do que por insanidade.




Publicado originalmente em God in the dock ­­ Essays on Theology and Ethics (Deus no banco dos réus – Ensaios sobre Teologia e Ética), 1957.
[1] Samuel Pickwick é o personagem principal de Pickwick Papers, romance de Charles Dickens no qual suas aventuras são narradas. Dingley Dell é o nome de uma fazenda, um dos cenários do romance. (N. do T.)
[2] Referência ao avarento milionário Ebenezer Scrooge, personagem da obra Um Conto de Natal, de Charles Dickens.(N. do T.)Tradução: © 2006 MidiaSemMascara.org

Questionamentos

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015


Sempre temos a impressão de que há coisas na vida que precisam mudar. Levamos essa concepção para nossa casa, nosso trabalho. Até mesmo pro nosso casamento. Cogitamos todos estes ambiente, mas muito pouco sobre mudanças na igreja. Talvez seja pela tradição de que a instituição não pode ser questionada. Mas como imaginar um seguimento que faz coisas contrárias as que seu mentor ensinou? Como ter em mente como inquestionável uma instituição que levanta muros derrubados? Que cria burocracias impedindo o acesso de muitos? Que dá a sua tradição mais relevância do que os próprios ensinamentos de seu mestre?
Somente o levantamento destas questões pode realmente nos levar a um veredito. Este nos dará duas escolhas. A primeira é a omissão, que aliás é coisa típica do movimento. A segunda porém será uma mudança radical de paradigmas nos quais padece a igreja. Esta mudança é vital e não se pode mais fugir. Afinal, não podemos mais fingir que está tudo bem. Colocar a roupa domingueira e o álibi de cristão fiel já não faz mais diferença. Nossa resposta tem que ser mais forte do que uma mera encenação religiosa. A sociedade que nos cerca anseia ver Cristo em nossas ações. É necessário que os sinais do reino sejam escancarados a todos que nos cercam.
É urgente uma tomada de posição. É intrínseco a igreja reler suas doutrinas e tradições. Amolda-las a Sagrada Escritura não pode ser uma opção e sim uma regra imutável. Pensar nessas coisas não é algo bem vindo e visto com bons olhos para a maioria da liderança institucional. Devemos decidir a quem servimos. Se é a um Deus tão limitado, permaneçamos então adormecidos em nossas mazelas. Mas se é a um Deus de graça, grande e poderoso, façamos então dele nosso Deus somente. De seus mandamentos nossos propósitos, de seu legado nossa missão.

A campanha da Globo e a legalização do aborto

quinta-feira, 19 de novembro de 2015


Dizer que fiquei chocada com a campanha da Globo em favor do aborto seria um exagero, pois não foi exatamente esse sentimento que me acometeu, pois, a gente se escandaliza fácil com o inesperado e o que vai contra a moral e os bons costumes. Na verdade, não fiquei muito surpresa, pois C.S. Lewis já me preparou para coisas desse tipo que não passam de um sinal do modernismo e, mais recentemente, do pós-modernismo, caracterizados pelo egoísmo, individualismo e subjetivismo.

Nesse vídeo, atores globais, homens e mulheres, usam um vestido cor de rosa e uma peruca para representar uma grávida, enquanto declamam, intercaladamente o texto. A mensagem central, a meu ver, após afirmar a repressão da mulher que, grávida, não pode reclamar e tem que permanecer bonita, é a que questiona: “e se ela foi estuprada, e se ela não quiser um filho, não pode abortar...”

Veja, aqui se coloca lado a lado duas situações completamente diferentes: uma objetiva, de estupro, e outra de desejo, não querer o filho, como se todos os casos de criança indesejada fossem desse tipo. E pela forma como está sendo colocado, a ênfase está no querer ou não querer a criança, e não no crime. Mas as conclusões são aplicadas a todos os casos. E o clímax vem logo em seguida, com a frase absolutamente individualista, subjetivista e egoísta, por mais que se diga que não seja: “Meu corpo, minhas regras”, fazendo um jogo de palavras com a menstruação. Como se ter um filho fosse apenas uma questão material, física, corporal e nada tivesse a ver com a vida de uma terceira pessoa (a segunda é a do parceiro, que também não é mencionado).

Em seguida, ser mãe ou não ser mãe, que se transforma em ser mulher ou não ser mulher, é disputado na base da brincadeira das pétalas de uma flor, como se fosse uma questão do acaso e da escolha ao léu. O vídeo termina com uma série de mulheres famosas na literatura e com a pergunta: o que é ser mulher, o que é uma mulher? Como se abortar ou não fosse uma questão não de vida ou de morte, mas de identidade subjetiva da mulher.

No final do vídeo, há a reiteração da frase absolutamente hedonista e epicurista: “Meu corpo, minhas regras.” Ora, o lema é adotado por pessoas totalitárias, psicopatas, drogados e viciados em geral e crianças muito mimadas, menos gente de bem e que considera os outros e o bem comum.

Não vou nem me reportar à observação no vídeo, cheia de ironia e deboche, de que a crença no nascimento de Jesus de uma virgem fosse decorrência de um erro de tradução na Bíblia, pois dispensa comentários.

Chamo a atenção antes para a celebração da privação de uma vida para evitar o desconforto de uma mulher que valoriza outras coisas mais do que a vida.

Um blog feminista tenta se defender, apresentando dados, sem citar fontes, de que a legalização do aborto, que é o projeto político que inspirou o vídeo, não aumenta o número de abortos e que a sua criminalização não diminui o seu número. Bem, só se poderia ter certeza sobre isso se o aborto fosse legalizado em vários países e não apenas em alguns, que não são uma amostra representativa.

Segundo as feministas ainda, ser a favor da legalização seria uma forma de proteger a vida das mulheres que teriam mais condições e recursos dos sistemas de saúde para fazer o procedimento de forma legal.

Se fôssemos usar essa lógica, em breve também teríamos que legalizar o roubo e o assassinato, já que a punição não reduz o número de incidências e a legalização contribui para o conforto dos ladrões e dos assassinos. Afinal, “meu corpo, minhas regras”, nem que sejam as de roubar e assassinar.

Isso não significa ser contra nos casos em que o aborto já é permitido no Brasil, como no caso de recomendação médica. Significa ser a favor da vida, como qualquer criança seria. Que tal perguntar às crianças, que são as maiores interessadas, o que acham do aborto?

Nota:
1. Já existe um vídeo com crianças, mas, ao meu ver, muito induzido por adultos. Eu faria uma enquete sem rodeios, perguntando às crianças simplesmente o que elas acham do aborto, explicando-lhes obviamente, de forma objetiva, o que é isso.




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É mestre e doutora em educação (USP) e doutora em estudos da tradução (UFSC). É autora de O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética e tradutora de Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Costuma se identificar como missionária no mundo acadêmico. É criadora e editora do site www.cslewis.com.br

Protestantes que não protestam

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Não há um justo, sequer um…” Romanos 3.9-18
 Só tu me remiste, Deus da verdade.” Salmo 31

Cuidemos do princípio protestante, como lembrava Paul Tillich. Este imprime a intuição sobre a função histórica do protestantismo. Ele desmascara os ídolos religiosos, os santos e as imagens, como as máscaras da religião, os ídolos políticos, os governantes, os pastores, e o próprio “status quo” das igrejas oficiais e influentes quanto ao exercício das leis que regem uma nação, e do moralismo hipócrita das elites burguesas eclesiásticas ou pretensamente cristãs.

Sobre tais assuntos, regidos por três pontos: “Sola Gratia”, “Sola Fide” e “Sola Scriptura” (Só a Graça, Só a Fé e Só a Escritura). “Só a Escritura” é um princípio que evoca o esforço de volta às fontes do Cristianismo.

A Reforma, no tabuleiro das políticas ocidentais, deu o xeque-mate ao mundo espiritual imperialista, autoritário, absoluto, que pretendia governar o mundo com vestes clericais e símbolos religiosos que impõem poder aos tiranos, dão-lhes a força das armas e poder político absoluto, enquanto enfraquece os suspiros dos oprimidos. O poder político-religioso era questionado desde as fortalezas e portões de ferro que separavam pobres e fracos dos dominadores imperiais e poderosos.

Em questão as denúncias protestantes: “prerrogativas do estado religioso sobre o estado civil”; “prerrogativas de instâncias religiosas oficiais sobre a interpretação das Escrituras”; “prerrogativas divinas para os mestres da igreja”; “prerrogativas para convocar a igreja aos concílios, para receberem suas orientações” (conformação tirânica aceita por consenso inautêntico). Representando a tirania eclesiástica, uma igreja na Alemanha mantinha 17.413 relíquias sagradas, para as quais se exigia veneração mediante pagamento de indulgência, comportando 128.000 anos de "direito à salvação do inferno, e lugar garantido no céu".

A Reforma afirma que a Graça vem da iniciativa de Deus, e não pela oferta da salvação homologada pela Igreja; a Salvação é a “fides” concreta, “fides incarnata”, fé ativa nas obras que libertam. O discipulado cristão vem em primeiro lugar, pelo testemunho libertador das Escrituras, em favor das liberdades humanas.

Necessitamos do protestantismo bem identificado, porque nem todos evangélicos são “protestantes”, no rigor do termo. Nada, no mundo eclesiástico, é mais representativo da Reforma que o movimento pela unidade dos cristãos, sob a orientação revolucionária, em torno de diaconias libertárias.

O CMI (Conselho Mundial de Igrejas) e suas filiadas, representam um movimento de solidariedade aos oprimidos do mundo inteiro. Inclusive a Criação, o Planeta Terra, aviltados e espoliados; inclusive os desterrados e refugiados, banidos, excluídos, os pobres, os famintos, em todos os quadrantes do mundo habitado (“oikumene”).

A oração ecumênica, pronunciada em todas as línguas e dialetos, em toda a parte, evoca a confiança que as Escrituras oferecem aos cristãos: "Na nova era, a comunidade mundial será redimida. Sob a égide de Deus, estabelece-se uma nova etapa na história do mundo. O relacionamento com Deus será tão íntimo que Deus se dispõe a responder aos oprimidos mesmo antes que estes o procurem. A oração ecumênica: Deus, em tua Graça, transforma o mundo, é também o clamor do cristianismo ecumênico". Nos opositores da Reforma se encontrará também uma espécie de ódio filial à própria matriz comum da Igreja Apostólica total, geral (“ekklesia katholikos”).

A misericórdia de Deus se apresenta aos homens e mulheres pecadores presos aos sistemas de pensar do passado autoritário; sua compaixão pelos pecadores presos à sua religião e doutrinas, como a do particularismo denominacional, ou religioso, se manifesta. Porque os homens e as mulheres, além de não encontrarem salvação em suas obras, não se salvam nem de si mesmos e nem da corrupção ou depravação que os acompanham (João Calvino). Comentando o Catecismo de Calvino, Karl Barth diz mais: “É Deus quem toma a iniciativa de salvação; é Deus que vem ao encontro do homem para salvá-lo”.

Nada levará à salvação, libertação material ou espiritual; nada se assemelha à gratuidade divina. Lutero diria mais, escrevendo a Melanchton angustiado por sentir que não podia livrar-se por si mesmo do pecado: “Esto peccator et pecca fortiteter, sed fortius fide” (“seja um pecador, e peca fortemente, mas creia ainda mais firmemente”; esteja confiante na graça da salvação).

Teses da Reforma, hoje, não passam de “lembranças nebulosas”, em várias situações. Protestantes “não protestam mais”, ao que parece. Resignam-se ou se submetem aos poderes opressores. O corporativismo evangélico funciona como uma mordaça, não lembra a unidade na Reforma, nem de longe. Mas, "se todo mundo é evangélico, ninguém é evangélico” (Luiz Longuini Neto).

Resta dizer que a oikumene compreendia a Igreja católica, originalmente universal, abrangente, total (katholikos), no Protestantismo emergente. A democracia do laós (povo) de Deus, nunca existiu na totalidade, ao que parece, porque ainda está por vir. Ou, se existe em muitas comunidades reformadas, está por restringir-se, ou em retrocesso, onde foi alcançada. Creio. 

Essa era a Igreja que restara do cisma de 1054, no Ocidente. O princípio “Igreja reformada sempre se reformando” vigia desde séculos, segundo a patrística cristã. Reformava-se a Igreja dentro da Igreja. Nenhum reformador falou da criação de outras igrejas. Menos de dois séculos depois, a Reforma era traída pelo denominacionalismo individualista e, posteriormente, pelo evangelicalismo exclusivista. Protestantes são apontados como crentes que não protestam mais.




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É pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância" (2013) e "O Dragão que Habita em Nós” (2010).

“Onde as crianças dormem” do fotógrafo Magnus Wennman

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Aftonbladet, portal de variedades da Suécia publicou a série “onde as crianças dormem” do fotógrafo Magnus Wennman. Como é a noite para algumas das crianças sírias que fugiram da guerra civil. As fotos alcançaram todo o mundo através das mídias sociais. A intenção do fotógrafo é levar as pessoas a reagirem.
-Isso é o mais importante para um jornalista. Fazer as pessoas reagirem ao que você faz, diz Magnus.
O objetivo da série de reportagem é apenas isso: Abrir os olhos para a forma como as crianças afetadas pela guerra civil na Síria tem vivido. Quatro milhões de pessoas até agora fugiram da Síria. Mais da metade dos refugiados sírios são crianças.
-Quero que as pessoas se envolvam e doem à causa. Agências de ajuda humanitária como o ACNUR tem sido incrivelmente importante para dar à estas crianças abrigo, um lugar para dormir, um cobertor e comida, diz Magnus.

Até quando?

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Não é incrível como a mesma história se repete? Você liga a TV e no Jornal a notícia de mais uma vítima de tiroteio. Mais uma vítima da guerra sem fim entre policiais e traficantes. Não é revoltante que casos assim estampem os jornais mais uma vez?

Comunidade faz manifestações, se mobiliza em revolta, ateia fogo em pneus em sinal de protesto por mais uma morte, por mais um inocente assassinado por uma bala que não se sabe de qual lado partiu.
Os Moradores acusam a Polícia. A Polícia acusa os Traficantes. E nessa disputa irão ficar até a poeira abaixar e não sobrar mais nada a não ser a triste memória do garoto Herinaldo de 11 anos, atingido na cabeça ao sair de casa para comprar uma bola de pingue pongue. A família terá de conviver com a injustiça, de não saber os culpados. Ouvirão apenas o silêncio da omissão de quem deveria fazer alguma coisa.

Não é absurdo que as autoridades nem mesmo irão se manifestar? Que o máximo que farão é enviar uma nota à redação dos noticiários dizendo que irão abrir uma investigação. E essa tal investigação nem mesmo sairá do papel. Pois quem irá acompanhar o processo? Quem cobrará depois?

Não é ridículo que o preconceito ainda mova tantos à falar inverdades e caluniar inocentes?

“Se morreu é porque estava envolvido com coisa errada! À toa ninguém morre! ”

Não é insuportável? 

Até quando iremos assistir a esse circo e achar normal? Será que ainda resta sensibilidade em nós? Isso não pode ser apenas mais uma baixa, precisa ser um grito de repúdio. Justiça precisa ser reclamada. Que nossa voz se una, que nossa indignação gere a busca por uma sociedade que demostre compaixão e abomine o preconceito. Que os mais pobres não pereçam a mercê da irresponsabilidade das autoridades desumanas. Se você, assim como eu, sente pesar por mais essa trágica perda, é sinal que ainda não tiraram de nós a humanidade de nos consternarmos pelo próximo.

Em nome de quem?

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Hoje virou moda colocar frases de pessoas famosas na rede social, e se a pessoa acabou de morrer, aí vira febre.
No começo da popularização da internet no Brasil, tinha muita corrente de e-mails, me lembro do Luis Fernando Veríssimo ter reclamado que as pessoas escreviam qualquer bobeira e assinavam o nome dele, logo o texto virava um viral e ele tinha que ir na mídia desmentir o texto.
As pessoas não buscam mais as fontes, o contexto ou o sentido das frases. O simples fato de colocar um nome de respeito na assinatura faz a baboseira ganhar audiência.
Acredito que isso acontece o tempo todo com o nome de Jesus, pessoas falam e oram em nome dele, mas o discurso não tem nada a ver com a pessoa e a mensagem do Cristo.
Com um agravante, tem um versículo de Paulo na sua carta aos filipenses que diz: “Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome”. Se acharmos que o poder está no nome, desassociado da pessoa e da mensagem, cometemos uma heresia super perigosa, a mesma heresia do livro “O Nome de Jesus” de Kenneth Hagin, que acabou se tornando o livro pai da Teologia da Prosperidade, que devastou e saqueou milhares de famílias, usando de má fé a o nome de Jesus, sem ter nada a ver com o Cristo narrado na bíblia.
Com essa reflexão e com essa charge, que vale mais do que mil palavras, gostaria de deixar o versículo:
Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres? ’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem- se de mim vocês, que praticam o mal.”
Mateus 7:21-23
Mais imagens e reflexões no Instagram @marcosbotelho
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Marcos Botelho é Missionário da Missão Jovens da Verdade e da SEPAL (Servindo Pastores e Líderes). Fundador e líder do ministério JV na Estrada que trabalha em congressos e campamentos com recreação, teatro e preleção. Criador e professor do curso modular chamado Ministério com Juventude, livre e pós-graduação, realizado no seminário do JV/FLAM desde 2006. Fundador do ministério Terra dos Palhaços Brasil vinculado ao JV e a MPC. Pastor de Jovens e adolescentes da ipalpha

Uma crítica a partir de nós

terça-feira, 23 de junho de 2015


Há algo muito errado em nossa sociedade. Estamos sempre armados e carregados de preconceitos e opiniões extremistas à assuntos que dependem de reflexão e ponderação. Não conhecemos e não queremos de modo algum sair de nossa ignorância. É mais fácil proferir o julgamento. Muitos assuntos tidos como “polêmicos” invadiram a mídia recentemente e tomaram as capas de revistas, estamparam jornais, reportagens especiais na internet e televisão e ainda assim, as pessoas cortejam a omissão. Bem mais que isso, parecem ter prazer em permanecerem inertes à assuntos que devem e precisam ser discutidos de maneira sensata.

Já os que querem falar, nem sempre pensam em suas palavras e acabam generalizando e nem sequer se aproximam do âmago das questões. A influência negativa que esses tem disseminado em nada difere da preconcepção equivocada da sociedade. É um reflexo irresponsável, enquanto nosso país padece pela falta de referências que apontem um caminho melhor e auxiliem na formação de uma sociedade madura.

Infelizmente a maior parte de nossa sociedade se contenta com uma resposta simples para questões complexas, sem ao menos colocar em debate os pontos obscuros e ainda inconclusivos, querendo respostas prontas sem ao menos ouvir os demais pontos de vista, principalmente àqueles que expressam opiniões contrárias ao nosso convencimento.

Naturalmente que assuntos polêmicos assim não podem ser respondidos com um redondo "sim ou não", ou mesmo com "está certo ou errado”, ou uma razão qualquer que seja evidente e inequívoca para todos. Temos que ir por aproximações sucessivas, ou seja, por respostas diferentes à mesma questão, colocar os temas polêmicos em debate e não nos conformar com as respostas prontas. Daí acredito que venha a expressão ” transformai-vos pela renovação da vossa mente”, seno necessário debate, e afastar toda omissão e toda resposta simplista para questões complexas, pensar e pensar novamente, pois ninguém pensará por nós.

Não há respostas simples para questões complexas, e não haverá política justa, que contribua para acabar com preconceitos, estigmas e marginalização, sem nos abrirmos para o debate com as diversas posições presentes na sociedade como um todo.  




Por Leonardo Carvalho & Gabriel Coutinho

Tom 'bélico' de alguns líderes evangélicos cria clima propício à intolerância, diz pastor


Na semana passada, uma série de denúncias de ataques contra membros e templos de religiões de matriz africana e espíritas tomou a mídia. Em um dos casos mais graves, uma menina candomblecista de 11 anos foi agredida a pedradas na saída de um culto no Rio de Janeiro, o que fez com que o tema da intolerância religiosa voltasse a preocupar lideranças de diferentes matizes.
Sexta-feira, também no Rio de Janeiro, um médium foi encontrado morto com sinais de espancamento, em um caso que ainda não foi esclarecido.
Na opinião de Ed René Kivitz, de 51 anos, que há 26 atua como pastor da Igreja Batista, o momento é de "muita preocupação".
Formado em Teologia e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, Kivitz, que integra o movimento Missão Integral - que congrega diferentes lideranças evangélicas - questiona os argumentos do que considera como algumas "lideranças extremistas".
Para ele, o tom bélico assumido por alguns políticos de origem evangélica e alguns pastores que se utilizam dos meios de comunicação de massa - do "nós contra eles" - cria um "clima propício para que gente doente, ignorante, mal esclarecida e mal resolvida dê vazão ao seus impulsos de violência e de rejeição ao próximo".
Em entrevista à BBC Brasil, Kivitz se disse a favor dos direitos LGBTs, por entender "que são cidadãos, independentemente da minha concordância com a orientação sexual ou a identidade de gênero que eles têm" e contra a redução da maioridade penal. Sobre o aborto, manifestou-se contrário, mas "a favor de uma melhor compreensão da legislação em termos de saúde pública e da preservação da mulher".
O pastor, que vem se articulando com colegas de diferentes Estados, diz que "a face evangélica que está exposta para o imaginário coletivo do brasileiro é a face mais grotesca, mais triste, e que não representa a índole da Igreja Evangélica brasileira".
Com seu trabalho, ele diz buscar espaço para mostrar um lado mais "ponderado, inclusivo e progressista" dos evangélicos.
Veja os principais trechos da entrevista:
BBC Brasil - Como membro da Igreja Batista, como o senhor vê os casos recentes de intolerância religiosa ocorridos no Rio de Janeiro? É algo que preocupa? Na sua visão, como os líderes evangélicos deveriam se posicionar?
Ed René Kivitz - Me preocupo muito com a questão da intolerância religiosa sim, embora eu ache que no Brasil isso seja muito localizado, e faça parte de um momento, de um recorte de tempo muito específico que estamos vivendo. Não faz parte da índole do povo brasileiro, e nem da índole cristã, quer seja católica ou evangélica, e evidentemente não faz parte da índole do Evangelho.
Eu acho que é algo isolado, mas preocupante também para a imagem da Igreja Evangélica, que está sofrendo muito por conta dessas lideranças radicais que estão construindo no imaginário da sociedade brasileira uma ideia do ser evangélico que não corresponde à grande parcela da nossa população que se identifica como evangélica.
BBC Brasil - Críticos argumentam que estas lideranças evangélicas que defendem de forma mais acirrada sua agenda moral estariam alimentando um "discurso de ódio" no país. Embora não se possa afirmar isto, o senhor acredita que pessoas com maior tendência à intolerância religiosa possam estar encontrando amparo nestas posições, ao verem figuras influentes no cenário nacional mantendo uma ideologia de confronto e não de conciliação com relação a grupos com visões diferentes, sejam estes grupos de outras religiões, LGBTs, defensores do aborto, minorias, etc?
Kivitz - É preocupante ter uma liderança expressiva desenvolvendo um discurso de "nós contra eles", um verdadeiro contrassenso para uma liderança religiosa, já que não se tolera isso nem de uma torcida organizada de futebol, que dirá de uma figura tida como um orientador, um guia espiritual.
Quando você encontra uma liderança com este discurso, você cria um ambiente propício para que gente doente, ignorante, mal esclarecida e mal resolvida dê vazão ao seus impulsos de violência, de rejeição ao próximo, aos seus ímpetos de prepotência, à sua ambição e sede de poder, à sua personalidade opressiva.
Enfim, não é difícil, quando você cria este ambiente bélico, que pessoas extremadas se sintam legitimadas para os seus atos inadmissíveis. Eu acho que é isso que está acontecendo no nosso país, e acho que infelizmente deve-se fazer este registro que não são os líderes religiosos que incitam ao ódio. Essa expressão é abominável, ela precisa ser riscada do nossos textos. Não é possível que um líder religioso, em sã consciência, esteja incitando o ódio, isso é um tiro no pé.
Mas sim, um discurso bélico, um discurso de confronto, no lugar de um discurso de reconciliação, cria, de fato, um ambiente onde as manifestações violentas tendem a ser legitimadas, ainda que isso seja inconcebível.
BBC Brasil - Sobre os casos ocorridos no Rio de Janeiro, o senhor tem algum posicionamento específico? A menina atacada com pedradas deveria ter sido recebida por mais líderes evangélicos, por exemplo, e não só pelo arcebispo da Igreja Católica e pelo prefeito Eduardo Paes?
Kivitz - Eu recebi a informação de que o pastor da Igreja Batista da Vila da Penha, na Zona Norte do Rio, cancelou as atividades no domingo e encorajou os fiéis a participarem de uma marcha a favor da tolerância religiosa.
O que eu acho é que nós deveríamos dar mais destaque, na mídia, para essas iniciativas de paz e de aproximação. Eu não estou dizendo que deveríamos ocultar os fatos, mas sim que a imprensa deveria dar menos linhas para os fatos ruins e mais linhas para os atos que buscam construir uma sociedade melhor. Outro grupo evangélico do Rio se uniu recentemente para ajudar na reconstrução de um centro de religiões africanas que havia sido queimado por grupos intolerantes, algo pouco noticiado, por exemplo.
BBC Brasil - Caso este momento de tensão continue se expandindo no Brasil, com a atuação da bancada evangélica no Congresso, embates de líderes religiosos com figuras da mídia e grupos LGBT, e discussões polêmicas como a criminalização da homofobia, liberação do aborto e redução da maioridade penal, como o senhor avalia as chances de um maior diálogo a curto e longo prazos?
Kivitz - Para termos um país que possa se considerar legitimamente democrático e republicano, temos que fortalecer tanto as nossas instituições políticas como a participação popular. Temos que valorizar os movimentos sociais, aplicar a lei com vigor a todo ato criminoso, de qualquer natureza e praticado por quem quer que seja. Acho crucial que exista também um estado de alerta na sociedade brasileira, que se levante contra todo e qualquer grupo que pretenda um controle hegemônico.
Quando eu digo um controle hegemônico, quero dizer que uma sociedade se constrói dando vez e voz a todas as formas de expressão de crenças, de culturas, de interesses de grupo. Você não pode permitir que a bancada evangélica seja hegemônica no Congresso, da mesma forma que você não pode permitir que a bancada do PT seja hegemônica. Nós não queremos um país governado por um grupo, por uma cultura ou por uma crença. Nós não queremos um país controlado por uma maioria muçulmana, mas também não queremos um país governado por uma maioria evangélica.
É nisso que eu acho que no Brasil ainda não amadureceu. As pessoas não entendem que quando um deputado evangélico chega à Câmara em Brasília, ele deveria deixar de ser evangélico e se tornar um defensor da cidadania. Claro que ele tem todos os seus valores, convicções religiosas e opções ideológicas, mas ele não está lá para defender a cabeça dele, nem o segmento da sociedade que o colocou lá.
Quando você tem uma sociedade em que um grupo pretende tomar de assalto a voz de todos e impor a sua agenda sobre todos, isso não é uma sociedade democrática, mas sim uma ditadura conquistada no voto. Então a gente tem que bater forte em todo grupo que se pretenda hegemônico, seja ele político, religioso, ou qual for. Inclusive a militância LGBT, que tem que compreender que tem seus direitos, e quem não concorda com ela também tem seus direitos, isso é democracia.
BBC Brasil - Diante dos seus argumentos é inevitável questioná-lo sobre os posicionamentos do atual presidente da Câmara, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que vem protagonizando debates e encampando abertamente a defesa de temas, ao afirmar que a discussão sobre o aborto só ocorreria "sobre seu cadáver" e colocando-se contrário ao casamento gay e a favor da redução da maioridade penal, além de divulgar abertamente sua "agenda da família", conjunto de valores morais base de sua campanha. Como o senhor avalia a influência de um presidente de um Parlamento democrático com estes posicionamentos num país tão polarizado como o Brasil neste momento?
Kivitz - Em vista de tudo que falei anteriormente, este tipo de posicionamento jamais deveria ocorrer, e não coopera em nada com o amadurecimento de uma sociedade democrática.
O voto não é o caminho para que a vontade da maioria se sobreponha à da minoria. O voto deveria ser o exercício do cidadão em discernir o que é melhor para o todo da sociedade, e não para fazer valer o seu ponto de vista sobre esta sociedade.
É este amadurecimento democrático que nós no Brasil ainda não temos e que os nossos líderes políticos não cooperam em nada para desenvolver. Ou seja, eu não posso votar num candidato apenas levando em conta se sou contra ou a favor do aborto, mas sim pensando no que seria um posicionamento justo para a sociedade brasileira com relação à legislação que trata do aborto.
Ao insistir em defender o ponto de vista do seu grupo, você fica num cabo de guerra constante, um puxando para um lado, e o outro puxando para o outro, e não se chega a lugar nenhum, perpetuando-se a relação "nós contra eles".
Quando você tem um presidente do Parlamento tentando impor sobre a sociedade o seu ponto de vista e o ponto de vista do seu grupo, ele não tem índole democrática. Ele não está pensando no bem da sociedade, mas sim apenas na vitória da sua ideologia ou da sua convicção religiosa. Isso contraria inclusive a origem e a história do Protestantismo, que nasce com a defesa da liberdade de consciência, da separação entre Igreja e Estado, a valorização dos direitos individuais, e a luta pela liberdade de expressão. É muito triste ver um líder religioso completamente dissociado do movimento que lhe dá respaldo.
Em outras palavras, essas lideranças evangélicas que estão presentes na mídia e no cenário político brasileiros merecem a hashtag #nãomerepresentam.
BBC Brasil - Neste processo, é possível competir com lideranças evangélicas que compram espaços de emissoras de televisão, o meio de comunicação que ainda exerce maior influência de massa sobre a população brasileira?
Kivitz - A TV no Brasil, de forma geral, ainda se preocupa muito mais com o circo, o sensacional, os embates e os extremos, do que com o diálogo e a discussão construtiva. A mídia tem um papel muito forte nisso. Os movimentos LGBT, por exemplo, são pintados sempre como mocinhos, e os evangélicos todos demonizados como homofóbicos, o que é uma inverdade. Há evangélicos a favor desses direitos, e há extremistas dos dois lados do debate. Mas para o circo da mídia não interessa colocar gente moderada dos dois lados conversando. A face evangélica que está exposta para o imaginário coletivo do brasileiro é a face mais grotesca, mais triste, e que não representa a índole da igreja evangélica brasileira, com a mais absoluta certeza.
Quanto ao espaço comprado por lideranças extremistas, é uma arma poderosa e uma luta desigual, porque estes espaços custam milhões e sabe-se que para conseguir estes milhões, essas lideranças com flexibilidade ética e moral conseguem mais fácil do que aqueles que têm uma consciência moral e respeitosa não só aos seus princípios religiosos e espirituais, como também à massa e à população brasileira.
BBC Brasil - O que podemos esperar a médio e longo prazos deste cenário atual no país? Que papel outras lideranças evangélicas podem assumir neste debate?
Kivitz - Eu gostaria de sublinhar que a liderança evangélica que me representa é uma minoria também. Quando eu ouço as minorias lutando pelos seus direitos e mais respeito às suas vozes, eu me identifico. Sejam os movimentos dos negros, dos LGBTs, das mulheres, dos trabalhadores sem-terra.
Eu também sou uma liderança evangélica que precisa lutar por reconhecimento e espaço, e que muitas vezes sequer é ouvida pela sociedade, como se a Igreja Evangélica fosse uma coisa só, esta coisa apresentada pelos extremistas.
E aí nós fazemos um barulho que, perto dessa estratégica de massa dos radicais, é pequeno, mas ele existe. Por exemplo, nós estamos nos mobilizando contra a redução da maioridade penal, contra o trabalho escravo, pela valorização da criança. Existe uma Igreja Evangélica diferente aí, trabalhando pela sociedade. E há igrejas evangélicas que são uma poderosa ferramenta de transformação social nas periferias de todo o Brasil, isto também precisa ser lembrado.

Quarenta livros que fizeram a cabeça dos evangélicos brasileiros nos últimos quarenta anos

domingo, 21 de junho de 2015


por Ricardo Quadros Gouvêa

Toda lista é pessoal, e esta não é uma exceção, mas busquei seguir aqui critérios objetivos: livros que foram campeões de vendagem, citados e debatidos, que influenciaram e continuam influenciando os evangélicos brasileiros, livros muito lidos com alto índice de rejeição, e também os que hoje estão operando uma mudança paradigmática na cultura evangélica contemporânea. Escolhi no máximo um livro por autor e procurei incluir alguma diversidade cultural e de gênero literário, bem como denominacional e teológica, sem que isso nos tirasse do projeto original: listar os quarenta livros que, nos últimos quarenta anos, fizeram a cabeça do povo evangélico brasileiro. Ordenei a lista por ordem de importância: dos livros mais influentes aos menos influentes dentre os quarenta selecionados, independentemente da data. Divirta-se concordando ou discordando, corrigindo meus equívocos e fazendo sua própria lista.

1. “Mananciais no Deserto” -- Lettie Cowman [Betânia]
Não há outro livro mais amado pelos evangélicos brasileiros. Este campeão de vendagem é um livro de leituras devocionais diárias que conquistou nosso país. O livro é, de fato, bom, mas desconfio que a tradução deu uma mãozinha.

2. “Uma Igreja com Propósitos” -- Rick Warren [Vida]
O maior “best-seller” evangélico de todos os tempos é uma catástrofe literária. É ainda difícil calcular o dano que esta obra equivocada causou e ainda irá causar, com sua filosofia de ministério inteiramente vendida ao “Zeitgeist”, propondo a homogeneização das igrejas e um pragmatismo de dar medo.

3. “A Quarta Dimensão” -- David Paul Yonggi Cho [Vida]
Este livro fez mais pelo movimento pentecostal no Brasil do que qualquer televangelista. O testemunho bem escrito do pastor coreano que vive cercado de milagres causou “frisson” até mesmo nos grupos mais conservadores. Seu modo de ver a vida com Deus e o ministério marcaram as últimas décadas.

4. “A Agonia do Grande Planeta Terra” -- Hall Lindsay [Mundo Cristão]
Calcado no pré-milenismo dispensacionalista de Scofield, este “best-seller” apocalíptico empolgou os profetas do fim do mundo no Brasil, com sua interpretação literalista imprudente e seu patriotismo norte-americano acrítico. Lindsay foi o arauto de três décadas das mais absurdas especulações escatológicas em nossas igrejas.

5. “O Ato Conjugal” -- Tim e Beverly La Haye [Betânia]
Sexo é um assunto importante, e o povo ansiava por uma orientação em face da revolução sexual dos anos 60. Daí o sucesso de um livro bem escrito como este, didático e conservador, ao gosto da moral evangélica, mas sem ser inteiramente obtuso. Mesmo assim, muitos o chamaram de pornográfico. Nada mais injusto.

6. “Este Mundo Tenebroso” -- Frank Peretti [Vida]
A ficção convence mais rápido. Revoluções acontecem inspiradas por romances, e não por tratados filosóficos. Peretti, com seu horror cristão, nos ensinou o significado da batalha espiritual nos anos 80, reencantou o submundo evangélico, inspirou pregadores e, o que não é nada ruim, motivou muitos adolescentes a ler obras de ficção bem melhores.

7. “A Morte da Razão” -- Francis Schaeffer [ABU]
A intelectualidade evangélica adotou este livro como alicerce nos anos 70, para enfrentar o existencialismo, o movimento “hippie”, o marxismo e a contracultura em geral. O livro convencia que o cristianismo não era incompatível com o estudo e a reflexão. É um pena que Schaeffer estivesse tão equivocado em suas idéias centrais.

8. “Celebração da Disciplina” -- Richard J. Foster [Vida]
Este clássico da espiritualidade cristã, escrito por um quacre, fez um tremendo sucesso no Brasil a partir dos anos 80. É excelente, mas será que todos que o compraram de fato o leram? Gostaria de perceber uma maior influência das idéias de Foster em nosso povo, mais oração, silêncio, calma, estudo, empenho, enfim, disciplina espiritual.

9. “De Dentro para Fora” -- Larry Crabb [Betânia]
Os livros devocionais evangélicos de viés psicológico ou de auto-ajuda são os títulos que mais vendem. Dentre eles, alguns se destacam não só por serem campeões de vendagem, mas porque são os melhores do gênero. Crabb é o melhor autor do gênero e este é seu melhor livro, que impactou o nosso povo nos anos 90.

10. “Louvor que Liberta” -- Merlin R. Carothers [Betânia]
Este pequeno e poderoso manifesto em forma de testemunho revolucionou, nos anos 70, o louvor e a adoração no Brasil. O bom capelão ensinou a todos nós a espiritualidade da adoração, o poder do louvor, impulsionando as guerras litúrgicas que marcariam a vida de nossas comunidades a partir de então. 

11. “Vivendo sem Máscaras” -- Charles Swindoll [Betânia]
Outro “best-seller” devocional dos anos 90, de viés psicológico e de auto-ajuda, com o vigor característico das obras de Swindoll, escritas a partir de suas pregações. Muitos se sentiram não apenas edificados, mas tocados e transformados.

12. “A Cruz e o Punhal” -- David Wilkerson [Betânia]
Outro opúsculo dos anos 70 que, na forma de um testemunho pessoal, inspirou os jovens evangélicos a uma fé mais comprometida. Curiosamente, não levou as igrejas a um investimento em missões urbanas, idéia que permeia todo o livro. Talvez o Brasil evangélico dos anos 70 não estivesse pronto para missões urbanas.

13. “Crer é Também Pensar” -- John Stott [ABU]
Stott é um ícone no Brasil, um nome respeitado pela sua erudição e sua notável produção literária, apesar de estar invariavelmente sob suspeita de heresia pelos mais neuróticos. O fato é que a qualidade de seus livros varia. Seu excelente “Ouça o Espírito, Ouça o Mundo” merece mais atenção. Já o opúsculo selecionado, tão conhecido desde os anos 70, não tem muito a dizer além do título.

14. “O Senhor do Impossível” -- Lloyd John Ogilvie [Vida]
Outro devocional que emplacou no Brasil nos anos 80, não sem méritos. É o maior sucesso do autor, ainda que inferior a “Quando Deus Pensou em Você”, que o antecedeu. O livro estimula a fé e nos faz mais esperançosos, apesar da teologia rasa.

15. “A Família do Cristão” -- Larry Christenson [Betânia]
Antes de Dobson e tantos outros, Christenson já era “best-seller” nos anos 70. Pioneiro entre os que se pretendem auxiliares da vida familiar cristã, ele foi estudado nos lares por grupos e células, em escolas dominicais etc. Sua eficácia é comprovada.

16. “O Jesus que Eu Nunca Conheci” -- Philip Yancey [Vida]
Os anos 90 assistiram ao aparecimento de um dos mais argutos e estimulantes autores evangélicos de todos os tempos: o audaz Yancey, que começou a apontar para o paradigma emergente em livros como “Alma Sobrevivente”, “Descobrindo Deus nos Lugares mais Inesperados”, “Maravilhosa Graça”, “Rumores de Outro Mundo”, “Decepcionado com Deus” e tantos outros livros excelentes. E o mais conhecido e lido parece ser mesmo “O Jesus que Eu Nunca Conheci”.

17. “O Discípulo” -- Juan Carlos Ortiz [Betânia]
Poucos livros foram tão impactantes nos anos 70 quanto esta obra que, excepcionalmente, não vinha do mundo anglo-saxão, mas da Argentina. Por isso mesmo, Ortiz tinha uma outra linguagem, um discurso que convencia os jovens brasileiros da seriedade e do valor de se tornar mais do que um mero freqüentador de igrejas, um genuíno discípulo de Cristo.

18. “Bom Dia, Espírito Santo” -- Benny Hinn [Bompastor]
O neopentecostalismo brasileiro é, em grande parte, de inspiração norte-americana. Talvez o nome mais importante nesse processo seja o do “showman” evangélico Benny Hinn, que desde os anos 90 assombra os norte-americanos pela televisão com seus feitos espetaculares. Mesmo quem não o leu conhece sua influência no Brasil. 

19. “O Refúgio Secreto” -- Corrie Ten Boom [Betânia]
O testemunho desta nobre senhora holandesa encantou também o Brasil, onde seu livro foi um grande sucesso nos anos 70. Suas aventuras durante a Segunda Guerra Mundial, sob o pano de fundo de sua educação em um lar cristão, são comoventes e inspiradoras. 

20. “A Autoridade do Crente” -- Kenneth Hagin [Infinita]
Hagin foi um divisor de águas no mundo evangélico, pois desde sua influência os crentes “tomam posse”, “determinam”, “amarram” e “exigem”. Uma nova forma de falar se fez presente, o que gerou muitas novas piadas também.

21. “Entendes o que Lês?” -- Fee e Stuart [Vida Nova]
Que bom que um livro sério como este foi tão lido e estudado no Brasil. Trata-se de um compêndio de hermenêutica bíblica sem complicações, em linguagem acessível, adotado por quase todos os seminários e estudado até mesmo nas EBD’s e pequenos grupos. Este livro fez muito pela educação bíblica dos evangélicos brasileiros.

22. “Culpa e Graça” -- Paul Tournier [ABU]
Não há, com raras exceções, psicólogo cristão que não considere este livro um fundamento e um marco do pensamento cristão. Mas ele não se limita a isso, tendo tido considerável influência na teologia evangélica brasileira nos anos 90, preparando nosso povo para o paradigma emergente do século 21. 

23. “Novos Líderes para Uma Nova Realidade” -- Caio Fábio D’Araújo Filho [Vinde]
Este opúsculo foi, se não o mais lido, certamente o mais importante dos numerosos livrinhos do pastor Caio Fábio, fenômeno de popularidade no Brasil nos anos 80 e 90, pastor midiático, influente, contundente, imitado, adorado e odiado. Caio nos ensinou a ver as coisas de outro jeito, e seu legado não vai desaparecer. 

24. “Vida Cristã Normal” (ou “Equilibrada”, na reedição) -- Watchman Nee [Editora dos Clássicos]
O controverso evangelista e autor chinês Nee teve muita influência nos anos 70 e 80, com sua visão mística do que significa ser um cristão evangélico conservador. Este livro foi seu maior sucesso, um comentário de Romanos, ainda que seu livro mais objetivo e claro seja “A Liberação do Espírito”.

25. “É Proibido” -- Ricardo Gondim [Mundo Cristão]
Gondim é um dos melhores e mais polêmicos autores evangélicos contemporâneos. Seus livros, como Eu Creio, Mas Tenho DúvidasO que os Evangélicos (Não) Falam, Orgulho de Ser Evangélico, são sempre interessantes. Nenhum, porém, foi tão influente e marcante como “É Proibido”, um verdadeiro libelo anti-legalista.

26. “Conselheiro Capaz” -- Jay Adams [Fiel]
Adams era uma pessoa muito simpática. Sua escola de aconselhamento cristão é muito antipática. Diferentemente de Crabb, por exemplo, problemas emocionais têm origem fisiológica ou pecaminosa. Por isso, é preciso confrontar as pessoas e insistir na mudança do seu comportamento. Foi um sucesso nos anos 80. Haja behaviorismo! 

27. “Quebrando Paradigmas” -- Ed René Kivitz [Abba Press]
Este livro foi decisivo para que os evangélicos brasileiros começassem a enxergar a outra margem do rio, a margem pós-evangélica do paradigma emergente. Kivitz é um autor surpreendente e notável, de mente dinâmica e arejada, que propõe importantes rupturas e renovações, como em seu outro livro “Outra Espiritualidade”.

28. “O Amor Tem Que Ser Firme” -- James Dobson [Mundo Cristão]
O conhecido “Dr. Dobson” é pensador e autor de grandes qualidades e grandes defeitos. Seus livros, como “Educando Crianças Geniosas”, ajudam famílias e promovem uma espécie de teologia aplicada que merece atenção. Há, porém, muito que não se deveria levar a sério, já que vai contra o que há de mais consagrado na psicologia moderna.

29. “Supercrentes” -- Paulo Romeiro [Mundo Cristão]
O autor de “A Crise Evangélica” tem talento e tem algo a dizer. Seus textos, especialmente o famosos “Supercrentes”, têm apontado para os exageros e enganos de muitas posturas comuns no meio evangélico contemporâneo.

30. “Cristianismo e Política” -- Robinson Cavalcanti [Ultimato]
Trata-se de um clássico. Este livro está nas origens de toda reflexão política evangélica. Robinson é importante por outras questões, como seus livros sobre sexualidade (“Uma Bênção Chamada Sexo”, “Sexualidade e Libertação”), mas sua contribuição permanente é o estímulo que deu à reflexão política evangélica.

31. “O Evangelho Maltrapilho” -- Brennan Manning [Mundo Cristão]
Não há outro autor mais importante no meio evangélico nos últimos dez anos do que Brennan Manning. Seus livros devocionais, como “O Impostor que Vive em Mim”, “A Assinatura de Jesus”, “O Obstinado Amor de Deus”, estão transformando radicalmente a maneira como os evangélicos entendem a vida cristã. Eu fico muito grato.

32. “O Pastor Desnecessário” -- Eugene Peterson [Mundo Cristão]
Peterson é muito estimado no meio evangélico brasileiro e um dos autores mais bem avaliados dos últimos tempos. Responsável por projetos como “The Message” (excelente paráfrase bíblica), tem nos galardoado com obras como “Corra com os Cavalos”, “A Oração que Deus Ouve”, “A Vocação Espiritual do Pastor”, “Transpondo Muralhas”, entre outros. Selecionei o que talvez seja o mais importante.

33. “Poder Através da Oração” -- E. M. Bounds [Batista Regular]
Nos anos 70, quando não havia ainda bons livros sobre oração, como o de Richard Foster ou o de Eugene Peterson, os livros de Bounds sobre oração circulavam de mão em mão, trazendo avivamento às igrejas. Hoje Bounds está quase esquecido. Quase.

34. “Cristo é o Senhor” -- Dionísio Pape [ABU]
No fim dos anos 60 e começo dos anos 70, o nome de Pape se destacava pela espiritualidade, profundidade e sucesso ministerial. Seu opúsculo “Cristo é o Senhor” levou muitos à consagração e ao ministério. 

35. “O Caminho do Coração” -- Ricardo Barbosa [Encontro]
Barbosa (junto com Osmar Ludovico, James Houston e outros) é responsável pelo retorno ao interesse pela mística cristã em nosso país. Seus livros nos ensinam uma outra atitude não somente em relação à vida, mas também em relação à teologia. Uma atitude contemplativa. 

36. “O Novo Testamento Interpretado” -- R. N. Champlin [Hagnos]
Não privilegiei obras teológicas e comentários bíblicos nesta lista porque tais livros, em geral, não vendem bem e sua influência é pequena. Uma exceção precisava ser feita em relação ao favorito das bibliotecas. O empenho exaustivo de Champlin precisava ser lembrado, pois ainda vende bem e é o comentário primordial dos evangélicos.

37. “Icabode” -- Rubem Martins Amorese [Ultimato]
Este livro pode não ter sido tão lido quanto é citado, mas definiu um novo tipo de reflexão cristã no Brasil, que propõe diálogo com a cultura em outro nível que não o da evangelização, e sim o da discussão de valores e princípios que podem levar nossa sociedade para um patamar melhor ou pior. É uma boa influência.

38. “A Bíblia e o Futuro” -- Anthony Hoekema [Cultura Cristã]
Este estudo do Apocalipse cresceu em importância no Brasil em uma época em que quase não havia obra que fizesse uma defesa do amilenismo, apesar dos pouco conhecidos esforços de Harald Schally. O livro provocou conversões em massa a partir dos anos 80, e a escatologia nunca mais foi a mesma no Brasil.

39. “Cristianismo Puro e Simples” -- C. S. Lewis [Martins Fontes]
Também conhecido como “Mero Cristianismo”, a busca de Lewis pelo denominador comum da fé cristã impacta brasileiros desde os anos 70. Seleciono o livro simbolicamente, já que Lewis não poderia ficar de fora, seja por causa de “Os Quatro Amores”, “Milagres”, “Cartas do Inferno” ou “As Crônicas de Nárnia”.

40. “A Mensagem Secreta de Jesus” -- Brian D. McLaren [Thomas Nelson]
Em 2007 o leitor evangélico brasileiro foi surpreendido por este livro do mesmo autor de “Uma Ortodoxia Generosa”. Fiquei admirado ao ver como todos passaram a conhecer e a comentar a obra de McLaren, que representa melhor do que ninguém o paradigma teológico evangélico emergente. Não dá pra não ler.

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Ricardo Quadros Gouvêa é ministro presbiteriano e professor de teologia e de filosofia.
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