De como os teólogos brasileiros estão perdendo o bonde da história (I)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015


De Disciplinas Exatas e Disciplinas Fluidas

Não sou teóloga. Não digo isto como um “disclaimer” porque vou meter a pancada nos teólogos, mas para explicar meu ponto de vista. Venho do mundo da linguística e de uma disciplina mais estreita e definida ainda: a fonologia. Das ciências linguísticas a fonologia é possivelmente a mais exata de todas. Os sons produzidos por falantes de uma língua determinada se organizam entre si para formar cadeias que podem ser subdividas em palavras ou frases. Nestas cadeias complexas as unidades de som se comunicam umas com as outras, desaparecem, se amoldam as unidades mais próximas, ou marcam a outra com um pedaço de si, ou influenciam a prosódia da fala. É uma dança interessante, fluida, mas extremamente exata.

O trabalho do fonólogo é entender esta dança dos sons e reduzi-la a uma série de logaritmos matemáticos de aparência algébrica, cheios de sinais letras e números. Se descrevermos algum processo do sistema de sons de maneira equivocada pode-se fazer o caminho reverso e provar que a hipótese produz um resultado final diferente. Sem esta exatidão seria impossível decodificar o som produzido pelo outro. Os logaritmos capengam.
O bom fonólogo olha o sistema e pressupõe algumas coisas sobre ele. Mas se apegar-se demais a suas hipóteses se cega para a realidade dos fatos que pode encontrar nos sons. Mais do que tudo ele tem que ser um investigador dos fatos sonoros e deixar que estes fatos o guiem em suas descobertas.

O teólogo funciona de maneira bem diferente. Na teologia lida-se também com a construção de sistemas, mas desta vez os componentes são ideias. Ao contrário do que dizem alguns “vanguardistas” evangélicos por aí, a teologia é extremamente importante para o cristianismo que construímos. Teologar é construir uma visão de mundo, é tentar encontrar os pressupostos filosóficos para todas as áreas da vida. Teologar é tornar a fé uma experiência do grupo, da comunidade.

A prática da teologia é essencialmente cristã, como diz Moltmann (2008), porque pressupõe a possibilidade de diálogo com um Deus vivo que se preocupa em arrazoar com seus filhos. Outras religiões como o Islamismo e o Budismo, Hinduísmo, não tem uma “teologia”, porque não se prevê a possibilidade deste diálogo. A teologia portanto é a melhor ferramenta cristã para se construir uma proposta social para se buscar a interação com o grupo e soluções em comum, fundamentas numa interpretação bíblica culturalmente adequada (mas que não sobrepõe os valores culturais aos valores bíblicos), e iluminada pelo Espírito.

O problema é que as ideias que alimentam a discussão teológica não são factuais. Não há como testá-las, prova-las. São ideias que o teólogo recebe desta ou daquela escola de pensamento. Ele ingressa num grupo que pré-define interpretações, e passa a pertencer aquela escola. Até aí nenhum problema. Difícil seria esperar que cada novo pensador inventasse tudo do zero. Podemos ir além de Agostinho e Calvino hoje exatamente porque eles nos deram a base para nos apoiar. Porque eles existiram podemos pensar além. Ridículo presumir que se pode criar teologia no vácuo.

O teólogo Brasileiro

Hiebert (2008), propõe que existem conceitos que as culturas ou mantém difusos ou definidos. Infelizmente no Brasil não se entende o “pertencer” a um grupo de uma forma fluida ou difusa na terminologia de Hiebert.  O conceito de pertencer é bem definido.  Pertencer socialmente ou intelectualmente a um grupo é entendido como “vestir a camisa”, ser leal, “lutar pelo time”, obedecer, e obedecer cegamente. É um conceito rígido. Ou se pertence ou não, ou se está dentro ou fora.

A partir do momento que o teólogo brasileiro abraça uma corrente específica deixa de ser um construtor de um sistema, um colaborador e passa necessariamente a ser uma espécie de soldado defendendo o muro de uma cidade. Se eu “pertenço” eu abraço, e porque abraço não duvido, não questiono, não invento. A terrível consequência disto é uma secura total de novas ideias, uma paralisia intelectual, um medo de exclusão que castra o diálogo honesto.

Engraçado é que esta presunção do se estar dentro ou fora de um sistema vai de encontro a uma pressuposição teológica fundamental, a da condição humana. Porque somos humanos estamos fadados à eterna busca. Não podemos dizer que chegamos, que encontramos finalmente a revelação total. Não podemos dizer que prescindimos de dúvidas para continuar caminhando para a frente. Cremos na verdade, não estamos na verdade. A mobilidade intelectual é parte da fé. Reconheço meu erro, aceito a minha ignorância, mudo de ideia, tudo isto porque sou finito, limitado, humano, restrito a este contexto da natureza decaída, rebelde, separada de Deus, portanto desprovida de um espelho perfeito para a realidade espiritual.

A principal tarefa teológica é a busca. (Sl 105:4, Pv 2:4, Lc 11:9) Moltmann define teologia como a paixão pelo reino e pela vida eterna, e a dor pela ausência de Deus e pelo mundo afligido pelo pecado. Ele pensa a teologia como uma busca angustiada pela revelação, uma constante transformação da nossa contradição humana na verdade revelada. Esta revelação vai ser sempre alicerçada na natureza do Deus que não muda, na sua natureza de amor e na sua Palavra, mas ela vai ser fresca, vai ser atual, vai trazer luz para nossa conturbada limitação humana.

A partir da definição de Moltmann se conclui que a teologia chega sempre a um lugar novo, revelador sobre o momento em que vivemos porque tanto a criatura quanto o Criador e dono da revelação estão em constante movimento. Se Moltmann está certo e teologar é mesmo este exercício contínuo pelo novo, pode-se concluir que não se faz teologia no Brasil. Não teologamos fazemos panfletismo, nos dedicamos a fazer propaganda de pontos de vista já estabelecidos.

Por medo de escorregar fora da ortodoxia, por medo da exclusão social e intelectual ao invés de buscar a Palavra incarnada preferimos ficar com o seguro, com o que é senso comum no grupo onde estamos. E aí nos dedicamos ao exercício inútil de defender o que já é considerado pela maioria como ponto pacífico.

Alguns problemas crônicos:

Alguns problemas crônicos da academia e que afetam também nossa teologia latino-americana foram apontados por Thomas Sowell em seu livro: “Intellectuals and Society (2012) Me inspiro em algumas de suas ideias na próxima sessão.

Nós os ungidos

Desde “A República” de Platão pensamos que filósofos, iluminados, estudiosos de certa forma são ungidos para governar os mais ignorantes. Intelectuais, pelo simples fato de conhecerem mais do que a maioria conhece sobre uma certa área, presumem-se capazes de opinar sobre todas as áreas do conhecimento com uma convicção de especialista.

O argumento de Sowell é que intelectuais como Noam Chomsky, por exemplo, linguista importante, que cunhou uma teoria que para o campo foi um divisor de águas é também ouvido com a mesma reverência quando discorre sobre política. Ninguém duvida do brilhantismo de Chomsky na linguística. Mas nas questões sócio-políticas lhe faltam bom senso, mas ninguém percebe porque ele fala de cima de seu pedestal de brilhantismo científico. O intelectual ou o estudioso só pela familiaridade com os livros, já é tratado como um ser superior, e alguém digno de ser ouvido, mesmo fora de seu campo de estudo.

Quando se trata de política então, intelectuais cultivam com arrogância a presunção de saber melhor do que qualquer um. Frases como “o povo não sabe votar” ou até “o povo não sabe o que é bom para ele mesmo”, estão sempre em nossa boca. O consenso é de que alguns poucos iluminados têm não só o direito, mas o dever de decidir pelos outros.

Muitos de nossos teólogos, engrandecendo seu papel, se aventuram a escrever tratados político-teológicos informados apenas pela teologia. Não duvido que saibam muito de teologia. O problema é quando se sentem capazes também de construir elaboradas teses políticas.

Aí tenho que explicar que apesar de crer que teologia é sim base para a construção de uma cosmovisão cristã, ainda assim não passa do alicerce. Não deve construir as paredes da casa. Porque sou teóloga não tenho necessariamente a autoridade para discorrer sobre economia. A teologia como disciplina não me informa questões econômicas especificas.

A Bíblia fala de economia no que diz respeito à moral do bem comum, direito à propriedade privada, mas traça linhas gerais. Não me fala que o Mercado é o diabo nem que o Capital é o Satanás. A Bíblia desmistifica questões econômicas ao invés de codifica-las em códigos místicos. Se plantares vais colhes, se não plantares não colhes. O trabalho dignifica e não diminui o ser humano. Se você tiver empregados, trate-os bem. Se você for empregado de alguém também trate bem seu patrão e o sirva como ao Senhor.

Princípios básicos, simples que podem nos nortear mas seu conhecimento não nos equipa interpretar Thomas Piketty.

Teólogos, pastores, missionários, não são deuses. Não são especialmente ungidos para entender toda e qualquer área do conhecimento humano apenas porque são teólogos.



Referências

Moltmann, Junger 2008. What Is Christian Theology? . Theological Review XXIX.

Hiebert, Paul G. 2008. Transforming Worldviews : An Anthropological Understanding of How People Change. Grand Rapids, Mich.: Baker Academic.

Moltmann, Junger 2008. What Is Christian Theology? . Theological Review XXIX.

Sowell, Thomas. 2012. Intellectuals and Society. Basic Books, 2012. Edited by Basic Books.

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Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?

Igreja: ser e pertencer

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015


Os resultados do Censo Demográfico 2010 mostram o crescimento da diversidade dos grupos religiosos no Brasil. O crescimento da população evangélica, que passou de 15,4% em 2000 para 22,2% em 2010, foi um dos destaques do cenário religioso.  A pesquisa indica também o aumento dos que se declararam sem religião, que chegam a 8%, ou 14 milhões de pessoas. O fato curioso foi que número de evangélicos que não mantêm vínculo com nenhuma igreja cresceu. Segundo o IBGE, passaram de 4% do total de evangélicos em 2003 para 14% em 2009, somando agora 5,4 milhões de pessoas. Parece que vivemos dias quando o velho ditado “Cristo, sim, Igreja não”, embora uma contradição de termos, volta a ganhar popularidade.

A palavra grega “ekklesia”, traduzida como “igreja”, aparece 114 vezes no Novo Testamento. Destas, 5 vezes indicam o que alguns teólogos chamam de “igreja universal”, o corpo de Cristo que reúne todo o povo de Deus na história, desde Abraão aos nossos dias; 95 vezes fazem referência à igreja local (que está em Corinto, na casa de Áquila e Priscila, por exemplo); outras 9 vezes, em Efésios, que podem referir os dois sentidos, tanto universal quanto local; eoutras 5 vezes sem qualquer sentido religioso. Isso significa que as referências do Novo Testamento à igreja,é quase totalmente no sentido de uma comunidade cristã localizada no tempo e no espaço, a comunhão histórica de cristãos de determinada região.

Isso faz sentido, pois o exercício de viver em comunidade se constitui não apenas um dos maiores desafios para todas as gerações de cristãos, como também e principalmente indica a essência do propósito de deus revelado em Jesus Cristo. Podemos construir a compreesnão do significado e revelevância da expressão “igreja: ser e pertencer” a partir de seis eventos narrados na Bíblia: a criação do homem, a Torre de Babel, o chamado de Abraão, o advento de Jesus Cristo, o Pentecoste, e a visão do louvor ao Cordeiro no Apocalipse.

Quando Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, os criou macho e fêmea destinados a expressar o relacionamento da Santíssima Trindade, isto é, a viverem uma “unidade plural”, pois são três as pessoas, mas um único Deus. Adão considera Eva uma expressão de si mesmo: “osso dos meus ossos e carne da minha carne”, sendo, na verdade, duas as pessoas, mas uma só carne (Gênesis 1.26,27; 2.18-25).

A história da Torre de Babel registra o surgimento das nações – antes, um só povo com uma só língua, isto é, uma unidade plural, agora, muitas etnias, espalhadas por toda a terra (Gênesis 11.1-9). Mas Deus continua a insistir no seu propósito eterno para a raça humana, a saber, criar para si mesmo uma outra “unidade plural”, expressão de sua imageme e semelhança, com quem repartir sua comunhão de amor. Essa é a razão porque chama Abraão, com a promessa de fazer de sua descendência uma só nação, para sejam abençoadas todas a famílias da terra (Gênsis 12.1-3).

A descendência de Abraão é Jesus Cristo (Gálatas 3.16), que com seu sangue comprou homens e mulheres de todas as raças, tribos, línguas e nações, e fez deles um só reino (Apocalipse 5.9,10). Por isso é que o apóstolo Paulo diz que “os que são da fé (no Cristo) é que são filhos de Abrãao” (Gálatas 3.7), pois são estes os que receberam o Espírito Santo, derramado sobre toda a carne, isto é, sobre todas as famílias da terra, no dia do Pentecoste (Atos 2.17; Gálatas 3.14).

O Pentecoste é o oposto de Babel. A obra de Jesus Cristo, descendente de Abraão, possibilita o derramar do Espírito Santo de Deus sobre todos os povos, para que a unidade da raça humana seja restaurada e se cumpra o eterno propósito de Deus: “Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito” (1 Coríntios 12:12-13). Assim, “todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão” (Gálatas 3:26-29).

A conversão a Cristo, portanto, implica necessariamente a conversão ao próximo, e o comprometimento com o propósito eterno de Deus de criar para si um povo que expresse sua imagem e semelhança, isto é, seja uma unidade plural, que reflete em sua fraternidade universal a comunhão de amor que existe eternamente nas três pessoas divinas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito. Essa foi a oração de Jesus: “Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste” (João 17:20-23).


Igreja: ser e pertencer. Cristo sim, Igreja sim. Pois é na comunidade dos cristãos que o sonho do Cristo se torna visível.


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Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, “O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia”.
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