A falta que Robinson Cavalcanti faz

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015


Falta-nos uma biografia de Robinson Cavalcanti. Sem as mitificações e reificações de um personagem elevado à categoria de herói. Certamente ele não simpatizaria com este enquadramento e construção. Podemos sugerir um esboço biográfico que o veria como um sujeito histórico visto sob diferentes lentes, desde o católico convertido, o estudante obreiro do movimento estudantil (ABU), o militante, o acadêmico e o bispo. Enquanto não temos esta leitura mais ampla, vale descrever algo que está preservado de sua vida, de maneira incompleta, dentre outras lembranças e memórias.

No retorno da Cidade do Cabo para o Rio de Janeiro, passando por Johannesburgo e Buenos Aires, numa viagem de 17 horas num avião lotado, pude conversar longamente com Robinson Cavalcanti a partir de uma pergunta sobre o anglicanismo no oriente.

O Terceiro Congresso Lausanne para Evangelização Mundial havia se encerrado com a participação de 4.200 líderes de 198 países (16-25/10/2010), e começávamos a digerir o que ali acontecera em termos de mensagem, desafios, comunhão e missão. Percebi o quanto o então bispo teria o que dizer num evento que ficou marcado pela ausência de uma perspectiva mais crítica acerca da missão, ainda sob a hegemonia de uma leitura norte-americana, pragmática, conquistadora e proselitista.

Sem ressentimentos quanto à não participação como palestrante, expôs numa mirada a situação do anglicanismo mundial, suas divisões eclesiásticas, as lideranças principais, as relações com a Igreja Católica Romana, as tendências teológicas e as tensões em torno da questão da homossexualidade. No Congresso, agiu mais nos bastidores dialogando e fomentando os debates, dentro e fora do círculo anglicano, um dos poucos ali que estiveram presentes em 1974, no primeiro congresso.

Esta lembrança se une a tantas outras em seus fragmentos, seletivamente guardados e que agora servem para responder à pergunta sobre a falta que Robinson Cavalcanti faz hoje para a igreja brasileira. Daí evocar três aspectos da personalidade de Robinson que fariam diferença ao cenário que estamos vivendo: a sua memória, o seu humor e a sua lucidez.

Sua memória tinha a facilidade de trazer à lume tanto experiências de vida como de acontecimentos tidos como importantes para a história protestante, fossem nomes, lugares, debates e episódios. O pensamento rápido sintetizava um personagem ou um evento com uma frase ou afirmação, demonstrando uma reflexão previamente feita e já assentada sobre algum tema, sem precipitações. Sua memória era extremamente rica em detalhes e se projetava aos primórdios do cristianismo e do evangelicalismo amalgamando um ao outro, bem como de passagens dos evangélicos na América Latina e Brasil.

Esta herança e compromisso com a fé histórica, a “fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos”, andam escassos e rarefeitos na imediatista igreja brasileira, tão ciosa de resultados a qualquer custo, sobretudo do sagrado depósito. Esta era uma das falas de um Robinson bispo, preocupado com o continuum da mensagem cristã às novas gerações e guardião daquilo que deveria ser considerado legado puro dos antepassados, ou seja, de uma tradição cristã e evangélica.

Os últimos anos de Robinson foram marcados por este alinhamento que lhe valeu uma postura mais combatente e polemista ante questões internas do anglicanismo, mas que as projetava à totalidade da igreja no ocidente e no Brasil. Estava episcopalizado com uma tonalidade de discurso afeito ao de um bispo, pensando na pluralidade, na diversidade e na unidade da igreja. Um Robinson mais conservador e reagente às tendências de uma igreja mais liberal teologicamente.

Entretanto, podemos retomar outros Robinson, antecedente ao episcopado, mais militante, acadêmico e provocador de temáticas conflituosas à igreja como a política e a sexualidade. Esta rica vivência no movimento estudantil, na vida político partidária, na universidade, nos congressos e nas mobilizações populares proveu-lhe de uma bagagem intelectual, crítica e espirituosa que confluiu para uma espiritualidade engajada com as questões sociais.

O humor era uma das suas marcas da personalidade, unido à capacidade da fazer pensar. Fosse numa conversa informal ou numa palestra sua fala nunca se reduzia ao jargão, conseguindo extrair um riso de canto da boca pela tirada inteligente que lançava. Isto nos remetia ao espírito de um sujeito oriundo das Alagoas e de Pernambuco, conhecedor da cultura nordestina e que transitava por entre a riqueza dos folclores, dos sofrimentos, das alegrias, dos ditos e das práticas do cotidiano. Pelo humor desconstruía armaduras teológicas rígidas, bem como discursos enviesados pelo preconceito e pelos medos de uma religiosidade preocupada com as aparências.

Faz muita falta a lucidez das análises das conjunturas políticas e suas relações com o mundo evangélico. O alinhamento evangélico predominante às pautas reacionárias era desmontado de uma maneira contundente e elegante, acadêmica e profética, desde o pertencimento a uma matriz ideológica de esquerda. Como cientista político sabia mapear os cenários, as tendências, os grupos e as forças atuantes na sociedade e no Estado, identificando os evangélicos e os seus posicionamentos.
Era uma fala que poucos faziam no contexto evangélico com agudas dificuldades de fazer um diálogo entre a teologia e as ciências sociais. Ao mesmo tempo, tal lucidez denunciava, desde cedo, os modos como estes evangélicos se inseriam na política reproduzindo os mesmos vícios políticos, as fraquezas éticas, os conluios e a nulidade profética.

A recente eleição presidencial projetou uma divisão tanto ideológica (socialismo e capitalismo) como geográfica (nordeste e sudeste), um tanto anacrônica, mas que interessa à tentativa de desestabilização política. A busca por um motivo fundante para deslegitimar o governo eleito pelo voto tem encontrado na corrupção e na crise da Petrobrás as razões para a justificativa conservadora e temerosa de transformações sociais mais profundas.

O que o Robinson militante, cientista político, acadêmico, de humor refinado e progressista diria para nós hoje? Seria esta análise que faria?

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Lyndon de Araújo Santos é historiador, professor universitário e pastor da Igreja Evangélica Congregacional em São Luiz, MA. É o atual presidente da Fraternidade Teológica Latino-americana - Setor Brasil (FTL-Br).

Animação retrata sina sangrenta da Palestina desde a pré-história

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015


De todas as terras do mundo, talvez a que mais tenha sido banhada por sangue em sua história seja a da Palestina. O histórico militar da região remonta a tempos muito mais remotos do que o atual conflito entre israelenses e palestinos. Durante milhares de anos, a Terra Santa foi palco de incontáveis guerras, massacres e genocídios travados por impérios poderosos. Entre muitos outros, egípcios, assírios, babilônicos, romanos, turcos e britânicos já batalharam pelo território, que também abrigou as Cruzadas e a conquista de Alexandre, o Grande.
A cartunista Nina Paley resolveu contar esta história antiga e sangrenta por meio de uma animação de pouco mais de três minutos, chamada This Land Is Mine (Esta Terra É Minha). Pode parecer pouco tempo, mas acredite: a missão foi plenamente realizada com a beleza da letra e da melodia, aliadas aos detalhados traços de Paley retratando os diferentes povos se engalfinhando pela terra. A narrativa é cronológica, parte da pré-história e chega até os dias atuais, o que permite ter um panorama geral das guerras na região.
As reflexões que o vídeo suscita são muitas - todos os simbólicos personagens têm em comum a implacável convicção de que o território lhes pertence por direito. Matam uns aos outros impiedosamente enquanto entoam mensagens inspiradoras e evocam o próprio Deus, nos fazendo refletir sobre a incoerência abismal entre aquilo que pregamos na arte e na religião e o que de fato praticamos na vida material. O final reserva uma interpretação um tanto surpreendente sobre quem seria, na opinião da cartunista, o verdadeiro padroeiro da Terra Santa.
Aqui é possível encontrar uma descrição detalhada de quem é quem no vídeo, bem como algumas referências históricas dos conflitos.
Confira o clipe legendado:



 POR ANDRÉ JORGE DE OLIVEIRA

Como se pode não falar de Deus depois de Auschwitz?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015



No dia 27 de Janeiro completou-se 70 anos da libertação, pelo Exército Vermelho, de Auschwitz, rede de campos de concentração nazistas no sul da Polônia. Estima-se que mais de 1 milhão de judeus foram assassinados em Auschwitz. Sem dúvida, é uma data que deve ser lembrada.


Em 1998, um redator da Revista Ultimato foi a São Paulo e teve uma triste conversa com Bella Herson, uma das sobreviventes de Auschwitz, que veio morar no Brasil poucos anos após a II Guerra. Em seu trabalho “Judeus na Polônia”, Bella termina dizendo que “A Polônia é o maior cemitério judaico do mundo e, segundo o costume judaico, se alguém colocar uma pedrinha em qualquer parte do solo polonês, certamente estará homenageando, sob ela, uma inocente vida judaica”. Bella fez uma confissão às avessas: “Se existiu Auschwitz, não pode existir Deus”.



Outro sobrevivente, porém, não chegou à mesma conclusão de Bella. Em seu mais famoso livro (“Em Busca de Sentido”, com mais de 9 milhões de exemplares vendidos), o psiquiatra austríaco Viktor Emil Frankl explicou a razão de sua sobrevivência: “Não há dúvida de que o amor-próprio, quando ancorado em áreas mais profundas, espirituais, não pode ser abalado por uma situação de tremendo sofrimento”. Ultimato deu destaque aos pensamentos de Frankl – “o salmista do século 20” - na edição 327, em 2010.



A mesma edição que entrevistou Bella Herson também trouxe a vergonhosa denúncia de que o antissemitismo foi, ao longo de séculos, propagado pelas igrejas cristãs.


O “Mineiro com Cara de Matuto” foi à Auschwitz em 18 de dezembro de 2002 e viu com seus próprios olhos os lugares, os objetos e as marcas do sofrimento das vítimas do nazismo. 


“As lembranças estão ali, em salas enormes e envidraçadas. Numa delas havia uma montanha de cabelos. Em outras, vários objetos de uso pessoal, como pentes, escovas, sapatos, roupas, panelas e outros utensílios de cozinha. Havia também próteses dentárias e muletas. A maior parte das roupas era de crianças. Diante da sala onde só havia malas, o Mineiro fez questão de anotar o nome e a procedência de alguns de seus proprietários: Klara e Sara Fochtmann (de Viena), Herman Pasternak e Irene Bermann (de Hamburgo) e Marie Kafka (de Praga). Esta última era irmã do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Ela e mais duas irmãs morreram em Auschwitz”, relatou o Mineiro. 
Ele lembrou que Auschwitz é “o lugar mais notório de genocídio da história e a maior sepultura coletiva do mundo” e que o museu que agora está lá é o “mais triste cartão postal da cidade”.



Ler sobre os horrores da Segunda Guerra, ouvir depoimentos de sobreviventes, ver documentários e filmes. Tudo isso gera uma mistura de sentimentos no coração: indignação, tristeza, pena, etc. Mas também é verdade que muitas perguntas ainda estão sem respostas, tanto do lado de quem crê em Deus quanto de quem não crê. “Como Deus permitiu isso acontecer?”, perguntariam os que não têm fé. “Como o ser humano, dotado da luz poderosa da razão e da ciência, pôde fazer isso?”, perguntariam os religiosos, estupefados com a arrogância e com a maldade dos que se sentiram superiores.



A verdade é que não há respostas definitivamente esclarecedoras, porque a ferida ainda dói e o que aconteceu foi algo absurdo. Mas há esperança. A mesma que teve Viktor Frankl e a mesma que tem o teólogo Jürgen Moltmann, o “profeta da esperança”:



“Sem o conhecimento de Cristo pela fé, a esperança se torna uma utopia que paira em pleno ar; sem a esperança, entretanto, a fé decai, torna-se fé pequena e finalmente morta. Por meio da fé, o homem entra no caminho da verdadeira vida, não somente a esperança o conserva neste caminho. Desta forma a fé em Cristo transforma a esperança em confiança e certeza; e a esperança torna a fé em Cristo ampla e lhe dá vida”.



Em 1948, o jovem Moltmann teve que confrontar-se com a grande pergunta da época: “como se pode falar de Deus depois de Auschwitz?”. Num relato autobiográfico, o profeta da esperança conta: “Nos campos na Bélgica e na Escócia experimentei o colapso das minhas certezas, e neste colapso encontrei uma nova esperança na vida cristã”. A partir de então, Moltmann começou a se perguntar: “Como se pode não falar de Deus depois de Auschwitz?”.

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por Equipe Editorial Web Ultimato
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